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Publicado em setembro 15th, 2011 | por Thiago Momm

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OS FATOS SÃO SUBVERSIVOS

Qual a última notícia que você leu em uma televisão de elevador? E a mais relevante?

Perguntas capciosas, que pouca gente deve conseguir responder. Alguns críticos comparam o excesso de informação ao universo de fast food – e se a notícia de jornal estaria para o Big Mac, a da televisão de elevador seria aquela balinha do caixa que não muda em nada o seu dia.

Nesse cenário, recomendo empolgado Os fatos são subversivos – escritos políticos de uma década sem nome (Companhia das Letras, 432 p., R$ 59 ou R$ 47,20, com desconto), do historiador inglês Timothy Garton Ash. Ele se coloca, há 30 anos, o desafio de escrever “a história do presente”, uma combinação de erudição e jornalismo – de fatos observados de perto, como nas reportagens, e publicados com muito mais referências e contexto, como nos ensaios de história.

Isso ganha ainda mais valor em tempos, como diz o próprio Ash, de “sucursais no estrangeiro fechando como luzes de escritório que um zelador apaga em sua ronda noturna”. Ou seja, há cada vez menos correspondentes, no que dependemos mais e mais de obstinados como Ash perseguindo os acontecimentos de perto planeta afora.

Bush, Orwell, Cidade de Deus

Os fatos são subversivos traz 48 textos sobre os anos 2000. O livro é dividido em sete capítulos, que passeiam por revoluções, EUA, Europa, Islã, Oriente, mundo cultural e algumas pensatas. Timothy Garton Ash é espantosamente íntimo do globo. Esteve na periferia brasileira comparando o que viu por lá a Cidade de Deus; esteve na Ucrânia, em Belarus, na Sérvia, na Transnístria (um para-estado surgido de dissidência com a Moldávia), nos EUA, conversando com Bush, e até colocando as mãos em listagem anticomunista de George Orwell guardada pelo governo inglês.  

Ash reflete sobre as revoluções de 68 e 89, a crise de identidade europeia, o sentimento da Grã-Bretanha de não-pertencimento ao continente, o pateticismo dos hinos nacionais, a confissão do escritor alemão Gunter Grass de ter feito parte das SS, terrorismo, religião, 11 de setembro, cotas raciais brasileiras.

“A Europa perdeu a trama”, diz o autor em A nova narrativa da Europa, um dos excelentes artigos do livro. “Uma narrativa política compartilhada sustentou o projeto do pós-guerra de integração europeia (ocidental) por três gerações, mas ele se desintegrou com o fim da Guerra Fria. Agora, a maioria dos europeus mal sabe de onde viemos, nem compartilhamos uma visão de para onde queremos ir. Não sabemos por que temos a União Europeia ou para que ela serve. Portanto, precisamos urgentemente de uma nova narrativa.”

Ash lembra um velho gracejo de que o continente consiste em “um grupo de povos unidos pelo ódio comum a seus vizinhos e uma incompreensão compartilhada do seu próprio passado”. A seguir, o historiador propõe seis pontos para o início da nova narrativa europeia, partindo da liberdade a se comemorar: em 1942, o continente tinha como livres apenas Grã-Bretanha, Suíça, Suécia e Irlanda; em 1962 havia ditaduras na Espanha, em Portugal e no leste; na década de 80, persistiam as ditaduras comunistas; hoje, o “único regime autoritário grave” é Belarus.  

Stasi

É tentador dizer, de um livro tão articulado e fluente, que ele compensa uma década de notícias internacionais não acompanhadas, mas não é exatamente isso. Quem vem deixando de lado o noticiário mundial terá certa dificuldade para entrar na espiral de especulações do historiador. Foi o meu caso nas partes sobre o oriente e o Islã. De resto, tendo o abecedário factual dos acontecimentos, fui junto – e fui muito bem: Ash escreve fácil, leve, sem que isso signifique condescendência ou ideias simplórias. Pelo contrário. Sobra erudição ao homem. O que falta é pedantismo. 

Então o ganho é este: para quem estava apenas com notícias de jornal e elevador empilhadas, bem informado mas de uma maneira caótica, Os fatos são subversivos dá profundidade e ajuda a ordenar o caos. Naquela metáfora gastronômica, é a refeição elaborada, substanciosa e de muitos pratos, que merece ser degustada sem pressa.

Um dos melhores artigos é o que fala sobre A vida dos outros, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007. O longa trata da Stasi, a polícia da Alemanha Oriental até 1989, sob comunismo. Sem deixar de reconhecer diversos méritos do filme tão estimado no meio intelectual, Ash faz ver o carregamento excessivo de cores, romance e melodrama na história. Na Berlim Oriental, em que o próprio historiador morou por muitos anos, tudo era “mais cinzento, mais vulgar e banal”.

Há inclusive erros de figurino no uniforme da polícia. Já estive em dois museus da Stasi e não havia percebido isso no filme. Os bons historiadores estão aí para nos abrir os olhos, melhorar a vista.

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Os fatos são subversivos – escritos políticos de uma década sem nome 
Timothy Garton Ash, Companhia das Letras, 432 páginas
R$ 59 (R$ 47,20, em promoção de algumas livrarias)

TRECHO
“[Bush] pareceu ainda menos satisfeito quando Lionel disse que os europeus temiam que os Estados Unidos pudessem mudar do ‘multilateralismo insensato para o unilateralismo insensato’. Para dizer a verdade, o presidente não me pareceu familiarizado com a palavra multilateralismo, para não falar da própria coisa. Quando ele voltou ao assunto mais tarde, virou-se para Barber e disse algo como ‘Então, isso é o seu multiculturalismo… ou multinacionalismo…’ .Ficamos ambos com a impressão de que ele queria dizer multilateralismo. Multiqualquerdiabodecoisa, sejá lá o que for.”

 

 

 

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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