Estante Turner_Ovid_Banished_from_Rome

Publicado em maio 8th, 2012 | por Thiago Momm

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OVÍDIO, UM FANFARRÃO

Na introdução de A arte de amar na edição da L&PM, Ovídio é um “homem raro”, “espécie de utopista feliz”, “homem de sentimento”, poeta de “genialidade”.

Não é mencionado, em nenhum momento, que o autor do clássico As metamorfoses também foi, no seu tempo (43 a.C.-17/18 d.C.), o precursor da micareta.

“Mesmo que ela não os devolva [beijos], tome-os sem que ela os dê. No começo, talvez ela resista e o chame de ‘insolente’; sempre resistindo, ela deverá ser vencida”, aconselha o protomicareteiro romano, em seguida sugerindo “cuidado para que ela não possa se queixar de sua rudeza” e atenção para o fato de que, uma vez beijada, a mulher deve ser “tomada à força”, já que “esta violência agrada às mulheres”.

Contraditório? Eis Ovídio, um fanfarrão. Tão sisudos são os críticos e tão respeitosos somos nós que o aspecto rasteiro de A arte de amar (no original, Ars amatoria) costuma passar em branco. Fala-se que o livro “seduz por sua simplicidade e inquieta por sua ingenuidade”. Um eufemismo. Trata-se de um manual canalha que, mesmo escrito há 20 séculos, é replicado de várias formas em botecos e baladas até hoje.

A arte de amar um manual canalha que, mesmo escrito há 20 séculos, é replicado de várias formas em botecos e baladas até hoje

“A noite dissimula as manchas e é indulgente com todas as imperfeições; nestas horas qualquer mulher parece bela. Tenha o dia como conselheiro para julgar as pedras preciosas”, diz Ovídio, antecipando truísmo conhecido de qualquer baladeiro do século 21. E que tal um pouco de auto-ajuda? “Antes de tudo, que o seu espírito esteja persuadido de que todas as mulheres podem ser presas: você as prenderá; estenda apenas as suas redes”, aconselha o mestre, jurando que, em mil, “apenas uma resistirá”.

Ovídio, o mestre. “Se seus atos, ainda que bem dissimulados, vierem a ser descobertos, mesmo assim, negue-os até o fim. Não seja nem submisso nem mais carinhoso que de costume; estes são os maiores sinais de um coração culpado”.

Ou: “Sobretudo não vá criticar numa mulher seus defeitos”, “não pergunte sua idade”, “prometa, prometa; isto não custa nada; em promessas todo mundo pode ser rico” e “se sua amiga o contradisse, ceda; é cedendo que você sairá vencedor”.

Na página 67, um conselho repetido, com palavras mais churrasqueiras, por um amigo aos outros depois do futebol da última terça-feira: “Divirtam-se, mas sejam prudentes; que sua falta [traição] seja dissimulada e furtiva (…) não tenha horário fixo para a sua infidelidade, e (…) não combine nunca encontros no mesmo lugar”.

O poeta escancara: “Deseje agradar igualmente ao amante de sua bela; ele lhe será mais útil tornando-se seu amigo. (…) Diga: ‘Saúde àquela que eu amo; saúde àquele que partilha seu leito’, mas interiormente deseje: Morte a seu amante.”

Ovídio, claro, é o que veio a ser chamado de machista. É o que esperamos da época, mas a terceira parte de A arte de amar, dirigida às mulheres, reserva surpresas. Sim, há conselhos grosseiros sobre posições sexuais, roupas e beleza (“mesmo feia, você parecerá bela aos olhos turvos pelo vinho”), mas também, naqueles tempos de infinito bunda-lelê, a aceitação da traição feminina. Diz um resignado Ovídio: “Mas, já que vocês querem enganar seus maridos (…), quando escreverem a um amante, tenham sempre a aparência de dirigir-se a uma mulher; em seus bilhetes, digam ‘ela’ onde deveria ser ‘ele’”.

O ideal, como reforçado na página 83, é esse vale-tudo. Traídas, as mulheres também devem trair. “O que você perde?”, pergunta Ovídio à leitora, e ele mesmo responde: “A água que você usa para se lavar.”

Ovídio, Ovídio.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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