Estante paraisos_artificiais

Publicado em maio 28th, 2012 | por Revista Naipe

PREÇOS

Na primeira semana em cartaz, Paraísos Artificiais ficou entre as dez maiores bilheterias no país.

Em uma impactante praia nordestina, Nando, Erika e Lara acampam em um festival de arte e cultura alternativa. Por isso se entenda a fusão de uma rave com atividades bichos-grilo ao longo de vários dis. As cenas foram gravadas no Recife mas a referência do diretor Marcos Prado foi o Universo Paralello, festival na Bahia em que esteve duas vezes como “intensivão” para o filme.

A história também se passa no Rio de Janeiro e em Amsterdã. Nando se envolve com o tráfico de drogas. Erika é uma DJ ascendente.

O título faz referência ao livro de 1860 em que Baudelaire avaliou especialmente o ópio e o haxixe. O filme se destaca, da mesma maneira, pelo quanto consegue transmitir a subjetividade do uso de drogas. Velocidades variadas e closes inspirados aproximam o espectador da catarse à beira-mar, entre coqueiros e tendas, sob centenas de estrelas e música eletrônica tantalizante. Panoramas da multidão se intercalam com as alucinadas epopeias individuais. Nando tem sua breve amostra de eternidade, versão século 21.

Essa amostra, como se vê em muitas das cenas fora do festival, cobra seu preço. Talvez um preço alto demais, aproximando o ótimo filme de alguns extremos. Logo no começo descobre-se que Nando esteve preso por causa do tráfico. Sem especificar mais, adiante-se apenas que há outras desgraças à espera. Por momentos, o foco se perde nas exceções, restando à Erika representar um desenrolar mais comum.

Motivado pelo filme, reli ontem O culto da emoção, livro do filósofo francês Michel Lacroix. Vivemos, ele demonstra, a era do Homo sentiens. Isso não significa sensibilidade. Pelo contrário, estamos anestesiados. Para sentir, buscamos então mais a “emoção-choque”, próxima de uma descarga, do que a “emoção-contemplação”. Essa, claro, tem a ver com uma vida mais lenta, atenta, repleta de memória, consciência progressivamente sedimentada, “diálogo consigo mesmo”. Aquela, com “excitação, agitação, furor, ecstasy, estados alterados de consciência, condutas de risco, formas ruidosas de lazer, aventuras extremas, violência, transe” e assim por diante.

A emoção-choque, afirma o filósofo francês Michel Lacroix, deixa a “lembrança meio amarga de um prazer sem futuro”

A emoção-choque, mais ligada ao artificialismo, resultaria em uma vida interior empobrecida. Por melhor que seja, “deixa a lembrança meio amarga de um prazer sem futuro”, com muitas vezes uma repercussão, em longo prazo, “inversa à que o sujeito sentiu originalmente”.

“[Hoje] o indivíduo”, escreve Lacroix, “se assegura de sua identidade pelas comoções que o sacodem, impressões inéditas que o espantam, atividades histeriformes que o atordoam. O que não impede, ao mesmo tempo, que ele queria se manter ‘numa boa’”. Não por acaso, Nando diz para Erika: “A gente é o que a gente sente”.

Muitos de nós, mais novos, sabemos ser preciso experimentar menos, ou não experimentar só a turbulência, e metabolizar mais. Claro que a maré nos arrasta na direção contrária. Os prazeres são muitos e reais. O depois é outra coisa. Passada a travessia dos 20 para os 30 anos, ficamos angustiados ao lidar com a rotina menos sonora e furiosa que segue. Nos orgulhamos disso, como se inquietude fosse apenas sinônimo de uma grande personalidade. Não necessariamente.

Ao abordar tráfico e uma overdose, Paraísos artificiais perde a chance de focar tragédias mais sutis.

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