Estante redlight

Publicado em agosto 30th, 2010 | por Thiago Momm

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SACANAGEM CABEÇA

Um top 50 dos maiores prostíbulos de todos os tempos venderia que nem camisinha.

Mas o americano Emmett Murphy não teve essa manha publicitária, e seu História dos grandes bordeis do mundo é mais pop no título que no conteúdo.

Em vez apenas elencar bordéis o livro, ainda bem, extrapola a promessa da capa e é uma inteligente história da prostituição em geral. Publicado em 1983 nos EUA, saiu em 1994 no Brasil, onde hoje é uma raridade de sebo.

Tudo bem que sabemos ser a prostituição a atividade mais antiga do mundo, mas ignoramos muita coisa que se passou entre o surgimento dos bordéis – no Império Sumério, quatro milênios a.C. – e a mais recente propaganda dos lupanares aqui em Florianópolis, que agora tentam atrair casais para suas baladinhas peraltas (o que é obviamente apenas um exemplo, já o livro não termina na ilha hoje, mas na Nova York dos anos 1970).

Você sabia que a dança do ventre surgiu pra que dançarinas-prostitutas encaixassem nos clientes obesos? Que o primeiro bairro com luzes vermelhas identificando os bordeis data de 1234, na cidade francesa de Avignon? Se você é fã de curiosidades de mictório assim, lá vão mais algumas:

– Os bárbaros às vezes mandavam afogar, enforcar ou até enterrar vivas as prostitutas.

– Na Idade Média, em todo o mundo Mediterrâneo a palavra “atriz” era sinônimo de “puta”.

– Na Inglaterra, em 1661, havia cerca de 100 mil prostitutas – 1 a cada 10 mulheres na idade “condizente”.

– Em Nova York, em 1890, havia 35 mil prostitutas, apenas um pouco mais que em Roma no ano 1, 32 mil.

Murphy escreveu um livraço porque não se limita a gracejos com informações assim. Antes, costura à história da prostituição a história geral, dando muita relevância ao conteúdo sacana e oferecendo uma ótima visita guiada aos milhares de anos do ofício. “Tanto quanto a música, a pintura ou a literatura, o bordel retrata a cultura da época. E, obviamente, a sociedade onde está inserido”, sustenta Murphy, sintetizando a importância do seu livro.

A prostituição, lembra, sempre envolveu “interesses imobiliários e religiosos, política e crime e, por extensão, guerras, conluios e traições”. Uma prostituta chamada Teodora, por exemplo, nasceu em 508 d.C. em Constantinopla (antes Bizâncio, hoje Istambul) e lá teve um poder raro entre as mulheres do ramo. Caiu na vida aos 12 anos, em um bordel, e aos 19 se tornou imperatriz bizantina, tendo sido coroada e ungida na gigante basílica de Santa Sofia.

Teodora tentou tirar suas antigas colegas do comércio sexual, mas sem sucesso. Narra o historiador Procópio:

“Era muito natural que a Grande Rainha se dedicasse a favorecer suas antigas colegas. Quinhentas prostitutas habituadas a exercer seu ofício publicamente nas cercanias do Forum mediante uma tarifa modesta foram convidadas compulsoriamente pela imperatriz a entrar num novo convento denominado ‘O Arrependimento’, situado no distante litoral do Bósforo, bem-merecido retiro para meditação. Parece, no entanto, que a meditação monástica não exerce grandes atrativos sobre essas mulheres, e muitas delas decidiram abolir suas oportunidades de redenção pulando no mar à noite.”

Já no século 20, a preocupação da bem-sucedida cafetina norte-americana Polly Adler era outra: “Minha antiquíssima profissão ainda é florescente e lucrativa, mas quem mais ganha dinheiro com ela não são as meninas nem a madame. Proxenetas, fiadores, advogados e aproveitadores levam quase todo o dinheiro do amor.”

Ou seja, a importância da prostituição sempre fui muito além dos subterrâneos sociais, o que o livro demonstra perfeitamente. O texto de Emmett Murphy já foi chamado de “algo feito aparentemente sem esforço e tão bonito quanto Nat King Cole cantando”. O autor morreu em 2001.

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A Naipe recomenda:

História dos grandes bordéis do mundo, de Emmett Murphy;
Ed. Artes e ofícios, 272 páginas, a partir de R$ 20 em sebos

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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