Estante rebordosadentro

Publicado em novembro 25th, 2010 | por Rosielle Machado

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REBORDOSA REVISITADA

Já faz 50 anos, mas o mundo continua nostálgico.

De tanto que os anos 1960 são revisitados, parece que muita gente com hoje 20 e poucos anos se lambuzou na lama em Woodstock, assistiu a apresentação dos Beatles no Ed Sullivan Show, viu um porco inflável num show do Pink Floyd.

Mikail Gilmore realmente viu tudo isso. Estava lá, no olho do furacão. Em 1969, tinha 18 anos. Usou LSD, revoltou-se com a guerra do Vietnã, apaixonou-se pela contracultura. Mas, contra as expectativas, em Ponto Final – crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões ele não faz coro àquele papo de “olha só que época perfeita”. Gilmore na verdade diz algo como “ok, foi um momento único na história, mas veja bem”. Em 428 páginas, ele disseca os tormentos e desilusões das personalidades que fizeram daqueles os anos incríveis.

Boa parte das 19 histórias do livro foram publicadas entre 1990 e 2007 na Rolling Stone americana. Além de figurinhas fáceis como John Lennon, George Harrison, Bob Dylan, Hunter Thompson, Bob Marley, Johnny Cash e Jim Morrison, o livro também traz outros ilustres que escandalizaram o mundo há quase meio século, mas hoje não têm mais tanta fama.

É o caso de Timothy Leary, o psicólogo que convenceu Harvard a encomendar um lote de substâncias psicodélicas para estudos práticos. Ou Ken Kesey, que escreveu Um estranho no Ninho e promovia os acid tests – festas organizadas para ver o resultado de um monte de gente tomando LSD em ambientes não controlados.

Freak Party

As drogas estão presentes em todo o livro, unindo as 19 crônicas. Há álcool, anfetamina, maconha, LSD, depressão, desilusões e genialidade – não necessariamente nessa ordem. Cada história tem seu tempero: Johnny Cash teve uma casa na Jamaica, Bob Marley se envolveu com uma Miss Universo, Jim Morrison foi o primeiro cantor a ser preso num show de rock, Hunter Thompson fundou um partido político, o Freak Party.

Foram anos loucos, e Ponto Final faz a pergunta que muitos nostálgicos (independente de terem vivido a época) não fazem por medo de soar conservadores: os anos 60 valeram o que custaram?

Já na introdução do livro Gilmore diz que aquele ideal de liberdade aos poucos se transformou numa “licença para fazer cagadas”. Ele tenta evitar o saudosismo ou romantismo, mas sem perder a ternura: “Talvez tenha sido melhor que tudo tenha passado, embora poucas coisas desde então tenham sido tão boas.”

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Quatro livros para injetar a contracultura

O teste do ácido do refresco elétrico, de Tom Wolfe; Rocco, 440 p., R$ 48,50; Contracultura através dos tempos, de Joy Dam e Key Goffman; Ediouro, 432 p., R$ 58,90; As portas da percepção, de Aldous Huxley; Globo, 170 p., R$ 29; Um estranho no ninho, de Ken Kesey; Best Bolso, 420 p., R$ 19,90

*Esta matéria foi publicada originalmente publicada na Naipe 4. A revista, que circula em Florianópolis, Balneário Camboriú e Itajaí, também pode ser lida online. Clique aqui

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Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



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