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Publicado em outubro 20th, 2012 | por Thiago Momm

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SEXUAL HEALING

Sacaneiam Alain de Botton.

Do lançamento de Como pensar mais sobre sexo, no começo do ano em inglês e agora traduzido por aqui, pedras voaram na direção da cabeça de poucos cabelos do filósofo suíço best-seller.

“É preciso um homem de posse de um cérebro particularmente elástico para saltar da ideia ‘o mundo está inundado de pornografia’ para a sugestão de que a solução é criar ‘pornô melhor’, ou, para colocar de uma maneira menos qualitativa, mais pornô”, revoltou-se a colunista Hadley Freeman, do Guardian. Sua crítica é repleta de desinformações sobre o livro e rancor feminista mal disfarçado em ironias baratas. Nos 478 comentários que seguiram ao texto, muitos fizeram eco ao simplismo de Hadley com ofensas diversas ao “velho de Botton”, hoje 43 anos de vida e 20 de mercado editorial.

Um outro crítico ironizou o esquematismo do filósofo, que em todos os seus livros usa numeração para separar seus argumentos e alguns quadros e fotografias artísticas para reforçá-los.

O próprio Alain de Botton não nega buscar uma escrita diretamente útil aos leitores. Além de salpicar conselhos nos seus ensaios, criou e coordena o projeto A escola da vida, que reúne outros pensadores e oferece, das formas mais variadas, “boas ideias para a vida cotidiana”.

Logo, o homem é acusado de ser um didático interesseiro. Mesmo que seus escritos estejam bem mais para diagnósticos sofisticados do que para autoajudas pasteurizadas.

Humores ambíguos

De Botton pode ser acessível e cordial. Pode ser menos abstrato, enlevado e transgressor que Henry Miller, Anaïs Nin ou Pascal Bruckner. Mas não é, de maneira alguma, superficial.

Vejam este trecho de Como pensar mais sobre sexo: “Pornografia, como álcool e drogas, enfraquece a habilidade de suportar certos tipos de sofrimento que temos que experimentar se quisermos conduzir a nossa vida propriamente. Mais especificamente, reduz a nossa capacidade de tolerar nossos humores ambíguos, de preocupação e tédio flutuantes. Nossos sentimentos de ansiedade são genuínos mas confusos sinais de que algo está errado, e portanto precisa ser escutado e pacientemente interpretado – processos improváveis de se completar quando temos a mão, no computador, uma das maiores ferramentas de distração já inventadas”.

Mais: “Sempre que sentimos um desejo irresistível de fugir dos próprios pensamentos, podemos ter uma razoável certeza de que algo importante está tentando chegar na nossa consciência – e é precisamente nesses momentos que a pornografia da internet é mais apta a exercer sua força insana, nos fazendo escapar de nós mesmos e ajudando a destruir nosso presente e futuro”.

“Mais especificamente, [o consumo de pornografia] reduz a nossa capacidade de tolerar nossos humores ambíguos, de preocupação e tédio flutuantes.”

Como se vê, de Botton também não pode ser acusado, como pela crítica do Guardian, de ser um defensor da pornografia. O que ele faz, como nas suas outras obras, é misturar muito bem o reflexivo e o mundano. Por mundano, entenda-se que ele cita sites pornôs e sabe traduzir perfeitamente o ponto de vista de um consumidor regular.

Por reflexivo, entenda-se um insight assim: “Nobreza como Aristóteles concebeu em Ética a Nicômano – ‘o completo florescimento do que é mais distintamente humano de acordo com as virtudes’ – com certeza foi deixada para trás quando uma mulher da antiga União Soviética é forçada a ir para a cama, três pênis são brutalmente inseridos nos seus orifícios e a cena é gravada para o entretenimento de uma audiência internacional de maníacos. Estamos longe da dignidade, felicidade e moralidade – mas não tão longe, para certos olhos pelo menos, do prazer”.

Que um livro contemporâneo sobre sexo trate de pornografia virtual, aliás, é quase um mérito por si só. Afinal são tempos, como a Naipe retratou nesta reportagem aqui, em que as pessoas gostam mais de pornografia virtual do que de si mesmas, em que compulsões matam sensibilidades e em que, como ironizou uma escritora, sexo de verdade se tornou “apenas pornografia ruim”.

O bonzinho De Botton, no que parece ser uma ressaca onanista, chega a cogitar se algum tipo de censura branda não nos iria bem, dados os prejuízos práticos e morais do consumo de pornografia virtual. Eis então que ele se sai com aquela sugestão de um novo tipo de pornô. Seria um gênero que não “nos forçasse a escolher entre sexo e virtude – uma pornografia que nos convidasse a apoiar, em vez de permitir o enfraquecimento, dos nossos valores mais altos”.

Aqui, o autor começa a delirar sobre as sutilezas eróticas de alguns quadros da arte cristã como inspiração. Muito bem intencionado, mas bastante esquisito e pouco imaginável. Se os homens retrocedessem dos vídeos com as mulheres da antiga União Soviética para os filmes eróticos sem socos nas costas preferidos por (muitas das) namoradas, já seria algum ganho.

Irregular

Como pensar mais sobre sexo, porém, é sobre muitas outras coisas. Rejeição, amor, desejo, adultério, solidão, todos esses temas passam pelo teclado de Alain de Botton. No geral não se trata, como admite o próprio filósofo, de pensar mais sobre sexo, como sugere o título comercialmente ladino da obra, mas de pensar melhor, mais profundamente a respeito. Isso passa, afirma, por se sentir menos estranho em relação às nossas vontades e ao nosso desempenho, especialmente em tempos liberais, quando sexo divertido e desencanado se torna quase uma obrigação.

No geral não se trata, como admite o próprio filósofo, de pensar mais sobre sexo, como sugere o título, mas de pensar melhor, mais profundamente a respeito.

Apesar de não merecer um anacrônico rancor feminista e de ter suas inspirações, como nos trechos citados antes aqui e em muitos outros, Como pensar mais sobre sexo é irregular e fica aquém dos melhores livros do autor. Seu estilo de argumentações calmamente construídas que desaguam em conclusões peculiares parece ter atingido o auge no incrível A arte de viajar. As consolações da filosofia foi outro ótimo livro. Ensaios de amor, seu primeiro livro (de 1993, mas só traduzido aqui no ano passado), também é irregular, mas impressiona como estreia.

Como pensar mais sobre sexo parece se dirigir, em diversos momentos, a pessoas de meia-idade que precisam reinventar sua vida sexual. Soará estranho, a um leitor mais novo (e não inglês), o discurso eufórico sobre como não deveríamos nos sentir culpados em trair. O que era isso, mesmo?

De resto, apesar de sobrarem bravatas sexuais de botecos no mundo, o sexo parece fluir melhor para muito mais gente do que para o nosso querido filósofo: “Assim como a felicidade, uma noite maravilhosa de sexo talvez seja uma preciosa e sublime exceção”.

Esquisito.

Em A arte de viajar, os diagnósticos de Alain de Botton não dão essas falhadas.

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Como pensar mais sobre sexo
Alain de Botton
Ed. Objetiva, 152 páginas
R$ 26,90
Avaliação Naipe: bom

Leia aqui, no site da editora, parte da introdução do livro.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to SEXUAL HEALING

  1. Lauro L. Dal Magro says:

    Compartilho de que na discrição é que encontramos mais motivação, “o mundo está inundado de pornografia” esta é uma realidade, mas é só uma pequena parte da decadência da atual Cultura….

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