Estante shame_dentro

Publicado em março 30th, 2012 | por Thiago Momm

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SHAME: UMA CRÍTICA VITORIANA

Separe 101 valiosos minutos para assistir a Shame.

Não se trata de terminar o filme como quem passou o final de semana em águas termais: Shame é um dolorido retrato destes instáveis, erráticos, confusos, patéticos seres de duas patas que se multiplicam por aí – os humanos.

Em Nova York, Brandon (Michael Fassbender), 30 anos, não consegue controlar sua vida sexual. À certa altura sua irmã, Sissy (Carey Mulligan), aparece e insiste em morar no seu apartamento – um fato relevante mas superestimado nas sinopses. O principal é que, na mescla de sexo pago e gratuito, virtual e real, Brandon tem dificuldades para dar um ponto final nas suas noites. Trabalho, lazer, emoções, companhias: tudo aparece reduzido diante da compulsão por sexo – os habitantes minúsculos de Lilliput diante do gigante.

Isabela Boscov, crítica da Veja que leio (e admiro) com frequência, se saiu com estas em vídeo postado no seu blog: 1) “Shamenão é um filme que diga qualquer coisa de interessante, esclarecedora ou envolvente sobre a compulsão sexual”; 2) “Não é capaz de iluminar minimamente as razões desse personagem [Brandon]”; 3) “(…) as cenas de sexo vão se tornando tão degradantes, tão repetitivas, tão monótonas que chega uma hora que você só consegue responder àquilo com indiferença”.

Não consigo eleger o maior disparate entre os três. Mas comecemos pelo terceiro.

Ao classificar as cenas de sexo de “degradantes, repetitivas e monótonas”, Boscov reconhece um dos pontos fortes do filme. Como transmitir melhor a degradação, repetição e monotonia de um viciado em sexo do que com cenas assim? Com algum dos noturnos de Chopin ao fundo enquanto dulcificadas personagens se abraçam em um quarto sombreado? Na verdade, as cenas de sexo são muitas e, sim, escancaradas, mas ainda assim mais elegantes do que sugere Boscov. Estranho que o realismo de um ator ao interpretar Ray Charles ou sentir o estilhaço de uma granada sejam tão mais bem-vistos que a crueza em cenas de sexo. Para essas, sempre resgatamos ecos morais vitorianos. Quer dizer que eu sou assim transando? Absurdo!

Ponto dois. Se Shame não “ilumina minimamente as razões” de Brandon é porque sabe ser elíptico em tempos falastrões e opiniáticos. O que a crítica da Veja esperava? Mais um resgate barato de ideias freudianas ou divórcio dos pais? Uma explicação clara da compulsão do protagonista só poderia ser feita pelo diretor de Velozes e furiosos. No metrô, Brandon tenta resistir a impulsos, mas cogitar sexo com uma mulher torna sua manhã menos deprimente que a dos outros passageiros; no trabalho, seu acesso à pornografia no computador não é muito pior que a falsa animação do seu chefe; em casa a irmã, sem vícios, também se sente vazia. Aspectos como esses demonstram que, além da formação das pessoas, o desnorteado cotidiano contemporâneo tem seu peso – parece sugerir o diretor, Steve McQueen.

Então Shame ilumina, sim, alguma coisa. Mas pouca, na medida certa para não cair em moralismos baratos – para não dar aos tolos o alento: “Ah, claro. É isso que faz alguém ser assim”. Contardo Calligaris, psicanalista que escreve na Folha de S.Paulo, chegou mesmo a dizer que Shame, “um filme ótimo”, é “ousado e careta”. Ousado pelo retrato mas careta por associar a vontade constante de sexo a uma patologia. Leia aqui a crítica.

Acredito que as respostas aos pontos dois e três já incluam a resposta ao primeiro. O filme é excepcional e a contrariedade de Isabela Boscov diz muito sobre isso.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to SHAME: UMA CRÍTICA VITORIANA

  1. Gabi says:

    Thiago,
    Este filme mexeu tanto comigo que na verdade não sabia o que dizer, o que pensar. A cena final me deixou ainda mais confusa.. moralista? Polêmico, na certa.
    Acabo de ver Hunger, do mesmo diretor e me deparo mais uma vez com a sutileza do silêncio, sem dúvida o que mais me instiga nos dois filmes.
    Você foi muito feliz nas suas palavras – as mesmas que o filme dispensa categoricamente, mas que “em tempos falastrões e opiniáticos” são um bálsamo!

  2. Thiago Aguiar says:

    Parabéns Thiago. Uma obra madura como Shame, que não sucumbiu aos modelos tendenciosos e conclusivos dignos de lavagem cerebral militar, não merece uma avaliação limitada como a de Boscov, mas sim uma visão interessada como a sua. Me parece comum que obras que confrontem realidades naturalmente humanas sejam tratadas com maior horror que as incoerências de um herói norte-americano ou a lenga lenga dos roteiros previsíveis, aconteceu com muitos como A Serbian Film, Irreversible, Je Vous Salue Marie, Antichrist… Cabe aos cineclubes abrigarem as obras que ainda não movimentam as multidões que pagam os alugueis dos Shoppings, e a nós cabe buscar essas obras para assisti-las e opniões como a sua para ter uma discussão verdadeiramente interessante.

  3. Marcelo says:

    Parabéns!!! Através do comentário de um filme você conseguiu sintetizar, com muita clareza, o absurdo moralismo impregnado em nossa cultura. Muito bem dito: “eu sou assim transando?” O realismo de coisas não vividas é mais aceito do que aquilo pelo qual todos nós passamos. A tentativa de esconder desejos humanos sob o véu da imoralidade ou da patologia é uma farsa – desculpa – muito viva em nosso meio. Parabéns!!!

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