Estante skrotes

Publicado em agosto 31st, 2012 | por Tiago Rodrigues

2

SKROTESNESIA

[Foto: Breno Turnes]

Já havia presenciado, em algumas oportunidades, a miscelânea de sonoridades que a banda Skrotes faz ao vivo. Curioso e notável o cuidado do trio com a experiência audiovisual como um todo, resgatando uma áurea um tanto LP de épocas em que os álbuns conceituais dominavam o cenário musical.

Que tal um álbum-revista, com release gráfico interessante e um cartão com código para baixar as músicas pela web? Esse mix do novo com o velho parece fazer sentido em tempos de renovação do mercado artístico audiovisual. Mistura parece ser a essência da banda Skrotes.

O álbum serve uma experiência ousada em que se misturam vários ritmos, sotaques, cores, sabores e odores. Provavelmente seja essa a intenção da banda. Aliás, o tal mix, apesar de quase esquizofrênico, se mostra bem sucedido ao nos levar a lugares e sensações diferentes a cada faixa.

A sinestesia é o som dos Skrotes. Permita-se escutar a banda enquanto aprecia a revista. Levando em consideração que o álbum é todo instrumental, a revista dá a voz. Não que seja preciso ajuda alguma, pois cada uma das faixas por si só te levará a experiências bem interessantes. A ideia setentista de liberdade é evidente na maior parte do tempo.

A sinestesia é o som dos Skrotes. Permita-se escutar a banda enquanto aprecia a revista. Levando em consideração que o álbum é todo instrumental, a revista dá a voz.

Na primeira faixa, Manabu, há um ar espacial – um tanto psicodélico, outro tanto nipônico angelical (sensação também sugerida pelo grafismo do álbum). Até que o sonho parece se tornar real, porém mais escuro e nem tão angelical assim. Elementos eletrônicos, bem como mudanças de groove e beat, te transportam pra dentro de uma fábrica em pleno funcionamento. Algumas vezes, surgem pitadas e pedradas que lembram Rage Against the Machine.

A faixa seguinte, Mared Farofa, segue uma atmosfera eletrônica. No começo, um cheiro de dubstep no ar me deu a sensação mecatrônica de que os transformers aterrizaram no prédio ao lado até entrarem guitarras densas e pesadas na companhia de uma percussão envolvente. Agora, os tais robôs parecem fazer a festa num mangue de Recife ao som de Chico Science. Os sintetizadores, sempre muito presentes, exploram o mistério e intercalam as seções da música. O que às vezes me faz lembrar as apresentações do Cirque du Soleil, onde as cores são sugeridas a cada mudança, com linhas melódicas literalmente pra lá de bagdá. Essa trama feita de elementos da música do Oriente Médio, Egito, Índia e Brasil faz de Mared Marofa uma das músicas mais metamórficas do álbum. Uma verdadeira trilha sonora para as mentes mais inquietas e imaginativas.

Noinha, terceira faixa do álbum, é uma espécie de BossaEletroJazzFunk (nessa ordem) e não deixa dúvidas quanto a intenção dos Skrotes em levar o ouvinte a uma mistura variada de ritmos e sensações. Tendo a célula rítmica do samba como elemento primário, além dos sintetizadores sempre presentes e inventivos há também uma boa fusão do Jazz e do Funk. A arte do álbum referente à música Noinha não deixa dúvidas. O simpático e simples, porém enigmático, tiozinho vestindo uma camiseta com os dizeres “No Metric” delata as mudanças métricas da faixa: do compasso binário do samba ao 6/8 composto do Jazz e por aí vai.

Intervalinho, uma das minhas faixas favoritas, consegue com muito sucesso misturar elementos do funk com levadas das décadas de 1970, 80 e 90 e células rítmicas que vão do samba rock e samba funk, estilo Black Rio, ao eletrônico. Uma verdadeira colcha de retalhos muito bem tramada. Que tal Quentin Tarantino dirigindo uma continuação do filme Cidade de Deus? Quase impensável, pra não dizer utópico, mas em se tratando de sensações nada é demais quando se está ouvindo Intervalinho.

A mais latina das faixas é sem dúvida La Maldita. Isso fica evidente desde o começo. Não que esse aspecto dure a música toda. La Maldita é sensual, La Maldita é sexy e cheia de nuances, como aquela vizinha que você fantasia mas que não tem ideia de como convidar pra fazer um tche-tche-tche. Por isso mesmo, a cada trecho da música uma nova expressão, uma nova cara alegre que vê no amanhã a esperança. Ou aquela cara brava e amassada de ontem, por onde sabe lá foram as andanças. No fim, um ecstasy mental, como quem acaba naquele cigarro recém-aceso com os dizeres: foi bom pra você, meu bem?

Como soa Tchaka? Hmm… eu lhes pergunto. Sabem o que 20 Mil Léguas Submarinas, Viagem ao Centro da Terra, Matrix, Máquina do Tempo e a famosa saga Star Wars têm em comum? Nada além do fato de que todas me vieram à mente ao ouvir essa faixa, Tchaka. É viajar, sem fisicamente sair do lugar. E de forma lícita. Combustível da nave? Tchaca!

Tags: , ,


Sobre o Autor

Músico e professor de Inglês, pensa que sabe do gauchês mas lhe sobra o manezês. Acha que se perdeu dos “tios” Jimi Hendrix e Tim Maia num passeio pela África. Quando não está viajando fisicamente, explora o mundo mental e espiritualmente.



2 Responses to SKROTESNESIA

  1. Ótimo texto, Tiago! Sinestesia define mesmo! Esse álbum dos Skrotes, ainda mais por sair nesse esquema de CD-magazine da SIC Music, é sensacional e muito fora da caixa! Ouro em terras catarinenses, sem dúvida. Eles são o ~higher ground~ da psicodelia pelas redondezas..

    • Tiago Rodrigues says:

      Obrigado Léo! Projetos assim como o dessa galera me deixam otimista quanto ao cenário musical na terrinha aqui. Que outros ‘bichos skrotes’ saiam da toca para ” aferventar” a nossa cena artistica. Ta na hora!

Subir ↑