Estante vips_historias_reais_de_um_

Publicado em abril 6th, 2011 | por Revista Naipe

0

VIPs

Por Everson Antunes

VIPs é um filme baseado no livro VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso, sobre o bizarro caso de Marcelo Nascimento da Rocha, que enganou muita gente esperta da alta sociedade brasileira.

O filme é estrelado por Wagner Moura em seu primeiro papel na telona depois da consagração de seu Capitão Nascimento no megasucesso Tropa de Elite 2. Mas o filme fica devendo muito, e praticamente larga a Moura o árduo trabalho de segurá-lo nas costas.

Moura, já faz tempo, está na crista da onda. Praticamente herdou o cetro que era de Selton Mello, dividindo a onipresença (sem esquecer Matheus Nachtergaele e Lázaro Ramos) nas produções cinematográficas tupiniquins. Ele interpreta o estelionatário que aplicou vários golpes, o mais notório quando, se fingindo de irmão do dono da Gol, a empresa área, passou o carnaval de Recife num camarote VIP com atores de novela e modelos famosas. Chegou ao ápice quando foi entrevistado ao vivo por Amaury Jr, sem constrangimento, dando a entrevista como se fosse mesmo um dos executivos da empresa. A farsa, lógico, foi descoberta, e hoje o Marcelo real está preso. Inclusive disse que vai processar a autora do livro, Mariana Caltabiano, por vender os direitos para o filme, diz, sem lhe repassar os valores.

Não li o livro, mas vi o filme. E o que eu vi foi um filme comercial, mas com assinatura de Felipe Meireles na produção, o que assegura certa qualidade. Mas se ao ler a sinopse você lembrar de Prenda-me se for Capaz, de Spielberg, esqueça; para mim lembra mais Meu nome não é Johnny, onde mais uma vez uma personalidade marginal brasileira é, de certa forma, sacralizada.

Há muito tempo que os filmes abandonaram a pretensão de serem reflexos de uma realidade. Hoje em dia o “baseado em fatos reais” põe toda a ênfase (e a desculpa) na fantasia, sem se comprometer com os “fatos reais”. Parece reflexo de uma época. O roteirista Bráulio Mantovani, já experiente e premiado por roteiros como Cidade de Deus e o próprio Tropa de Elite, aqui parece apenas se repetir. Um personagem que poderia ser multifacetado é reduzido a um bipolar, às vezes cara de pau cafajeste, às vezes (spoiler alert) um esquizofrênico precisando de tratamento. Na verdade, o ponto fraco está justamente aí, o filme parece querer justificar os crimes de Marcelo (sim, ele é um anti-herói) por uma patologia esquizofrênica revelada ao longo do filme.

Na minha opinião, a história de Marcelo poderia ter contribuído muito para a discussão sobre a hipocrisia, mas não foi. Afinal, se Marcelo estava enganando famosos em rede nacional, se valeu muito da falsidade inerente dessas próprias pessoas. A maioria puxando o saco de alguém que, elas achavam, poderia lhes facilitar a vida depois. Todos ali eram falsários de um ponto de vista. Marcelo teve a manha de usar isso a seu favor.

No documentário feito por Mariana Caltabiano mostrando suas entrevistas com Marcelo na prisão, temos uma idéia de toda a lábia e esperteza dessa figura: aprendeu a pilotar fazendo contrabando no Paraguai, já aplicou golpes fingindo ser policial, guitarrista dos Engenheiros do Hawaii e repórter da MTV no festival de Dança de Joinville, chegando a “entrevistar” o então governador Luiz Henrique da Silveira.

Peruca emo

Voltando ao filme (cujos produtores deixam claro, deve ser encarado como ficção), há pontos positivos também. Quase todos graças a Wagner Moura e seu ótimo trabalho. Também se deve destacar Gisele Fróes no papel da mãe de Marcelo, uma cabeleireira com várias fotos de celebridades no seu salão. A história em si segue o personagem ambíguo, ele viajando de graça pelo país, se tornando piloto para o tráfico e, no clímax, com o golpe mais famoso, no carnaval de Recife em 2001. Até Amaury Jr aparece fazendo papel de si mesmo, refazendo a cena patética protagonizada ao vivo. Parece que ele se orgulha de ter sido tapeado por alguém tão esperto. Ou se sente agora mais esperto por estar ganhando uma grana em cima do próprio.

Mas o filme descamba em cenas forçadas como, logo no começo, caracterizar Moura como um adolescente de 17 anos com uma ridícula peruca emo. As cenas com o “pai” também parecem forçadas e tentam criar um mistério que não se sustenta, além de já ter se tornado clichê. O diretor, Toniko Melo, vindo da publicidade, faz seu primeiro longa querendo mostrar serviço, utilizando vários ângulos inusitados, alguns interessantes, mas a maioria sem justificativa aparente. A melhor cena é justo a que faz uma brincadeira com a hipocrisia, como falei. Marcelo reclama com o chefão de traficar armas, no que o chefão diz que não sabia disso e também odiava armas – enquanto ao fundo aparece uma parede cheia de troféus de caça.

Não é um filme ruim, é até divertido, mas não mais do que isso. Como dito, vale quase exclusivamente pelo desempenho de Moura. Na escala dos antigos catálogos de vídeo eu diria três estrelas.

Naquela briga sobre os direitos autorais da história, pelo jeito ninguém é inocente. Bons tempos em que o Bandido da Luz Vermelha, sem um pingo de verossimilhança e muita cara de pau na frente da tela, se tornava ícone do cinema de vanguarda brasileiro. Hoje as falcatruas correm por trás dos holofotes enquanto nas telonas temos histórias politicamente corretas e sem ousadia.

_____

Agradecimentos: Cinesystem, do Shopping Iguatemi

Tags: , , ,


Sobre o Autor



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑