Na rua 3congresso_jornalismo_cultu

Publicado em maio 24th, 2011 | por Thiago Momm

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3º CONGRESSO DE JORNALISMO CULTURAL

“Está morto. Podemos elogiá-lo à vontade.”

A frase de Machado de Assis relampejou na cabeça da Naipe no excelente 3º Congresso de Jornalismo Cultural, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Não porque muitos mortos tenham sido elogiados, mas porque em algumas palestras os vivos apanharam bastante.Realizado desde a primeira edição pela revista Cult, o Congresso de Jornalismo Cultural teve, na sua terceira edição, dos dias 17 a 20 de maio, co-realização do Sesc. O evento vai se firmando como uma das melhores discussões culturais do ano no país.

“Crise” parece ser a palavra do dia no meio do jornalismo cultural, também tendo “esgotamento” o seu lugar de destaque. O curioso é que “crise” também era a palavra do dia ontem, anteontem e tresontonte – bastando lembrar Luciano de Rubempré em Ilusões perdidas, de Balzac, navegando pela mesquinhez dos jornalistas parisienses já na primeira metade do século 19.

Cinco estações

No congresso, falou-se em crise da crítica cultural, da produção cultural, do jornalismo como um todo.

“Não sei se a gente pode dizer que há uma crítica especializada hoje no Brasil”, desdenhou Zeca Baleiro, em mesa sobre crítica musical, não muito depois de dar bom dia.

Na mesa O que quer e o que pode a literatura brasileira hoje?, os doutores em literatura pela USP Noemi Jaffe e Fábio de Souza Andrade preferiram não citar nomes de autores nem comentar livros específicos. Só fizeram isso brevemente e a pedidos, quando a mesa abriu para perguntas da plateia. Veja algumas dicas deles e da Naipe ao final deste texto.

No seu panorama, Noemi, que resenha livros para a Folha de S.Paulo, disse haver hoje um nível bom, com textos redondos, na literatura nacional. Mas os romances parecem “sempre a mesma coisa” e precisamos correr mais riscos. A Naipe se mexeu incomodada na cadeira. O vastamente premiado O filho eterno, de Cristóvão Tezza, vale por um livro menor de Dostoiévski, o que não é pouco. Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, vale tanto quanto o melhor de Bukowski. Nada foi dito a respeito desses romances.

Disposto a ir muito além no academicismo, Fábio de Souza, tradutor do dramaturgo Samuel Beckett para a editora Cosac Naify, falou baixo e foi extremamente prolixo. Parecia ter descido cinco estações de metrô depois do destino e gostar de caminhar pelo bairro errado.

E veio o escritor Rodrigo Lacerda, e o editor da Naipe confirmou sua crença de que devemos muito para a faculdade porque é lá que aprendemos a ser autodidatas. Lacerda foi objetivo e nada catedrático. Não vivemos essa crise literária toda. Sim, não há mais “grandes figuras heróicas [autores] com a verdade a ser revelada”. Isso se deve, entre outros, ao fato de que “nenhum escritor atravessa todas as classes sociais”, havendo a tendência (“compreensível, num país desigual como o nosso”) de “estereotiparem as classes mais altas e valorizarem as mais baixas”.

Bingo.

Além disso, acrescenta a Naipe, é preciso adequar os parâmetros críticos. Como esperar um Balzac nos dias de hoje? Quem desovaria quase cem livros para compor um painel da sociedade, num tempo em que o conhecimento se especializou tanto? Como descrever com precisão tantas profissões diferentes, quando qualquer bom biólogo aprende em poucos anos o que Darwin levou uma vida para saber?

Ironizando os críticos na mesa de música, Zeca Baleiro se deu bem. O público, a despeito das ótimas perguntas, tinha uns acessos de auditório do Faustão e aplaudia entusiasmado quem levantava a voz ou carregava nas gracinhas. Baleiro leu definições engraçadinhas de diferentes tipos de crítico e a plateia se derramou em aplausos.

Papel, papiro, iPad

Crise sempre, e tudo segue de pé. Assustar-se com o suposto ruir dos tempos e criticar a incompetência dos contemporâneos, além de difundido em cervejadas intelectuais, parece inevitável em uma profissão que tem a obrigatoriedade do seu diploma na berlinda e o fantasma da falência assombrando redações pelo mundo.

Otávio Frias Filho, big boss da Folha de S.Paulo e um dos palestrantes do congresso, não é dos apocalípticos. Sim, a circulação de grandes jornais, como o seu, está há sete anos estagnada – e em relativa queda, se colocada diante do crescimento populacional. Mas a audiência da Folha online já empata com a de papel: quase 1 milhão de leitores/dia ambas, aí considerados três leitores para cada um dos 310 mil exemplares de circulação média da versão impressa.

Pelo crescimento econômico, o Brasil não vê jornais fechando como lá fora. Além disso, lembra Frias, a circulação de revistas e novos jornais cresce. De tudo isso ele conclui que os jornalistas deveriam se animar com as mídias digitais. Papiro, papel, iPad, não interessa o meio. O jornalismo como “seleção do que é relevante nas últimas 24 horas” não está em crise. Aliás, dispensar tinta, papel e transporte significa reduzir até 40% os custos de um jornal.

Leite semi-desnatado

Sylvia Colombo, que recentemente editou a Ilustrada, caderno de cultura da Folha, teve um tom mais ponderado; o argentino Julián Gorodischer, editor da revista de cultura Ñ, do jornal Clarín, foi mais crítico. Os dois debateram sobre a pressão da indústria cultural para promover os seus produtos.

Em suma, o assunto em pauta era esta onipresença da mesma animação da Disney em todos os cadernos culturais. Tudo muito parecido. Pasteurizado. Nessa questão, impossível não concordar que, não havendo crise, há pelo menos bons motivos para preocupação. Desde os anos 90, lembrou Sylvia, vivemos a era do leitor-consumidor, mais na expectativa de encontrar indicações avulsas de entretenimento do que análises culturais maiores, com mais contextualização.

Para fugir um pouco da agenda obrigatória de lançamentos, na Ilustrada Sylvia Colombo investiu na cobertura de políticas culturais. Uma iniciativa muito boa, para afinal sabermos o que vem sendo feito culturalmente dos nossos impostos. Julián também deixou uma ótima pensata. Nesses dias de leite semi-desnatado (para roubar uma expressão do jornalista inglês Tony Parsons sobre Kylie Minogue), um dos problemas é que “as críticas [dos suplementos de cultura] não são muito a favor nem muito contra”.

Em outra palestra, o editor da Ilustríssima (caderno dominical da Folha), Paulo Werneck, fez um diagnóstico preciso sobre mesmices. Disse que as mesmas informações e considerações correm inúmeros veículos mas poucas vezes são realmente confrontadas. Com a rapidez informativa, reproduzimos cada vez mais erros e visões iguais.

(A Naipe cita um caso recente: o DJ e produtor Andy Redanka, que tocou em diversas casas brasileiras recentemente, foi anunciado como “DJ oficial do U2”. A informação se multiplicou via Google e foi parar em dezenas de sites nacionais. Alguns não falam em “DJ oficial”, se limitando a dizer que Redanka fez alguns remixes para a banda irlandesa e acompanhou a turnê 360º. A verdade? A Naipe não sabe. Andy Redanka não tem MySpace. O U2 não menciona o rapaz na home do seu site. A busca “Andy Redanka official U2 DJ” não traz resultados em inglês.)

Na mesma mesa, o editor do caderno de cultura do jornal Valor Econômico, Robinson Borges, falou de mídias sociais. Citou um filósofo francês que disse estarmos, na internet, em um labirinto sem centro – há muita informação dispersa e poucas referências maiores. Passamos da onipotência das grandes mídias para o internauta-rei, concluiu o francês.

De qualquer maneira, por mais que se traduzam em audiência, as mídias sociais não são sinônimos de jornalismo, argumentou Robinson. Sobre engajamentos promovidos nessas mídias, ele citou o artigo A revolução não será tuitada.

Stand up intelectual

“Hoje os jovens dizem: ‘Minha mãe é minha melhor amiga’. Que arte pode sair dessas pessoas?”, provocou a loira, baixinha e espevitada Camille Paglia. A plateia riu.

Paglia é uma das maiores intelectuais do planeta hoje. A plateia a aplaudiu com entusiasmo ao final de algumas respostas. Camille fala um inglês absurdamente rápido, é enfática, autêntica, irônica – inclusive no assunto sexualidade, lésbica polêmica e inimiga de feministas tradicionais que é.

Sua fala estava mais para um stand up intelectual. Ela ignorou a cadeira e caminhou muito pelo palco. O momento mais surreal foi quando o áudio que chegava à tradutora da palestra falhou. A plateia, cerca de 70% com fones de ouvidos, tentava avisar aos mediadores. Não adiantou. Camille falou por mais de dez minutos sem tradução – e as pessoas continuaram rindo e aplaudindo suas falas sobre pós-estruturalismo, Madonna, Lady Gaga e Daniela Mercury.

Animal literário

A melhor palestra, na opinião da Naipe, foi a do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, mediada pelo carismático Xico Sá. Mais a Naipe não conta porque Gutiérrez será o assunto da seção de livros da Naipe 6. Digamos apenas que o assunto sacanagem correu solto e Xico Sá chamou o cubano de “animal literário”.

E houve o tranquilo escritor espanhol Enrique Vila-Matas, considerado “o escritor dos escritores”. O homem tem nada menos que 31 livros publicados em cerca de 30 países. Dele, a Naipe leu e recomenda A viagem vertical O mal de Montano. Seu mais recente livro traduzido é Dublinesca, que já está nas gôndolas de livrarias paulistanas e (oxalá) em breve deve desembarcar em Florianópolis.

Em uma época com excesso de livros sobre livros e romances com escritores como protagonistas, os jogos literários de Vila-Matas podem soar mal-vindos. O autor, no entanto, é o que melhor faz isso. Assume de cara a postura de escritor para iniciados e se mostra o melhor dos índices. Para qualquer assunto levantado, Vila-Matas costura o que já se escreveu de melhor a respeito, e não foi diferente na sua palestra. Trabalhando o tema da espera, resgatou Kafka, Musil, Flaubert e outros.

Mui poeticamente, o escritor contou que quando alguém dizia para sua avó estar esperando tempo ruim, ela respondia: “Melhor que haja tempo ruim que não haja tempo nenhum. E é melhor esperar alguma coisa que não esperar nada.”

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A Naipe pede desculpas, mas teve que sair para comprar livros e passear um pouco por São Paulo, a partir do que infelizmente perdeu a mesa com Hector Babenco e a palestra de John Lee Anderson.

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LEITURAS AFINS

Sobre literatura brasileira atual ver, entre outros, Teixeira Coelho, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Fabrício Carpinejar, Reinaldo Moraes, Cristóvão Tezza, Antônio Prata, Milton Hatoum. Além, claro, da velha guarda na ativa: João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Rubem Fonseca, Chico Buarque, Dalton Trevisan.
Sobre cadernos de cultura, o livro Pós-tudo conta 50 anos da Ilustrada.

Sobre música, não deixe de conferir o blog Trabalho Sujo, de Alexandre Matias, editor do caderno Link do Estadão e também palestrante do congresso.

Sobre a (pouca) confiabilidade das informações na internet e o mercado atual de produtos culturais, um livro altamente recomendável é O culto do amador, de Andrew Keen.

De Pedro Juan Gutiérrez, não tem erro: confira Trilogia suja de Havana.

De Camille Paglia, a Companhia das Letras publicou os aclamados Personas sexuais e Sexo, arte e cultura americana, e a editora Francisco Alves, Vampes e vadias. Esgotados nas livrarias, os podem ser encontrados no sebo Estante Virtual.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to 3º CONGRESSO DE JORNALISMO CULTURAL

  1. Léo T. Motta says:

    Ótima matéria. Deu pra ter uma ideia legal do que foi o evento e sorver inveja de quem esteve presente!

    Muito interessante esse ponto de convergência (e divergência, mais-que-naturalmente) do jornalismo cultural em segregações intelectuais, linguísticas e midiáticas. Isso tudo me interessa muito, acho que devia ser discutido mais abertamente por aí. Vê se me manda pra cobrir algo do gênero qualquer hora! hahah

  2. Júlia Eléguida says:

    poxa não falar do pedro foi sacanagem pura.

  3. Jerônimo Rubim says:

    O francês citado por Robinson Borges deve ser Pierre Lévy . É um filósofo que estuda as interações entre a internet e a sociedade, escreve coisas interessantes.

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