Na rua linguicete

Publicado em julho 23rd, 2010 | por Rosielle Machado

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BAGUNÇA IS BUSINESS

Chapinha em quase 90% dos cabelos e sete saias de cintura alta por metro quadrado. Dez anos atrás, roupas mulambentas e olheiras pós-prova. Quando surgiu, a Pato Loko era outra.

Assim como Linguição, Choppada da Esag e outras farras universitárias de Florianópolis, tudo começou como um humilde churrasquinho de turma para desestressar e, com sorte, dar dinheiro. Hoje, essas festas de curso viraram uma bagunça estrategicamente organizada – com lucros na casa dos cinco dígitos.

Fazer festa pra universitários é que nem fazer bolo. Todo mundo tem a receita, mas não é qualquer um que leva jeito. O combo banda + DJ + música-da-moda + cerveja costuma ser apontado como fórmula da festa serelepe perfeita. “A música é um grande atrativo, tem que pensar bem. No nosso caso o foco é o funk”, orgulha-se Fernando Silva, organizador do Linguição da Automação.

Em edição recente, foram R$ 30 mil de lucro. A grana vai toda para a formatura da 9ª fase, responsável pela organização. E se engana quem pensa que dá pra pagar tudo. “Não é suficiente, mas cobre boa parte”, diz Fernando.

“O pessoal tá ficando ganancioso, hein!”, se espanta Antônio Meirelles, co-fundador do Linguição quando era formando, em 2002. Orgulhoso da cria, ele nunca imaginou que um churrasco com 300 pessoas e R$ 700 de lucro cresceria tanto. Fica contente em saber que nas 15 edições os organizadores não fugiram muito do que sua turma arquitetou: uma festa no domingo, open linguiça com pão, ingresso barato e cerveja a um preço amigo.

Para manter a tradição, resiste-se a propostas de promoters. A festa continua organizada por umas 35 pessoas do curso que se reúnem durante seis meses para discutir questões-chave como “com quantas linguiças se faz um Linguição?”. O consenso: 550 kg. E mais 20 mil latas de cerveja, 6 mil pães, 150 garrafas de vodca e 36 tequilas.

Já o pessoal do Patoloko, da Odontologia da UFSC, aceitou ajuda de profissionais para não enlouquecer. Em uma edição, o promoter Anjinho dividiu os lucros com a 4ª fase, que cuida da festa. Ainda assim, sobrou o equivalente a um ano de mensalidades da formatura.

Melhor que estágio

Primeira grande festa universitária da região, a Choppada da Esag, 21 anos de existência, vai na contramão da tendência megaevento. A Esag se convenceu de que o importante é ser feliz. Hoje anda mais tímida, no máximo 3 mil pessoas. Muito pouco para quem já teve 15 mil como público, mas a ideia é que o evento volte a ser para os esaguianos. O lucro não é revelado; em 2006, diz-se que foi próximo de R$ 60 mil.

Mesmo assim, a Esag segue levando a Choppada muito a sério. “Hoje a gente olha a festa como uma experiência profissional que nenhum estágio dá”, empolga-se Luiz Guilherme Noudin, presidente do Diretório Acadêmico da Esag.

Desse tipo de experiência brotaram duas empresas comandadas por alunos da administração da UFSC: a Admanguaça e a Cromo Eventos.

Pros quatro integrantes da Admanguaça juntos uma festa já rendeu R$ 20 mil. O segredo é estar dentro da universidade. “Quando sairmos daqui não sabemos o que vai acontecer. É muito difícil conseguir público sem poder estar no ouvido todo dia convidando”, diz Luiz Durli, estudante e sócio da empresa.

Mas o mundo da organização de eventos é ingrato e o dinheiro que chega é o mesmo que dá adeus. Em uma festa da Admanguaça, a Caloucura, se esperava lucro recorde. Por causa de problemas com o local a micareta só rendeu incômodos. “Se uma pessoa que gastou R$ 15 no ingresso ficou chateada com a mudança de data, imagina a gente, que passou meses em cima de um projeto que no final deu megaprejuízo?”, desabafa Luiz.

Para Fernando Ligório, da Cromo Eventos, essa abundância de pândegas não é tão positiva. “Todos os cursos querem a sua grande festa, mas isso pode gerar saturação”. Em outras palavras, banalizar. Principalmente porque as festas são muito parecidas.

“É difícil inovar quando o público é sensível a preço”, explica Fernando. Mesmo assim a Tourada Mecânica, por exemplo, tem sushi.

Nem Fernando nem Luiz dizem aproveitar alguma coisa das próprias festas. Luiz garante que honra o nome “Admanguaça”, mas só na festa dos outros: “Nosso trabalho é cansativo e intenso”.

Combinar business with pleasure é coisa do pessoal do Linguição. Converse com quem trabalhou no bar e verá sorrisos e olhos nostálgicos. Com tequila liberada para as mulheres por uma hora, até os ocupados unem o útil ao peralta.

Às 15h, em uma edição de 2010, quando a tequila liberada acabava e as mulheres se mostravam dispostas a tudo por mais um gole, um ex-aluno da Automação apareceu. Tinha vindo do Rio de Janeiro só para o Linguição e exigiu uma camiseta. Ninguém entendeu. Ele explicou: “Acha que eu vim pra ficar no meio da festa? Quero trabalhar no bar, lógico”.

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Esta matéria foi publicada originalmente na revista Naipe número 2. Para conferi-la, clique aqui.

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Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



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