Na rua brunasurfistinha_dentro

Publicado em fevereiro 26th, 2011 | por Thiago Momm

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BEM TEMPERADO

Para sugerir estilo, a cafetina ameaça morder os óculos.

À exceção da protagonista, as prostitutas que dividem o apartamento têm aparência prejudicada. O velho prédio paulistano, as falas meio anacrônicas, os antigos dilemas da venda de sexo – muito do início de Bruna Surfistinha, do diretor estreante em longas Marcus Baldini, sugere que lá vem mais um filmão nacional que saiu agora, mas poderia ter sido desovado em 1986.

Por sorte, o caso de Bruna se torna mais específico. Para quem não acompanha o entulho pop do noticiário ou não quis gastar R$ 33,90 e três horas lendo O Doce Veneno do Escorpião (mais de 250 mil cópias vendidas, tradução para 15 países), trata-se da história real da ex-garota de programa Raquel Pacheco, que a partir da criação de um blog e do nome de guerra Bruna Surfistinha ganhou grana & fama. O livro resultou de um diário que Raquel mantinha.

A história também se singulariza porque não foi filmada de qualquer jeito, mas com muito zelo e pretensão – orçada em mais de R$ 6 milhões, a bagaça foi produzida ao longo de quatro anos.

Como Bruna Surfistinha sobe da série B para a A das garotas de programa (realmente pelo seu tino mercadológico, porque está longe de ser bonita como a própria Deborah Secco ou as melhores cortesãs), o filme depois traz à tona um universo de pó, flats, baladas, sexo a R$ 300, prostituição nos tempos virtuais. No final das contas, diga-se logo, um bom longa três estrelas, como a Naipe conferiu na estreia na última sexta-feira no Cinesystem, no Shopping Iguatemi.

Destaque para a sutileza dos adesivos-anúncio de prostitutas em um orelhão que Bruna usa em certo momento. Ou para o seu misto de apatia e resignação ao fazer sexo com o primeiro cliente da carreira.

Pontos também para o compasso e a intensidade das respirações dessa cena, que remetem muito mais ao que acontece no lençol suado da sua casa do que a cenas erótico-afetadas do Sexytime. O realismo das cenas violentas de Tropa de Elite, Cidade de Deus e afins parece ter chegado ao sexo.

Bufadas

Para quem for ver Bruna Surfistinha com o espírito adolescente-onanista de ver Deborah Secco pagando peitão, lá estão suas duas perfeitas esferas rosadas. Há também aparições da bunda, ameaças de close na virilha, breves beijos lésbicos e muitas calcinhas deliciosas. Além, para gosto e desgosto da plateia, das cenas em que Bruna cospe o esperma de um homem, faz chuva dourada em outro e veste uma calcinha com pinto de borracha para um terceiro.

Os clientes, as bufadas e as posições sexuais são muitas, mas sempre filmadas com muita criatividade e uma malícia bem temperada. Tudo na medida para transmitir a crueza da coisa toda sem remeter demais a uma filmagem de Brasileirinhas – para quem não sabe, Raquel Pacheco filmou para a mais famosa produtora pornô nacional.

“Imagina se um jornalista tira foto da viatura”, era a estranha preocupação de um galego com aparência de uns 16 anos, a idade mínima legal para se assistir ao filme. Na cena, Deborah Secco se curva para fazer um blowjob em um policial dentro do carro, deixando as pernas na rua. Para disfarçar o constrangimento provocado por esse e outros momentos, o galego e a namorada comentaram o filme quase minuto a minuto. Na sessão a trabalho, a Naipe não se importou. Do contrário, havia chance de um enforcamento em plena tarde no Iguatemi.

Na saída, o casal disse à Naipe ter gostado “de uma maneira geral” de Bruna Surfistinha. O galego lamentou que a incursão de Rachel Pacheco pelo mundo dos filmes pornográficos não tenha sido abordada.

Na Folha de S.Paulo, o crítico Ricardo Calil mordeu e assoprou. Enalteceu várias virtudes do filme, como as de não ter “moralismo muito acentuado ou psicologismo barato”, mas disse também que o longa “não nos permite compartilhar os sentimentos da personagem”.

É exatamente por aí.

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Assista ao trailer oficial.

 


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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