Na rua pole

Publicado em janeiro 4th, 2011 | por Luisa Nucada

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BRINQUEDO DE GENTE GRANDE

[Foto de Adriano Debortoli]

Ele é rijo, teso e comprido.

De formato cilíndrico, se acomoda perfeitamente à concavidade das mãos: foi feito para ficar entre elas. Não se contenta, porém, em ser manuseado. Busca abrigo em vãos de coxas, seios, roça em barrigas, atrita em virilhas… sem jamais perder a imponência de metal. Nasceu, criou-se e reside na Alameda Adolfo Kondler, 1007, Florianópolis. Integrante permanente da balada alternativa que traz o número da rua no seu luminoso de neon, o pole dance da “boite chik” tem muito a contar sobre o universo que gira ao seu redor.

Num fim de semana usual, ele começa a noite sozinho. Os frequentadores estão apoiados no balcão do bar, sentados no sofá ou em rodinhas pelos cantos. Um grupo feminino sub-20 aproxima-se dele, mas apenas para dançar se olhando no espelho. Ele está lá, na sua solidão ereta, mero objeto decorativo, ignorado pela sobriedade narcisista das garotas montadas em peep toes.  Uma hora mais tarde, no ambiente semi-lotado, estabelece-se o primeiro contato com o mastro: um rapaz apóia suas costas nele, está abraçando uma garota por trás. O casal fica ali, usando o pole como encosto para beijos gulosos. Figurante do cenário, ele aguarda com paciência: sabe que ganhará a devida atenção assim que os primeiros drinques fizerem efeito.

Seus antepassados mais remotos têm origem indiana. Datam do século 12. Faziam parte do mallakamb, uma espécie de ioga realizada num poste de madeira. Só no século 20 é que alguns parentes norte-americanos começaram a ser utilizados em uma prática um tanto menos religiosa. No clímax da Grande Depressão, final dos anos 20 e início dos 30, circos itinerantes viajavam de cidade em cidade, apresentando diversas atrações. Uma delas era o show erótico das dançarinas Hoochi Coochi, que se insinuavam para o público em tendas paralelas ao palco principal. Baixas, as barracas eram sustentadas por postes, que as garotas incluíram na apresentação.

Três décadas depois, os mastros já haviam se espalhado por bares de estilo burlesco, onde também compunham shows sensuais. A primeira apresentação de pole dancing como conhecemos hoje aconteceu em 1968, executada por Belle Jangles no strip club Mugwump’s, em Muskogee, Oklahoma.

De fato, não são nem duas da manhã quando as meninas do espelho, mais soltinhas, procuram a rigidez do pole para se equilibrar. São um cambaleante paradoxo: pisadas inseguras de salto alto giram movidas pela  mais sólida das auto-estimas. O enxame de luzes disseminado pelo globo giratório ataca pupilas, mas não bloqueia a visão dos relances de roupa íntima que as dançarinas amadoras acabam por mostrar.

Nosso amigo já viu de tudo

Nosso amigo é uma criança. Dez anos bem vividos num ambiente não muito infantil, mas bastante lúdico, em compensação. Há um ano e meio, o 1007 era um lupanar. O pole era instrumento para atiçar libidos e abrir carteiras. Dançavam com ele profissionais da sedução, técnicas aplicadas, coreografias ensaiadas. Atualmente, só há uma pessoa que o use sabendo o que faz: Évora, o travesti do bar.

Saia preta de cintura alta, blusa amarela customizada, o transexual limpa o balcão rebolando a música do DJ Korova. A festa se chama D’Évora, hoje a noite é dela. De acordo com Rafael D’Ávilla, produtor do 1007, pole dancer como ela não há: Évora tem força de homem. Ícone da boate, cumprimenta com um sorriso de lábios gordos. De um jeito acanhado, conta que aprendeu o pole dancing em Barretos, São Paulo, sua cidade natal. Assistia a vídeos e praticava em bailes de carnaval dos clubes da cidade. Há três anos em Florianópolis, trabalha na “boite chik” há um ano e meio. Numa noite qualquer, aventurou-se a brincar no cano e fez sucesso. Hoje é dia de bis.

Évora entra na pista com ares de dona, a timidez do balcão foi esconder-se em outro lugar. Dá um sinal a um funcionário e um holofote acende-se sobre ela: o show vai começar. O DJ põe o hit da Shakira, a boneca de ébano agarra o pole e a galera vai ao delírio. Sua pelve vem e vai, um mamilo escapa do decote, ela é loca, loca, loca. Dá um salto, escala o poste, com uma chave de coxa se sustenta no ar. Vai do topo ao chão num piscar de olhos. De quatro, remexe os quadris simulando um coito, balança a cabeça fingindo um surto, está loca, loca, loca. As mesmas garotas, ensandecidas, também querem participar: avançam sobre o mastro, que Évora compartilha sem problema algum. Ele pertence a todos, dois metros e meio de diversão democrática.

E a brincadeira já valeu prêmio. O 1007 promoveu por três edições um campeonato de pole dancing, uma garrafa de vodca como troféu. Na competição, situações vexatórias não faltaram: quedas, tentativas de ser sexy culminando em escorregões. Nosso amigo já viu de tudo. Hoje ele é mais feliz. As mãos que escorregam pelo seu corpo pertencem a gente colorida, que está ali para brindar a vida. O cheiro da fumaça é doce, o erotismo da dança é inocente, ele é brinquedo de gente grande. Os flertes que vê são autênticos, os beijos que flagra são de verdade, não foram comprados. À sua volta orbita alegria genuína. Hoje ele é mais de carne e osso.

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



2 Responses to BRINQUEDO DE GENTE GRANDE

  1. Diego says:

    Parabéns, o texto ficou ótimo Nucada.

  2. pedro says:

    nossa. ótimo texto, uma mistura de narração comum texto informativo. parabens

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