Na rua carlosalberto3

Publicado em setembro 28th, 2010 | por Revista Naipe

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CARLOS É INVISÍVEL

[Por Jerônimo Rubim, com fotos de Gabriel Rinaldi]

Mercado público de Florianópolis, 20h de sexta-feira.

Caminhando entre as mesas cheias dos boxes, fotógrafo, designer e editores da Naipe se esforçam para sacar algumas fotos e conversar com Carlos. Ele está impaciente, imprevisível, indomável. Uma loira maquiada pergunta se estamos gravando para o horário eleitoral.

– Estamos fazendo um perfil, a Naipe responde.

– Dele?!, pergunta a loira.

Carlos está alheio, preocupado com dois malacos que acabaram de roubar seu celular. “Conheço os dois. Eles vão devolver, é só brincadeira”, garante, olhar vazio mirando o escuro da noite. Quando ele sai mais uma vez na busca inútil dos ladrões, um garçom se aproxima e pergunta: “Perfil dele? É pro Globo Rural?”

Carlos sempre foi um corpo estranho em Florianópolis. Megafone a tiracolo, visual estrambótico e fôlego de guri pequeno, ele é figura conhecida na cidade e também em Balneário Camboriú, onde passa os verões. Foi o arauto pioneiro das promoções imperdíveis das lojas populares, o showman da comunicação de rua nos calçadões da capital. Tanto quanto os aposentados jogadores de dominó ou os mandriões debaixo da figueira da praça XV, é parte do folclore urbano da ilha. Desde 1981, talvez 1984 – ele não lembra, a população menos ainda –, é impossível circular pelo centro sem ouvir sua voz ecoando nas paredes dos prédios. “Faço parte da história dessa cidade”, sentenciou Carlos noite dessas. “Do Brasil”, se empolgou outro dia.

Passadas quase três décadas, seu look a maior parte do tempo colorido e ousado de saias, vestidos e chapéus com chifres ainda causa certo constrangimento à ilha. “Acho que é giletão, gosta de se vestir de mulher”, arrisca um gordinho simpático que escuta um cacofônico discurso político de Carlos em frente ao Centro Legislativo da capital. “Faço esse trabalho desde os dez anos de idade. Um dia coloquei uma saia e a coisa exprodiu em Florianópolis, começou a dar ibope”, simplifica Carlos, sobre se travestir. A autenticidade até rendeu mais trabalho, mas também trouxe apelidos como “O corno do centro” e rótulos como veado e maluco. Essa demonização pública ao longo dos anos não parece ter afetado a obstinação de Carlos em aumentar os decibéis calçadões afora.

“Incomoda. Fica falando aí e ninguém entende nada”, reclama o caixa de uma lanchonete que assiste ao discurso político. “Toma umas manguaça e parece que fala argentino”, ri o gordinho.

“Outro dia falei pro Moacir Pereira que ele tem que melhorar a dicção, falar mais devagar, falar como eu falo. Ele é um comunicador, as pessoas precisam entender o que ele diz”, Carlos me conta apressadamente, entre um anúncio e outro, engolindo algumas sílabas. Provoco que o incompreensível por aí, dizem, é ele mesmo, Carlos. “Quem não entende? Se não entende é surdo, é surdo, porra”.

Mulher, porra

Depois de muitas tentativas – Carlos estava “muito ocupado, com muitas reuniões, hoje não dá, hoje não dá” – marco uma entrevista mais longa. São 11h15 no relógio do abafado boteco e Carlos está confortável. Tira a aparelhagem de som do ombro, pede um conhaque de alcatrão e finalmente conta sua história. Não a pública, mas a que há por trás da figura de cabelo moicano roxo, unhas com esmalte preto descascando e calças femininas à minha frente.

Apanhou muito da mãe, fugiu de casa, passou fome, dormiu na rua, a irmã virou prostituta. Carlos enumera essas clássicas desgraças com distanciamento, como se falasse de coisas que realmente só têm lugar no passado, a blindagem dos desafortunados. Com a bravura dos que não têm nada a perder, mal tinha chegado à puberdade se mandou da Pernambuco natal, em um navio, para a Rio de Janeiro dos anos 70. Alguém soprou para mim sobre Cauby Peixoto na vida de Carlos. Jogo a pergunta em cima da mesa.

“Dormi com o Cauby, fui marido dele por dois anos”, escancara. “O problema é que o Cauby enchia a casa de guri novinho. Eu gosto de mulher, porra”. No Rio da época, Carlos apertou a mão de Tim Maia, Nelson Gonçalves, Jairzinho, Waldick Soriano e outros em bares boêmios.

Mas o hoje se sobrepõe ao ontem. O trabalho volta à tona. Não bastasse passar o dia correndo atrás de patrocinadores e reverberando seu mundo particular no megafone, ele se alegra ao falar da profissão. Me mostra uma foto sua com Brizola e conta dos trabalhos que fez para Luiz Henrique, Esperidião Amin, Kleinubing, Pedro Ivo Campos. “Aos dez anos de idade eu já fazia propaganda pro Miguel Arraes lá em Recife, já era figura política, rapaz.

A conversa já passa de uma hora, e para o workaholic Carlos tempo é dinheiro. Ele pede licença e sai por dez minutos. Foi vender seus serviços a uma auto-escola e aproveitou para apresentar a Naipe. “Quer ver tu ganhar dinheiro? Quando eu sair na revista tu vai ganhar rios de dinheiro, vai ficar doido, cara”, me diz, na volta, olhar perdido. À tarde ele vai a uma convenção de partido político. Época de eleições é um banquete para que suas habilidades verbais se traduzam em trocados dos candidatos. “Preciso trabalhar. Preciso pagar meu hotel”, diz Carlos, que recebe R$ 25 por hora de trabalho e paga R$ 40 a diária para viver na Conselheiro Mafra.

No tempo em que os argentinos tinham poder de compra, Carlos ganhava bem durante o verão em Balneário Camboriú. Ao ouvido de muita gente chegou o boato de que ele era rico. Diz-se que ganhava até R$ 80 a hora. Hoje cobra um pouco menos que os seus próprios aprendizes. “Ele era muito bom. Foi o primeiro, me inspirei nele. Só que hoje vende mais a si mesmo que aos produtos”, diz Gilson dos Santos, expoente dos propagandistas de rua dos tempos globais. Gilson gesticula como um palestrante motivacional, e seu cartão oferece os serviços de “propaganda, gravação de CD, cerimoniais, apresentação de eventos” – com seu hotmail logo abaixo.

Um vendedor de DVDs ouviu falar que no auge Carlos comprou carro importado à vista em uma concessionária. “Não, isso não. Mas ganhei muito dinheiro, verdade”. E onde foi parar a grana? “Acabou.”

Aleluia

Reencontro um cambaleante Carlos Alberto Silva, 52 anos, tentando se equilibrar em coturnos no Largo da Catedral dias depois. Ele me abraça e anuncia a Naipe no microfone como “a melhor revista do Brasil, internacional”. Então começa a enfileirar diversos números de candidatos, brinca com os motoristas parados no sinal, cumprimenta pedestres, canta Bob Marley, manda um “Aleluia!” para o rebolado de uma passante. “Tem muita mulher bonita na ilha”, anima-se.

“Estou aqui há treze anos, ele foi sempre a mesma coisa, essa mesma figura”, conta Lima,  dono de uma barraquinha de livros no Largo. Alguns ilheus balançam a cabeça negativamente com as brincadeiras. Outros passam sem olhar. Muita gente dá pelo menos uma risada, disfarçada que seja.

 

 

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Sobre o Autor



32 Responses to CARLOS É INVISÍVEL

  1. Danilo says:

    parabéns ao autor desta reportagem, mesmo ele não sendo nativo é uma das boas coisas que ainda restão em floripa. depois dizem que esta desempregado, claro que não, apenas não quer trabalhar. pois este veio pra cá e deu um jeito de sobreviver. parabéns…

  2. marcos antonio da si says:

    Esse figuraço eu conheço desde a epoca de Floripa, e ate pouco tempo ele trabalhou aqui em balneario camboriu,onde pude reencontrar depois de tanto tempo.
    um grande abraço carlos e parabens pela materia a naipe.

  3. Adoniran says:

    Sabem como ele consegue o dinheiro pra falar aquilo que nao se entende? Na base da chantagem, c vc não pagar algo pra ele, ele fala mal da tua loja. Pessoal de camboriu que o diga.

  4. Gabriel says:

    Excelente matéria! Parabéns!

  5. Gabriel says:

    Show de bola a matéria, ja tive algumas vezes, a oportunidade de trocar uma idéia com essa figurassa que é o Carlos, muito simpático e sempre a mil por hora, tem muuuitas histórias pra contar. Mas é isso ai, enquanto ainda somos manézinhos da ilha da magia que está sendo tomada pelos turistas(infelizmente) temos que dar valor a essas figuras ilustres da nossa Floripa.. Avisem o babaca do Manezinho ai a cima, que se ele está incomodado com o Carlos, te arranca daqui rapaz, vai morar em Porto Alegre vai, gaucho…

  6. Andréa says:

    ele é muito querido e de um coração bom ele é uma figura é um cartao postal de Floripa quem nao conhece o homem que veste roupas femininas.
    Parabéns pela matéria

  7. Leonardo Gaspar says:

    kkk ele eh um sarro, vejo ele todo dia, sou office boy e trabalho no centro, ele ta toda hora cantando musica do Bob Marley, se eu nao me engano eh One Love, kk mt engraçado, mas ele eh gente boa !!

  8. Eron says:

    Pararara heiiiiii, pararara heiiii, pararara heiiiii. kkkkk dale Carlos, saudações de Baln. Camboriú :D

  9. rap realpoesia says:

    o carlos deveria virar pratrimonio estórico e ser feito uma estatua em sua omenagem …qe viva muito este manézinho dá ilha …..

  10. Andre says:

    Otima matéria, parabéns! Até que enfim um jornalismo que da vontade de ler…

  11. manezinho says:

    trabalho na rua tenente silveira e esse cara me incomoda todos os dias. queria dizer que esse imbecil fala demais e nao se entende nada.
    tem que colocar esse cara no hospicil, pra falar pra negas dele..

    peço que alguma autoridade ouça meu apelo

    abraço

  12. marco says:

    Moro em Floripa desde 1991 e vejo ele aqui desde este tempo. Antes de 1991 vi ele muitas vezes no centro de Criciúma… É lendário!

  13. Tiffane says:

    Parabéns pela matéria!
    Sempre vi Carlos em Balneário Camboriú, por volta de 1994, agora sempre o vejo nas ruas do centro de Florianópolis e nunca soube sobre sua vida!
    Matérias com destaque para figuras que fazem parte de nosso cotidiano sempre tocam as pessoas e trazem diferentes realidades. Jornalismo puroo!Muito bom!

  14. Marcelo Eninger says:

    Figura lendaria sim!!!! Mas a uns dois meses atraz estava eu e minha esposa jantando no BOCAS do Jardim Atlantico,
    onde o mesmo cidadão da reportagem tambem estava e na hora de ir embora ele roubou oleo de oliva, vinagre, palitos eo que estava em cima da mesa……..resumindo baita de um vagabundo!!!!!!!!

  15. Tatiana H. Silva says:

    Eu acredito que não há uma pessoa que resida em Florianópolis e em municípios próximos que não conheça o Carlos. É um ícone de Fpolis. Um cara que batalha sua vida trabalhando como qualquer outra pessoa e deve ser respeitado. Não é um manezinho de nascimento, mas, um manezinho de coração. O Carlos, com sua irreverência no se vestir e falar é um excelente homem de marketing, não há pessoa que não preste (nem q seja por pouco tempo) atenção no que ele diz.

  16. Sandro Nunes says:

    Carlos, a figura mais ilustre da Capital nos últimos 27 anos.
    Lembro dele desde 1984, quando então guri, cursava a 4ª série no Colégio Tiradentes, da saudosa Dona Olga Brasil da Luz, outra personalidade dessa cidade que merece reconhecimento por toda sua vida dedicada ao ensino. Carlos é da época em que o carnaval era na Av. Paulo Fontes.
    Para mim Carlos não é invisível.
    Todos o conhecem, mas não temos tempo para o conhecê-lo verdadeiramente.
    Ele gosta de ouvir e cantar as músicas do Roberto Carlos, inclusive já foi ao programa da TV COM/RBS TV canrtar. Uma figura.
    Para mim, ele deveria se candidatar a vereador. Se Tiritica é Deputado, acredito que o Carlos do Megafone será um ótimo representante do povo desterrense, ou florianopolitano, como queiram.
    Tenho a impressão de que conhece muitas histórias de bastidores da política local e conhecimento dos problemas da cidade.
    Vamos lá Carlos, você tem o meu voto para vereador.

  17. julián says:

    miralo

  18. Tatiana says:

    Nasci em 89 e desde que eu me lembro por gente, via esse cara na rua.
    Claro, aos quatro anos, eu morria de medo, aos dezesseis achava meio babaquisse.
    Agora, com vinte e dois anos, tava andando no centro, ele tava por lá. Tanta coisa mudou, tanta loja fechou, abriu, pegou fogo, e ele continua lá, fazendo a mesma coisa. Já faz parte da cultura do povo, da ilha.

    É uma das coisas que as próximas geraçoes vao ouvir como causos, do homem de moicano azul, saia e megafone, que nunca descansa.

  19. ivo says:

    Cara o homem é demais. Hoje não moro mais em Floripa mas este é um cara que tenho muito forte na memória. Acho que em 1984 quando da data que voces indicaram como inicio de sua trajetória em Floripa eu já o conhecia. Minha torcida quase inútil é de que as coisas antigas da Ilha não se acabem. Abraço a todos

  20. Daniel says:

    Cara eu estudava no colegio geração nessa época, coisa boa Floripa, lembro desse ilustre com esse megafone hehehe.

  21. Julio Crescêncio says:

    Meu, este cara faz parte da cidade, me lembro dele desde minha adolescência, gente boa, de louco não tem nada, só é feliz, quem fala mal, é invejoso!!

  22. Marrish says:

    Ei, façam também uma reportagem com o Seu Lima, citado na reportagem. Ele tem uma tenda na praça XV, vende livros e discos usados, é um tiozão da hora! Tem super histórias e é muito simpático! Outro figuraça!

  23. Polly says:

    Nao tem um cara igual esse em BC?

  24. Renato de Souza says:

    Nos anos 90 eu já fotografei o carlos para o jornal o centro que circulava no centro de florianopolis ele é uma figura gente boa já é um manézinho da ilha.

  25. Rafael says:

    Nostalgia…
    Que saudade da Floripa de antes. Passar por ele ali pelo Senadinho; tomar Chocoleite na Candy’s e comprar tenis na Panterinha Calcados.

  26. aurelio pereira says:

    O Carlos Alberto é uma figura, protagonista de uma baita CARA DE PAU, gente boa, dá-se com todos, amado por muitos por sua personalidade extremanente LOUCA, ele é o CARA! Ainda bem que temos um Carlos Alberto, o homen do Chifre em nossa cidade! Parabens LOUCO! Mais quem não é?

  27. Rodrigo Cesar says:

    Isso é Florianópolis, quem é manezinho da ilha lembra sim do Carlos uma pessoa que nao faz mal a ninguem , sempre com suas idias meio loucas, mas sempre com pensamento a frente dos outros.
    Gostaria de assistir o Carlos no programa do Jô Suares, pois seria muito interessante , pois é o perfil do programa do JÔ.
    Fica a dica.

    Parabéns pela reportagem.

  28. THIAGO PAULI says:

    Matéria TOP de linha

  29. Döll says:

    O Carlos é uma figura…Muito louco…Usava na sua melhor época, um chapéu de couro com dois chifres…Sempre foi muito querido por todos os comerciantes do centrod e Florianópolis e naminha época do Döll na Vidal Ramos, ele passava todos os dias por lá…Sempre queria saber do ginseng, da catuaba, marapuama e guaraná em pó…Já chegava de longe gritando…Döll Döll Döll…Se eu não estivessena loja ele ia para o meio da rua e começava me chamar pelo megafone, dizendo: Döll, eu sei que vc está aí…Qume conheceu, jamais esquecerá…´Faz parte da história da ilha…

  30. Dani says:

    Super interessante essa matéria. É ótimo saber mais do universo de Floripa pela Naipe. Um olhar imparcial (finalmente) na nossa comunicação local.

  31. Carla says:

    Sensacional!
    Eu cresci vendo Carlos pelas ruas da cidade.
    Um prazer conhecê-lo um pouco mais depois de tanto tempo de “convivência”.

  32. Marili Benthien says:

    Que delícia de matéria !
    Conheci essa figura numa ida à casa dos “Rubins” no Campeche (entre tantas). E uma paradinha no centro pois era feriado na segunda (12/10/2009).
    Rolava de tudo no Mercado. Era festa total.
    E de repente, eis que surge esta figura vestida de sei lá o que, pois não consegui identificar. Foi uma festa.
    Percebii todos os sentimentos ali. Admiração, compaixão,gozação, inveja pela irreverência, repulsa , indignação!
    Fiquei a observar mais as reações do que propriamente o ator daquele espetáculo!
    E nesse exato momento, a bateria de minha máquina de foi! aí sim, indignada fiquei eu!
    Que maravilha de matéria.!
    Parabéns
    Lili

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