Na rua republicas1

Publicado em setembro 20th, 2010 | por Rosielle Machado

5

CONES, GRÁVIDAS E SERROTES

[Fotos de Bruno Ropelato]

O cone é obrigatório. Em qualquer república universitária, ele está lá: em algum lugar entre as geladeiras quase sempre vazias e os pole dances, pianos, violões, piscinas, grávidas, serrotes, placas de trânsito, pranchas de surfe, casinhas de boneca, cães, gatos e (às vezes, não que os moradores achem graça) ratos.

Viver em república é mais que colecionar cacarecos. É dividir privacidade, experiências, cozinha, banheiro. É se revezar na limpeza, separar contas, compartilhar barulhos. O cotidiano tem aspectos parecidos, mas cada casa, peculiaridades.

A Casa da Música, por exemplo, é um ninho de arte. Pertence aos pais de Rafael Camorlinga, que divide o espaço com mais oito pessoas. Na república há ensaios de seis projetos musicais, sessões de videoarte, jam sessions na cozinha e intervenções artísticas constantes nas paredes. O matagal no terreno e as garrafas de vinho barato no quintal quase fazem enfartar o pai de Rafael, visitante esporádico.

A república Castelo de Greyskol (assim mesmo, em referência à cerveja) tem nove moradores e alguns quartos com pinturas de ovelhinhas – antes, a casa era uma creche inocente. Hoje, na porta, há uma luz vermelha acesa sempre que acontecem festas e churrascos.

“Tem gente que não nasceu pra viver em república”, filosofa Eder Augusto, morador do Castelo. “Tem que saber conviver, distribuir chocolate na tpm das meninas, sabe? Você veio lá de sei lá onde, a gente cuida de você e você da gente, é meio que uma família”.

Tudo muito lindo na teoria, mas sempre tem os que não sabem brincar. No Castelo, uma ex-moradora ficou dez dias sem limpar as sujeiras do cachorro porque estava ocupada jogando GTA (!) no videogame. Depois do episódio, um período de dois meses de teste foi instituído para novatos.

Em outra república, a do Seu Madruga, Renato Rodrigues teve que aprender como contornar tensões. “Um cara que morava aqui se viciou em pedra e roubou R$ 100 da caixinha do dinheiro. Até descobrir quem tinha sido, imagina o clima que ficou.”

Quarto com tanque

A imagem de casas universitárias como campos de refugiados nem sempre é real. Na região da UFSC e Udesc existem repúblicas com ar-condicionado e piscina. Os preços variam de acordo com as regalias. Um quarto com tanque de lavar roupa (!) e cheiro de fossa custa R$ 185; uma suíte com vista para a piscina sai por R$ 600.

Pelo que paga no Castelo, Eder poderia alugar um apartamento pequeno, mas não troca a muvuca que o rodeia por nada. “É foda morar sozinho, aqui eu desço as escadas e sempre tem alguém pra conversar.”

A intercambista italiana Nico, que passou um ano na Seu Madruga, também se empolga com a experiência. “Você sai do seu quarto e é como se estivesse na rua. Cheguei no Brasil sozinha, essa é a minha família.”

O apego até faz esquecer que a permanência na república é transitória. Na Punta Cana, os seis habitantes já investiram em globo giratório, estroboscópio e televisão 50 polegadas. A próxima meta é uma mesa de sinuca. “Na verdade, a longo prazo a gente quer transferir a república pra Jurerê Internacional”, delira Everton Vasques.

A Casa da Música também tem seus planos. Rafael diz que gostaria de montar um estúdio, transformar o espaço em ponto de cultura, dar aula para a comunidade e ter uma república de todas as artes, não só da música.

Massa

“Nós seis bebendo não conta como festa, né?”, pergunta Everton, com copo de cerveja na mão às 16h de uma terça-feira. “Não? Então a gente faz umas duas por mês, por aí”. A casa tem até DJ residente. Na bebedeira mais memorável (ou não) foram 90 litros de cerveja. “Sobrou, claro, aí a gente fez a semana alcoólica. Até o cara que veio consertar o portão bebeu com a gente.”

Nas farras infinitas, coisas exóticas acontecem: uma japonesa muda (!) dançando no pole dance, arremessos humanos do segundo andar para a piscina e sofá roubado. Nenhum dos moradores deu por falta do móvel até o dia seguinte.

Na Casa da Música, as festas reúnem até 200 pessoas e já renderam uma linda carta de um vizinho que nunca esteve presente: “Obrigado pela música de ontem. Espero ser convidado para as próximas festas.”

Em época de férias, as repúblicas se transformam em albergues. No Castelo, é cobrada uma taxa de R$ 8 por um colchão em algum canto. Na Punta Cana não se paga nada. “No carnaval tinha 25 pessoas, gente do Peru, da Grécia, da Argentina, tinha gente que nem era amigo de ninguém da casa e nós só fomos descobrir depois. Foi massa”, diz um nostálgico Thiago Turini, que vê no cotidiano republicano a vantagem de aprender a conviver com outras pessoas.

“Tem mais uma coisa de morar em República”, diz Eder. A Naipe prepara o ouvido para mais uma história etílico-lisérgica-lasciva de filme universitário americano, mas é surpreendida. “O tempo passa e você fica com saudade de quem já foi embora. A gente é muito amigo numa hora e na outra a pessoa vai embora”, protesta, ameaçando se emocionar.

_____

*Esta matéria foi publicada originalmente na Naipe 3; clique aqui para ler a revista online ou baixá-la.

 

Tags: , , , , , ,


Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



5 Responses to CONES, GRÁVIDAS E SERROTES

  1. Barrera says:

    Atualizando a reportagem q pelo q eu lembre, eh de 1 ano atrás. A republica Castelo alcancou 14 moradores (+ o cachorro) e recentemente, cerca de um mes, fechou suas portas.

    mto boa a reportagem! e mto boa a naipe!

  2. Adriana says:

    Texto delicioso!

    Espero que pouco a pouco a tradição das repúblicas fique mais forte aqui, viver em república faz parte da vida universitaria!

  3. Felipe Costa says:

    Muito legal a matéria!

  4. Raony says:

    Muito legal este post sobre as repúblicas da UFSC!

    Ainda não é tradição em nossa ilha, repúblicas grandes com mais de 04 moradores, mas pouco a pouco isto vai mudando.

    Já fui na casa do Gui Camorlinga e as festas lá são iradas!

    Sinceramente gostaria de morar em uma república, mas transformei minha casa em um pensionato mesmo.. haha.

    Abraços!

Subir ↑