Na rua creamfields

Publicado em janeiro 24th, 2011 | por Revista Naipe

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CREAMFIELDS BRASIL CONVENCE


Mulheres bonitonas, tecnologia e line-up foram pontos positivos; preço do estacionamento, um acinte

Da equipe Naipe

“Above & Beyond”, diziam as letras verdes nas camisetas do casal de Londrina, em referência ao trio inglês de DJs que se apresentaria por último no palco principal do Creamfields.

– A gente casou numa chácara ao som de Good for me, do Above – diz o marido.  

– Sério? E quando eles tocarem hoje?

– Se pá vou chorar.

Sim, havia uma boa cota de encarnados no Creamfields Brasil 2011, tentativa de estabelecer no país um dos principais festivais de eletrônica do planeta – cerca de 200 DJs hoje em Winchester, na Inglaterra, onde surgiu em 1998, e de 40 na Argentina, onde reúne 60 mil pessoas. No sábado havia 10 mil, segundo a assessoria de imprensa do evento. Entre o público havia inúmeros argentinos e brasileiros de outros estados. 

Encarnados e estrangeiros ou não, muitos se espantaram com os R$ 50 cobrados para estacionar no Stage Music Park – talvez especialmente o povo de Cristina Kirchner, para quem isso significa 120 pesos. Além disso, o esquenta nos porta-malas foi proibido por seguranças fazendo rondas. Duas iniciativas maldosas. No Summer Soul Festival, com Amy Winehouse, o estacionamento estava R$ 30. 

Entre os pontos positivos, o clima ordeiro (a Naipe não viu brigas nem empurrões) e a estrutura. O telão gigante no palco principal era o primeiro sinal de que o Music Park havia se transformado para o evento. Uma tela próxima da entrada deixava a programação da noite visível o tempo todo. Na segunda pista, imagens eram projetadas em uma estrutura de formas geométricas em 3D que cercava e compunha a cabine do DJ – a tecnologia video mapping, que dizem ser o futuro dos festivais de eletrônica. 

Só uma cachacinha

O palco secundário, a Cream Arena, era o espaço da música mais conceitual – mulheres de bandana dançando nos seus fantásticos mundos de Bob; magrelos estilosos com ray bans de plástico; sujeitos apegados ao som mas indiferentes à moda como Maurício Bernardo, de Gaspar. 

– A música treme a pele, só é preciso uma cachacinha – disse à Naipe, refutando a conexão entre drogas e o som mais noiado, progressivo, tantalizante. “Aqui é o lugar de quem entende de música eletrônica”, decretou, e concluiu sorrindo: “Por isso tá vazio”. 

Se os argentinos que já tinham ido no Creamfields de Buenos Aires sabiam esmiuçar o line-up da noite, teve brasileiro esperando Gui Boratto como o “som paulada” do evento.

Até o DJ romeno Raresh, à 0h30, a Cream Arena não chegou a 200 pessoas. Depois, ficou lotada até amanhecer.

– O Raresh foi o que remixou melhor, mais teve groove – se empolgou o curitibano Christopher Cruz. Ele e a mulher chegaram a tempo de acompanhar o Creamfields inteiro. “O [argentino] Hernan Cattaneo é o mais parecido com os CDs. O Erick Morillo tá muito foda”, disse, atrapalhado pela Naipe no meio do set do DJ americano.

Desculpa, sou sincero

A música eletrônica mais comercial, como a de Morillo, era a que mais liquidificava o público e ao mesmo tempo recebia os mais duros chutes na canela. Entre os entrevistados pela Naipe, os sons de rádio apanharam não só do gasparense Maurício Bernardo mas também do DJ brasileiro Anderson Noise e do francês Etienne de Crecy. Isso que a quantidade de hits Jovem Pan do evento, aí incluídas breves colagens de trechos, os samples, não deve ter chegado a 25 nas quase 30 horas de música das duas pistas somadas. 

– Já levei tomate na cara [em outra oportunidade]. Só toco o que quero – disse Noise, que é contra o estilo DJ showman, de braços levantados o tempo todo, e na sua apresentação permaneceu sério e absorto no seu laptop. 

“Desculpa, sou sincero”, afirmou, sempre dando à Naipe tempo para absorver suas incríveis bombas de sinceridade, que eram muitas. “Sou anti-música comercial”, “gosto de fazer coisas novas, mostrar o que acho correto”, “eu poderia tocar música velha e ganhar a maior grana”, “já toquei em mais de 30 países”, “não me interessa o que esses caras [do palco principal] estão tocando”. Etc. Ao final, reservou três comedidos elogios: para o video mapping, para o DJ alemão (do palco secundário) Loco Dice, “o nome mais promissor da noite”, e para o festival.

– Adoro tocar no Creamfields. 

Estou bêbado

A Naipe assistiu 5 dos 10 DJs da Cream Arena, o palco menor, e 5 dos 8 no principal. Gostamos especialmente da dupla brasileira de electro house Felguk, que mesclou noias a músicas conhecidas como Kids, do MGMT, e Body Language, do Booka Shade. Sem medo de críticas às pitadas comerciais. Além de Raresh e Loco Dice. Erick Morillo cumpriu a fama de empolgar grandes públicos ao ar livre. Etienne de Crecy estava batuta, arrojado, mas teve apenas uma hora para tocar, o que comprometeu o desenvolvimento do seu set.

– As pessoas não pularam o suficiente – resumiu à reportagem, sobre a diferença entre o Creamfields Brasil e diversos outros em que já tocou. Depois, lamentou ter tido apenas uma hora disponível. 

O papo foi confuso. Franceses com champanhe puxavam Etienne. A Naipe estilingava perguntas rapidamente.

– Tu aime bien Erick Morillo? [Você gosta do Erick Morillo?], quisemos saber, porque era esse o som ao fundo. 

– Non.

– E o Creamfields Brasil? E o Brasil?

– So many girls, so many girls, so many beautiful girls – repetia emocionado. 

Ele havia apenas caminhado pela ala VIP. Uma possível intérprete se meteu entre o DJ e a reportagem. 

– A arte dele é assim. Quem quiser que goste.

– Estou bêbado – sorriu Etienne. 

– Melhor assim – sorriu a Naipe, já bebericando também um champanhe. 

Matadores de baratas

Não era preciso estar levemente mamado como o DJ francês para perceber que sobravam mulheres bonitas – parecia que uma edição limitada havia sido despejada no Creamfields. Diplomática, uma linda argentina de franja para o lado, saia jeans e blusinha “I love Floripa” insistia que as brasileiras é que são bonitas. Pegou inclusive uma pelo cotovelo para exemplo, no que a brasileira respondia que as argentinas é que são as guapas. A Naipe teve uma crise nervosa.  

Às 4h, um dos bares não tinha mais água. Depois das 5h, o som futurista-esotérico-chatão do Above & Beyond tomou a arena principal. “Do people in Brazil sing?”, apareceu escrito no telão gigante, no que uma música bem mais difícil de se cantar junto do que Meteoro da Paixão começava a tocar. 

O dia amanhecia e o Creamfields perdia um pouco da classe. O clima ficou meio rave com malaco. Olhos fechados viajavam atrás dos óculos escuros. Restavam principalmente descamisados metanfeminados, paranoicos momentâneos e matadores de barata em geral. Um rapaz corpulento tentava chamar a atenção de uma menina dando camisetadas nela. As bonitonas haviam sumido. Era hora de partir. 

Final esperado (e os R$ 50 do estacionamento) à parte, o festival valeu a pena. No verão, com o acréscimo de encarnados em eletrônica de fora, Florianópolis pode se fixar como sede do Creamfields. A organização do evento não promete isso. Diz apenas que “algum evento Cream” deve rolar por aqui todos os anos. 

Oxalá. 

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Assista vídeos do Creamfields Brasil 2011

http://www.youtube.com/watch?v=HA52LaPb4gk

http://www.youtube.com/watch?v=F_4r93RNMno


Veja fotos

{morfeo 29}

 

 

 

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Sobre o Autor



2 Responses to CREAMFIELDS BRASIL CONVENCE

  1. Rodrigo e Aline says:

    Que legal adoramos a reportagem, infelizmente não tocou nossa música good for me, mas tocaram muitas outras ótimas, com certeza above & beyond foi o melhor show pena que so foi 2 horinhas.

  2. Cristopher says:

    Dae brother da Naipe.

    Meu nome não é Christopher Bruce, é Cristopher Cruz, mas naquela pista vc lembra bem que era dificil conversar!
    [A Naipe já fez a correção acima];
    Parabens pela reportagem, você conseguiu resumir bem o que foi a festa num todo, eu vou levar como uma lembrança eterna deste verão 2011, que ainda nem acabou mas já deixou momentos incríveis.

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