Na rua mano

Publicado em agosto 6th, 2010 | por Revista Naipe

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DIVINO MANO

[Por Jerônimo Rubim, com fotos de David Collaço]

Adentrando o descolado lounge do nightclub desavisado da programação, ninguém iria supor que o El Divino receberia um visitante incomum na noite congelante de quinta-feira.

As meias rendadas e os vestidos de frente única estavam lá, as camisetas polo e sorrisos de comercial também. A pista cheia sacolejava com músicas pop e alguma coisa de hip hop. Copos de vodka com energético enchiam as mesas. Um festival de sushi já saciara quem chegou mais cedo.

A promessa era a de uma quinta-feira diferente. Mano Brown, o “Vida Loka”, o senhor da periferia, a eminência parda do rap brasileiro, subiria no palco de uma das casas noturnas mais pop da pop Floripa. “Vocês vieram pra ver o show?”, pergunta a Naipe pra um casal de uns 20 anos de idade. Ele faz uma expressão entojada de “não”, ela uma de “até parece”. Os poucos manos que a Naipe avista estão espalhados. Estranhamente, não parecia haver expectativa no ar. Apenas a certeza juvenil de que aquela seria a melhor noite de todas – o famoso rapper aparecendo ou não.

Ingenuidade da nossa parte. Assim que a entrada de Brown é anunciada, qualquer espaço na pista é disputado a cotoveladas. Dezenas de manos e adoradores do cantor se materializam na frente do mini-palco, excitados, empurrando os frequentadores mais assíduos do lugar para trás. Um rapper auxiliar começa a puxar versos e um DJ segue na batida. Com jaqueta de couro e um cifrão brilhoso como fivela do cinto, Mano Brown acompanha por vários minutos apenas com “ié, arram, mmm” e anuncia: “Tô muito louco”. Cachaça, conhecido rapper ilhéu, dança embalado ao lado dos dois, copo cheio na mão.

Um painel de luzes coloridas brilha sobre a cabeça de Brown enquanto ele acelera e começa a engatar versos rápidos com batidas de músicas de Jorge Ben ao fundo. “Não sou refém de nada, nem do rap. Aquele Mano Brown virou sistema viciado”, declarou o rapper quarentão em uma entrevista explosiva à Rolling Stone de dezembro do ano passado. Era o sinal dos tempos. Mas pouca gente no El Divino parece conhecer ou se interessar pelas músicas do novo projeto de Brown. Quando ele ameaça versar em cima de uma música de Tim Maia, soam algumas poucas vaias. “Escreve aí que a galera quer é Racionais, não fode”, esbraveja um improvável fã de All Star e óculos Rayban com lentes transparentes.

Mano Brown concede, mas avisa: “Vamos voltar a 1994, mas quem vive de passado é museu. Eu prefiro o agora”. Os versos afiados de “Diário de um detento” fazem a alegria de um extasiado mano de corrente no pescoço. Mas não só. A gatinha de saia curta e o gatinho de pulôver listrado entoam todas as letras a seguir em uníssomo com o resto do variado público. Racionais MC’s é cult, e Mano Brown é o pastor. A periferia é pop.

 

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7 Responses to DIVINO MANO

  1. Carmelo Cañas says:

    Legal que o Mano Brow tá seguindo novos rumos. Para um artista é fundamental.

    Complicado vai ser o público dele entender isso. Se no El Divino a galera já pede o bom e velho rap, imagina quando ele entrar na favela e disser, “ae mano, essa noite não tem rap, tá ligado.”

    Baita texto, Jerônimo.
    Parabéns pela revista.

  2. daniele says:

    é isso mesmo!
    o Jerônimo mandou muito bem nessa matéria!
    parece até que já é fã do mano brown… :)

  3. Richard says:

    Mandou ver Jerônimo. Sucesso com a revista!

  4. Slop says:

    bom texto, parabéns.
    escreve muito bem.

  5. Lu Mozzini says:

    Parabéns pelo texto Jerônimo! Deu até para viajar a Floripa e “ver” esse show agora. Muito bom!

  6. Rafael Xavier says:

    Grande texto, Jerônimo. Parabéns pela revista 2, está ótima.
    Abraços

  7. Daniele says:

    AMEI-ZING!
    Ver o Mano Brown cantando tão de perto, mesmo estando mais pop, foi demais.

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