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Publicado em junho 25th, 2013 | por Revista Naipe

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EXPLICANDO PRA CONFUNDIR

[Foto: Stefano Maccarini]

Já disseram por aí: só não está confuso quem está mal informado.

Estamos muito confusos. Cobrimos a primeira manifestação de Floripa e relatamos aqui. Voltamos da segunda, que mobilizou 30 mil (ou 50 mil, segundo cálculo por m² da Naipe) pessoas ontem (20/6) tão atordoados que em vez de reportagem preferimos traduzir o que vimos em opiniões.

1) “Descobri hoje que temos um policial do choque dentro de cada um de nós”

Perdemos. E perdemos feio. Justo no dia que saí de casa com a esperança de ver uma cidade unida, nos despedaçamos. O governo e a polícia finalmente descobriram como nos dispersar. Não é com spray de pimenta, gás lacrimogêneo, balas de borracha ou cassetetes. O jeito mais eficiente de nos dividir é nos deixar sozinhos pelas ruas, nos entregar a chave da cidade.

Nunca nossas diferenças foram tão evidentes. Os cartazes de uns incomodaram os outros, as bandeiras de uns injuriaram os outros. Sinalizadores, máscaras, faixas, narcisismo, ideologias. Tudo se tornou motivo pra nos colocarmos em lados opostos. Descobri hoje que temos um policial do choque dentro de cada um de nós, tentando impedir os outros de se expressarem. Um povo que passou a vida inteira apanhando acabou desaprendendo a bater. Nos tornamos apáticos, simpáticos, pacíficos.

A noite deveria ter sido feita de caras sérias, olhares de revolta, gritos vindos da alma. Mas a única coisa que se viu foram sorrisos e risadas, como se estivéssemos comemorando. Nunca estivemos tão longe da vitória, amigos. Nunca fomos tantos e ao mesmo tempo tão poucos. A lista de reivindicações é tão extensa que não sabemos por onde começar. Transporte, saúde, segurança, educação, emprego, corrupção. Tem algo que podemos elogiar nesse país?

Pela primeira vez em dez anos do Movimento Passe Livre a imprensa e os políticos nos dão tapinhas nas costas. Talvez porque estejamos caminhando pra direção errada, enrolados numa bandeira que não construímos. A maioria não saberia dizer quantas são as estrelas estampadas. Os políticos nunca foram dormir tão tranquilos e eu nunca fui dormir tão desesperado. Amanhã vai ser menor.

Fabrício Finardi

2) “Precisamos de lideres nesta manifestação, não precisamos de maniFESTA”

Ontem levei meu filho de 13 anos para a manifestação porque pensei que seria um momento histórico que ele precisava participar, mas quando chegamos na ponte ele me perguntou: “E aí, pai?”.

Dormi e acordei com a mesma pergunta. E aí? Saí de casa, peguei trânsito, chuva, caminhei duas horas, tomei a ponte, passei mais uma hora dentro do carro esperando pra voltar para casa. “E aí?” parece coisa de vida após a morte, sempre fica aquela dúvida: para onde vamos, mesmo?

Continuo com a minha opinião inicial. Precisamos de lideres nesta manifestação, não precisamos de maniFESTA. Precisamos, sim, ir para a rua, mas com objetivo bem definido e com pessoas que realmente queiram mudar o Brasil. Para mudar qualquer coisa existe sempre um objetivo claro com liderança consciente e ativa.

Thiago Steiner

3) “O desejo de ser parte da história está pondo em risco o resultado de uma revolução jovem”

Li, dia desses, uma frase que levou três dias para ser inteiramente assimilada. Em 1994, Paulo Freire escreveu em seu livro Cartas à Cristina, a seguinte reflexão: “A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo”.

Depois de assistir a transformação da manifestação nos mesmos três dias, concluí: não dá pra sobrepor as lutas, uma sobre a outra, com tanta velocidade, com tanto volume amorfo. Uma massa está sendo levada sem rumo, sem reflexão. Filosoficamente falando, a falta, o sentimento de pertencimento, o desejo latente de ser parte da história, está colocando em risco o resultado de uma revolução jovem. Tão jovem que não se preocupa, então, com o próprio papel na hora de protestar. Por enquanto, querem fazer parte, querem estar lá.

É complexa a busca interior de saber pelo que se luta. Verdadeiramente, muitos não têm experiência para saber. A sensação de que tudo ficou tão estranho, porém, é positiva. Agora está na hora de repensar a própria postura. Está em tempo de olhar para dentro de si antes de sair novamente às ruas. Qual é o seu papel na história?

Pollyanna Niehues

4) “Vou torcer para que na próxima manifestação a Ritalina venha diluída na chuva”

Para usar a própria ‘profundidade’ da web, segundo o Wikipedia “o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma síndrome caracterizada por desatenção, hiperatividade e impulsividade causando prejuízos a si mesmo e aos outros”. Segundo a OMS, cerca de 4% dos adultos e de 5% a 8% das crianças e adolescentes de todo o mundo sofrem de TDAH.

Digamos que ontem vimos 30 mil pessoas na rua e que a grande maioria era de adultos (sim, eu sei que não). Tenho certeza que não tínhamos só 1200 pessoas, 4% dos 30 mil, com agendas e focos que mudavam a cada minuto. Ontem Floripa deve ter batido recordes na história das psicopatologias. Vou torcer para que na próxima manifestação a Ritalina venha diluída na chuva.

Diogo Rinaldi 

5) “Não admite, o típico intransigente, que as pessoas passaram a semana se politizando”

Ler a ingratidão de muitos politizados no Facebook me dá uma tristeza gigantesca.

Para evitar mal entendidos, não é demais deixar antes aqui um parágrafo “eu sei”. Eu sei que a dispersão é tanta que há momentos de constrangimento no meio da manifestação; que o grito “sem partidos” tem prazo de validade, não faremos política sem eles; que independente de como se avalie ontem, o amanhã está em aberto; e que observar a versão passeata do nosso individualismo pode ser deprimente, como no caso da famigerada autofoto para o Instagram.

Descontando isso tudo, o que temos? As manifestações mais relevantes do país em duas décadas. As pessoas ontem tinham todos os matizes: muitas fizeram cartazes, muitas apenas caminharam cantando os coros que vieram, aprendendo o que é a ocupação noturna do espaço público, sendo um número. É pouco? É muito! O típico ombudsman de passeata, contrariado com as manifestações, ainda não entendeu o impacto de fechar cidades populosas por horas; não entendeu que políticos se preocupam mais com uma massa numerosa e variada assim, que inclui até mesmo engravatados de altas esferas, do que com os (louváveis mas muitas vezes inflexíveis e auto-interessados) bolinhos partidários.

Não admite, o típico intransigente, que as pessoas passaram a semana se politizando; que os protestos ocorrem em um contexto mundial democrático bem mais saudável do que o dos anos 1960 (tornando capciosa a comparação com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, por exemplo); e que, enfim, uma boa democracia é isso, um protesto pacífico ao lado de quem pode ter pouco a ver com você.

Thiago Momm

6) “É mais fácil condenar ‘a corrupção’ do que lutar por aquilo que está perto”

Sou das que, na terça-feira, ficou maravilhada ao subir a ponte Colombo Salles e ver que à minha frente e atrás de mim os olhos não alcançavam o fim da multidão. Mas (desculpa aí, galera!) estou desconfiada. Acredito – e temo – que muita gente estivesse ali só pela glamourização da coisa, pela dimensão do espetáculo e pra dizer de peito inflado: “Eu ajudei a mudar o país”.

Nós temos, sim, o poder de mudar as coisas e manifestações como essas poderiam ser um passo para isso, mas não são o suficiente. Pode parecer clichê dizer isso, mas a mudança também ocorre em pequenas ações. Quantos de nós já compareceram a uma sessão da câmara? Quantos já fomos a uma reunião de bairro ou de condomínio? Mudar o país é dizer para uma criança quando vir alguém furando fila no trânsito: “olha só, isso é corrupção!”.

É mais fácil condenar “OS POLÍTICOS”, “A CORRUPÇÃO”, “A IMPRENSA”, do que lutar por aquilo que está perto. Afinal, discutir com vizinho gera incômodo e participar da política dá trabalho. É legítimo e digno de aplausos lutar por uma causa justa, mas ter coragem de olhar nos olhos todos os dias e respeitar quem pensa diferente da gente pode parecer pequeno, mas também é grande parte da mudança.

Bárbara Dias Lino

7) “Mais narcisismo que ativismo”

Na mesma Florianópolis onde em 2004 a polícia descia o cacete em integrantes do Movimento Passe Livre, abrem-se alas para que a ponte seja ocupada por 30 mil pessoas – muitas das quais, há duas semanas, nunca teriam ido pro asfalto mostrar insatisfação. Até ontem, eu achava essa mudança linda. Até ontem, quando o Movimento Passe Livre foi hostilizado novamente, desta vez por gente que também estava lá pra se manifestar.

Não foi só isso que ativou as  três pulgas que dormiam atrás da minha orelha desde terça-feira. Enquanto subia no maior símbolo da imobilidade ilhoa, não consegui me sentir parte. De absolutamente nada. Poucos gritavam, muitos tiravam fotos de si mesmos: mais narcisismo que ativismo, mais sorrisos que indignação.

A maioria das pessoas estava feliz. Feliz na mesma semana em que – só pra citar um fato absurdo – Marco Feliciano enfiou goela abaixo o infeliz projeto da “cura gay”. No dia seguinte à invasão do teto do Congresso em Brasília, apenas dez manifestantes foram ao chiqueirinho de Feliciano protestar.

Aquele vazio – não de pessoas, mas nas pessoas – lá na ponte me deixou com receio. Um amigo me disse estar com uma forte sensação de estar servindo de massa de manobra. O que me lembra que li em algum lugar a notícia de uma cidade mineira em que a polícia acompanhou os manifestantes ao som da banda de música da PM. Não consigo parar de me perguntar: estamos dançando a música de quem?

Rosielle Machado

8) “Transformamos protesto em caminhada. A manifestação virou esquenta”

Mandaram: #vemprarua. Obedeci. Acompanhei a multidão, subi na ponte vazia de carros. Vi cartazes lindos e outros absurdos. Gente que pedia mais amor, por favor, e gente exigindo impeachment. Gente orgulhosa de ter levantado a bunda da cadeira, sair do Facebook. Mas é mentira. Nós não saímos do Facebook, só o levamos pras ruas. Estávamos fazendo check-in na manifestação, curtindo o momento, fazendo pose para fotos. Já fizeram até um Spotted: Manifestação. Faltou compartilharmos uma ideia comum. Faltou foco.

Disseram: #ogiganteacordou. Eu também disse, também tuitei, também postei. Sem diminuir militantes que batalham há tempos por suas pautas, pelo contrário. Pra mim, o gigante tinha acordado justamente porque os brasileiros estavam todos mobilizados, atentos à mesma reivindicação, em uníssono. Erro meu. Não há unidade nessa manifestação. Essa foi a parte que não entendi, porque ontem havia um propósito claro: protestar a favor do passe livre. Mas um punhado de gente estava lá só tentando tirar casquinha. Transformamos protesto em caminhada. A manifestação virou esquenta.

Gritaram: #opovounidojamaisserávencido. Eu fiquei em dúvida: quem é o inimigo aqui? A ideia de “protestar por um país melhor” é linda, mas vazia. Atirar pra todos os lados não é estratégia, é imaturidade. Agregar bandeiras a uma causa já estabelecida é válido, mas por que estamos saindo da luta inicial? Está provado que conseguimos nos mobilizar. Agora, precisamos parar de achar que tudo é festa. Como bem resumiu uma amiga, “fui pra manifestação, mas voltei do Carnaval”.

Lucas Pasqual

9) “Florianópolis é referência na luta pela tarifa zero. Ontem, rasgamos essa imagem a cada passo”

“Não se apaixonem por si mesmos. Esse movimento todo é lindo, mas o que importa é: o que vai mudar?”, disse o filósofo esloveno Slavoj Zizek, durante o Ocuppy Wall Street em 2011. Manezinhos, nativos ou não, marcharam orgulhosamente pelas pontes ontem. Mais de 30 mil de nós, disse a Polícia Militar – que só acompanhou, calmamente, os calmos manifestantes. A mesma Polícia pesou a mão em todas as outras manifestações do Passe Livre na ilha. Antes, a população se aborreceu porque atrapalhavam o tráfego: “essa cambada de vagabundo”, diziam. Hoje, todo mundo era a favor de fechar avenidas.

Mudamos tanto assim? Ou apenas pegamos carona na indignação nacional? Floripa não podia ficar de fora da última palavra em manifestações. Assim, convocadas às pressas (e já com atraso em relação a outras capitais) pelo Facebook, as pessoas se apressaram em confirmar presença no evento do momento. Provavelmente saíram de casa indignadas com “tudo isso aí”. Mas em que momento essa indignação virou apenas um passeio entre amigos?

Na verdade, nunca houve chance de ser algo mais do que foi. Alguns chamaram a tomada das ruas de micareta, outros de maniFESTAção. Houve quem preferiu “cortejo fúnebre”. Se é que já houve vontade revolucionária na cidade, ela se foi com a Novembrada, em 1984. Há tempos somos apenas a ilha mágica das praias, do melhor IDH, do povo sarado e das promessas de verão. As mesmas famílias de sempre se alternam no poder, sempre as mesmas maracutaias e arranjos, mas e o meu bronzeado do fim de semana?

Florianópolis é referência nacional na luta pela tarifa zero. Ontem, andando ordeira e calmamente, como pedia a TV, rasgávamos essa imagem a cada passo. As fotos das pontes lotadas ficaram lindas. Em casa, eu assistia à aglomeração e me sentia frustrado por não ter ido – uma cirurgia no joelho me lembrava que era melhor ser prudente. Talvez pudesse haver confusão, exaltação política, indignação! Sei lá o que achei.

Jerônimo Rubim

10) “É o Brasil nas ruas, o bom e o ruim dele”

Difícil, mas deixem-me aqui tentar tomar uma posição ambivalente.

A todos que criticam os coxinhas e despolitizados que foram à manifestação com camiseta de futebol, ou cantaram o hino nacional que você achou meio fascista, ou que não sabiam as cantorias do Movimento Passe Livre de cor: sinto muito. É o Brasil nas ruas, o bom e o ruim dele. Vocês não queriam que as pessoas saíssem de seu sofás, desligassem a Globo e desconectassem do Facebook? Pois então. É essa galera. Agora ajudem a mobilizar a nação na direção certa. Vocês precisam deles para esse protesto.

A todos que gritam “sem partido, sem partido,sem partido” até estarem mais esbaforidos e vermelhos que a bandeira mais comunista: sinto muito. É esse pessoal que está preocupado com as coisas concretas que vão nos levar de um país que gasta milhões em estádios a um futuro “sem corrupção” e com “mais saúde e educação”. Isso não vai cair do céu, muito menos ser entregue de bandeja. Vocês precisam deles pra essa caminhada. Sair pra rua não basta. Mas é um bom passo.

Bruno Rinaldi

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4 Responses to EXPLICANDO PRA CONFUNDIR

  1. Thiago Momm says:

    Como dissemos na matéria “Somos bananas. E não somos” e conversamos uma vez, a individualização das vidas significa a individualização das pautas. A ladina Margaret Thatcher sintetizou (e estimulou) essa maldição contemporânea na sua frase: “Não existe isso que chamam de sociedade, existem homens, mulheres e os seus filhos”. Disse isso há uns 30 anos, e desde então só nos fragmentamos mais. Não à toa, as letras de música só falam de amor a dois: achar alguém, se abrigar no iglu da vida privada e deixar o resto se resolver (ou não) por si mesmo.

    Reavaliando agora, concordo com vocês, ontem vimos mais manifestações individuais que uma só grande, coletiva. Meu otimismo se baseia sobretudo no impacto que o caos de parar cidades tem causado, e a minha contrariedade foi com quem insinuou coisas um pouco mirabolantes no Facebook. Mas, puta que pariu, me sinto identificado com o depoimento de todo mundo. Como diz o Diogo, Ritalina pra nós!

  2. Deisi Gomes says:

    Sem aprofundar e fazer uma analise sociológica do momento, que o que vejo de importante nestas manifestações é a saída da inércia do cliqueativismo, e principalmente para os jovens mostrar que sair às ruas e externar sua inconformidade ja é um ato de cidadania, mesmo q para alguns tenha a cara de festa não deixa de ser um ato politico. Exercer a cidadania é o único caminho para mudanças. O que virá mais adiante , se virá e como virá já é outra questão.

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