BEIJO, NÃO ME LIGA

Uma multidão entoava algum dos hits auto-referentes do Chiclete com Banana quando o bloquinho de anotações da Naipe foi surrupiado.

“Acordo arrependido mas não durmo com vontade”, escreveu um bagunceiro de abadá laranja, resumindo, com seu clichê de bêbado, o espírito bélico-micareteiro do Folianópolis 2010.

Foram três dias de uma semi-anarquia feliz ao som de muito axé e algum eletrônico – a Pacha montou uma estrutura para 150 pessoas em um dos camarotes da maior micareta do sul do país.

As dez mil pessoas que se acotovelaram em cada noite para ver os trios elétricos sorriam faceiras. Todas, inclusive Dani Bananinha, Lívia Lemos e Anna Paula Caldeira, o primeiro bebê de proveta da América latina (é, a Naipe também não a conhecia). Três dias de acontecimentos completamente aleatórios: Asa de Águia cantando With or Without You, uma mulher de pé engessado dançando alucinada, homens vestidos de dálmatas.

A noite de Ivete Sangalo, claro, foi o clímax. Na entrada da Nego Quirido, um grupo de meninas perguntava se alguém tinha “ingresso, abadá, qualquer coisa”. Até a arquibancada estava lotada, à parte alguns espaços bem-vindos para respirar. “Aqui dá pra aproveitar tranquilo”, disse Caroline, que optou pelo setor por achar melhor para ir em casal, além de ser mais barato. Ela e o namorado pagaram, com desconto em um site de compra coletiva, R$ 15 cada.

Caroline e o namorado tinham mesmo o que temer. Atrás do trio não era raro presenciar lutas greco-romanas que constantemente terminavam em um beijo violento – às vezes interrompido por amigos puxando pelo braço, lembrando que o trio elétrico passa e a fila anda. No camarote (que além da pista da Pacha tinha mini-salão de beleza) até se preservava um certo bom senso. Na pista do trio elétrico, nenhum.

Volta avassaladora

Homens sedentos por atenção apelavam para boias infláveis, cocares de índio, fantasias de animais. Dois amigos de Salvador usavam um turbante na cabeça. Explicaram sorrindo o motivo de terem cruzado o Brasil atrás de uma micareta igualzinha a que poderiam encontrar no quintal de casa: “Uma mulher daqui vale por dez de lá”, dardejou um. “Mas as daqui são mais difíceis, no carnaval de lá a mulherada tá entregue”, ponderou o outro

Não foi só o nordeste que compareceu. Os ingressos foram vendidos em 25 estados do país. Um paulista fantasiado de abelha contou ter vindo pelo quarto ano seguido. Connoisseur do mundo das micaretas, ele disse que a empolgação da ilha não perde para a nordestina: “O pessoal é animado, a mulherada é bonita.”

Querendo avaliar o nível da permuta de salivas, a Naipe acompanhou um grupo de Curitiba no terceiro dia. Munidos de uma mochila-refil-de-bebiba-com-canudo, eles entoavam o grito de guerra “pode ser gorda, pode ser feia, só não pode ser gorda e feia”. Em uma volta avassaladora pelo camarote, somaram 16 mulheres beijadas em cerca de 20 minutos. Nem uma senhora loira mais velha, na casa dos seus 50 e algo, passou ilesa.

“Não é tão difícil beijar mulher, é só ter ousadia”, filosofou um deles. “Mas acho que a gente é bem terrorista.”

A mulherada, apesar de ter um pouco mais de sutileza que isso, não ficava por baixo na malandragem. “Já peguei todos os meus amigos”, confessou uma. “Quero fazer xixiiiiiiii”, defendeu-se outra, quando abordada por um cara na entrada do banheiro. Em seguida, comentou com a amiga: “Ele era feio”.

Manifestação de amor

Na segunda noite, muitas guardaram os suspiros para o vocalista da Banda Eva, Saulo Fernandes. Durante o show do Asa de Águia, o cantor até arriscou descer para a beirada do camarote Nova Schin, quase na saída para a avenida. Foi fagocitado por um grupo de fãs insandecidas.

Recomposto no camarote da Contigo, disse à Naipe que ficava feliz com a tietagem: “Acho que é tudo manifestação de amor. É muito bom ver isso aqui no sul, saber que as pessoas vão conhecendo e gostando da nossa música.”

E gostam mesmo. Coreografias ensaiadas, cantorias em uníssono, cartazes de “Sou tiete da Ivete”. É tanta devoção que ninguém duvida que muitos vão embora de Florianópolis com ingresso comprado para a micareta do próximo ano. Acredite: a edição de 2011 já foi lançada e é possível comprar o lote de abadás apelidado de “no escurinho”, por R$ 170, sem nem mesmo saber as atrações ou os dias da folia do próximo ano.

Ivete já anunciou de cima do trio elétrico que volta ano que vem. A Naipe desconfia que quase todos esses contratos micareteiros de grupos de axé são vitalícios.

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3 Responses to BEIJO, NÃO ME LIGA

  1. Luiza Andrade says:

    GENTE, qual é? quanto é que essa gente paga pra ouvir musica ruim, ficar pulando de um lado pro outro, se sujar e pegar gente feia? credo. festa maravilhosa no mundo de quem não pega ngm e gosta de musica rum.

  2. Gabriel says:

    Oi,
    Gostaria do contato dos redatores e fotografos desta matéria.
    Tem um erro, foram 16 + 1 no final.

  3. Arthur Afonso says:

    Ainda bem que existem festas pra todos os gostos… Pessoas que não se sentem bem com a “semi-anarquia” citada acima realmente não fazem falta nessa festa maravilhosa!

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