Na rua capamoteloverdose

Publicado em junho 14th, 2011 | por Revista Naipe

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ILHA LADO B

[Por Marcelo Andreguetti]

Seria pretensioso de minha parte começar um texto dizendo que o cenário do rock florianopolitano atual é o mais promissor dos últimos anos, mas não posso negar que os dedos coçam pela vontade de escrever isso em letras garrafais.

Para começar com apenas dois exemplos, temos a Cassim & Barbária, que faz o show mais derrete-cérebro e cortatripas que você pode querer de uma banda baseada no formato de canções, e a Sociedade Soul, garantia de casa cheia onde quer que toquem. São bandas fora do molde “rock praieiro”, cheio de influências do reggae. Trilham caminhos mais tortuosos, fazem um som mais pessoal, inovador e experimental, com muito menos apelo comercial imediato.

Essas são bandas que se “consolidaram” no cenário local, mas a quantidade de bons nomes não acaba por aí. Tem muita coisa nova rolando que você talvez nem saiba, mas definitivamente devia saber – e, principalmente, ouvir. Encarregado pela Naipe, embarquei numa apuração clínica nas entranhas do inóspito underground mané e de lá voltei com três crianças prodígio do rock catarina: Os Skrotes, Motel Overdose e Mar de Quirino.

Descrever o som dos Skrotes não é tarefa fácil. A começar pelo MySpace da banda, onde eles próprios se definem como jazz/psicodélico/thrash. Pode não fazer sentido à primeira vista, mas basta uma audição pra ver o que eles querem dizer com isso: uma música pode ir de um cool jazz estilo Miles Davis pra um momento headbangermetaleiro numa simples virada na bateria. Um power-trio instrumental, os Skrotes têm um elemento que talvez seja seu principal diferencial em relação às outras bandas do tipo: o teclado.

E não é só um, são três. E mais ainda um sintetizador que mistura um pouco de tudo em efeitos eletrônicos. Mas não bastaria tanta inovação e boas ideias sem talento, coisa que os caras têm de sobra. A habilidade com que variam os ritmos, alternam dinâmicas e fazem a melodia se desenvolver garante o caldo necessário dos shows pra lá de interessantes. Nessas apresentações, o trio costuma pegar bases  conhecidas e transformálas completamente, como verdadeiros cirurgiões plásticos do pop. O extreme makeover passa por Ramones, Black Sabbath, Pantera… sobra até pra musa pop Lady Gaga, que tem  “Poker Face” transformada num jazz-rock-bossa-metal-marchinha psicodélico.

Essa salada de ritmos também não falta no som do Mar de Quirino, um sexteto que nasceu aos poucos como uma colagem “orgânica  e retilínea” que foi ganhando forma – física e sonora – nos estúdios da Ouie Discos, na Praia do Saquinho, extremo sul da ilha.

É como se fosse surgindo ali um recife de corais, representados por novos  integrantes e novas incursões sonoras. Tão “indecifráveis” quanto os Skrotes, O Mar de Quirino faz um rock com influências que vão do jazz ao experimental. O repertório deles pode começar com uma balada  psicodélica ao estilo Flaming Lips para em seguida enveredar por um dançante e funkeado punk rock que parece saído de alguma boate nova-iorquina. Como se não parecesse possível, surge ainda um noise-rock cabeçudo e sintético que carrega semelhanças que vão dos alemães dos anos 70 aos primórdios do indie rock norte-americano.

Já o Motel Overdose tem um som que poderia definir usando o título de uma  música da banda carioca Matanza: Pé na Porta, Soco na Cara. Aliás, o Matanza é um bom ponto de partida pra explicar aquilo que o Motel Overdose faz: é música de inferninho, stoner rock de primeira cheio de  riffs carnudos, cerveja, garrafas quebradas e fluidos corporais pelo chão. Assim como os Skrotes, os caras também são um power-trio, só que no sentido mais clássico da coisa – às vezes num estilo Motorhead  com riffs de dar nó no estômago, em outras, com menos testosterona, mais bom humor e uma pitada de psicodelia, lembrando um outro power-trio imortalizado, o The Jam.

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Esta matéria foi originalmente publicada na Naipe 5. Clique aqui para ler a revista.


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One Response to ILHA LADO B

  1. Alceu Carneiro says:

    Floripa tem bandas muito boas nas variantes do Rock, ainda falta espaco para as bandas tocarem. A Maioria das casas insiste no Sertanejo Universitario/Pagode. Deixando o Rock completamente de lado, Salvo Taliesyn, LiverpoolDreams e outras poucas. Mas a cena esta Crescendo e daqui a pouco não vai mais ter como segurar!

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