Na rua seochico2

Publicado em agosto 16th, 2010 | por Revista Naipe

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LEVANTANDO DO CHÃO

[Por Jerônimo Rubim]

Lindas atrizes globais desfilando pelos cartões-postais de Floripa; gatas conhecidas da cidade pagando peitinho e Paula Burlamaqui fazendo um strip nervoso no final do filme – o pornochanchístico Procuradas, de 2004, parecia ter a receita do sucesso. Mas a Naipe perguntou e 15 florianopolitanos nunca nem ouviram falar do filme.

Assim como pouca gente conhece ou assistiu aos outros poucos longas-metragens de Santa Catarina lançados até hoje. Com essa produção cinematográfica pequena, os filmes daqui parecem não ter repercussão.

Em 2001, com a criação do Edital Catarinense de Cinema (que distribui dinheiro do governo estadual para produções de curtas, médias, longas e documentários), os cineastas locais finalmente tiveram a chance de aumentar a produção. “O cinema catarinense ainda é incipiente e é preciso produzir mais que um longa a cada dois anos para acertar”, diagnostica o doutor pela Sorbonne de Paris e pós-doutor pela Universidade da Califórnia, professor de Cinema da UFSC Mauro Pommer.

Não acertando, os filmes daqui perdem espectadores-pipoca para sessões dos shoppings. Zeca Pires, o diretor que cometeu Procuradas e que recentemente lançou A Antropóloga, achou que jogar atores de queixo quadrado, olhares fatais e o apelo turístico da ilha num mesmo caldeirão ia dar sopa, mas Procuradas apanhou feio da crítica. Doce de coco, longa de Penna Filho ganhador do edital de 2005 e lançado em São Paulo ano passado, é uma remissão sem fim ao regime militar. Em cartaz no Shopping Itaguaçu ano passado, resistiu uma semana. “O filme nasceu 20 anos atrasado”, sintetiza Pommer.

Irreal

Seo Chico, documentário de 2006 do diretor José Rafael, difere investindo em temática  obviamente local: o fim da cultura de engenhos manuais em Florianópolis. Chico, que produzia cachaça sem eletricidade no bucólico Ribeirão da Ilha, foi assassinado. O filme teve boa resposta no CIC, com sessões de 70 espectadores, em média. Mesmo assim, exibido no Beira-Mar Shopping, saiu antes dos blockbusters concorrentes.

E se nossos cineastas desovassem blockbusters? A ideia não apetece os especialistas ouvidos pela Naipe. “Não se pode esperar um blockbuster vindo daqui, isso é irreal. Eu não quero imitar o cinema dos EUA, Rio ou São Paulo. Isso seria estúpido e nocivo”, diz o cineasta Chico Faganello.

“Aliás, o cinema norte-americano é um dos piores do mundo, mas também um dos melhores,  porque eles fazem muito”, entoa o colunista do Diário Catarinense Fábio Bruggemann, que já escreveu alguns roteiros filmados.

Em construção

“Acho que o cinema catarinense, proporcionalmente ao seu tamanho e ao do Estado, é, sim, assistido”, defende Faganello. Em 2009, ele lançou Espírito de porco, um documentário de 52 minutos e R$ 60 mil (ganho em edital) de orçamento filmado no oeste de Santa Catarina. O texto do filme, autodeclarado “suinocêntrico”, é ótimo, e supõe-se que o tema, ligado à cultura do nosso Velho Oeste, interessaria ao público daqui. Mas a comoção maior foi a dos críticos. Nenhum dos 15 florianopolitanos ouvidos pela Naipe soube da recente exibição de Espírito de porco no Museu Victor Meirelles.

“O sistema de distribuição é cruel com o os filmes locais, não há grana e espaço para exibição”, fustiga Pedro MC, secretário da Cinemateca Catarinense. Na mesma toada, afirma Faganello: “Não temos histórico de longas, não há histórico de consumo, não há demanda, também por isso há pouca profissionalização”.

Diretor formado em Cinema pela Unisul e mestre em Literatura pela UFSC, Ricardo Weschenfelder pondera: “Estamos em um bom momento, filmando mais, com mais profissionais, mas ainda refém dos editais”. Apesar dessa dependência, ele ressalta que o cinema do Estado “mudou bastante e está em construção”. Como ele, todos os outros especialistas entrevistados pela Naipe revelam otimismo quanto ao futuro cinematográfico catarinense. “Era um deserto antes. Agora há pelo menos um horizonte”, motiva-se Pommer.

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3 Responses to LEVANTANDO DO CHÃO

  1. Rogério Floripa says:

    Baixar o Documentário – José Saramago – Levantado do Chão http://is.gd/GvtZmn

  2. Fernando Pinheiro says:

    Excelentes observações. Creio que tendo mais lançamentos teríamos sim um melhor cinema local. Não é apenas quantidade, claro, mas a chance de acerto seria muito maior.
    Sou mais um que não ouviu falar de “Espírito de Porco”…

  3. Ricardo Weschenfeld says:

    Jêronimo, parabéns pelo texto e pela multiplicidade de opiniões colhidas sobre o cinema catarinense.

    Abraço
    Rica

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