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Publicado em fevereiro 28th, 2011 | por Revista Naipe

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LIBERTY

Entre tartarugas e passáros nas Ilhas Galápagos, Darwin não deve ter aberto tantos sorrisos quanto quem visita pela primeira vez a Liberty, casa de swing em Balneário.

Mario, gerente da casa, é um homem magro, calvo, grisalho, de barba e com uma voz de radialista romântico da madrugada. Fala com lentidão, maciez e graves iguais nos alertas “cuidado com o degrau”, “olha o degrau”, na entrada de alguns dos 36 ambientes da Liberty, e nos aforismos “aqui tudo é permitido, nada é obrigatório” ou “nesse quarto ninguém é de ninguém”.

Em boa parte do tempo, o swing é muito mais uma questão de bolinhos que de trocas. Para se permutar com outros, os casais muitas vezes não se separam.

Fisioterapia

Ao fundo das didáticas explicações do simpático gerente, gemidos. A Naipe se esforça para se concentrar no que ele diz. É 1h30, e à meia-luz homens de cueca box e mulheres de saia se aquecem. Completamente vestidos, Mário e Naipe conversam caminhando entre cinco casais em um quarto.

A criativa concepção da casa não decepcionaria o Marquês de Sade – são “várias formas de se buscar a excitação”, segundo a voz radiofônica de Mário. Há cabines com buracos para que os casais se conheçam sem se conhecer. Tem sala grande apenas para casais. Sala grande para casais mais solteiros. Salas pequenas que remetem a cabines de fisioterapia, que o casal pode ocupar sozinho ou deixando a porta sanfonada sugestivamente entreaberta.

A criativa concepção da casa não decepcionaria o Marquês de Sade – são “várias formas de se buscar a excitação”, segundo a voz radiofônica de Mário

Há uma sala de filmes pornôs, com fileiras de bancos vermelhos e um pouco mais de luz. Colchão com tenda à beira de uma piscina. Salas onde se é observado através de uma parede com aberturas de confessionário. Cadeiras especiais para sexo. Pista central com pole dance, sofás e strippers. Chapelaria com sex shop. E o dark room.

Na noite em que a Naipe esteve na Liberty, o dark room teve baixa audiência entre os cerca de 80 casais e 30 solteiros na casa [mais tarde, a reportagem fica sabendo que no carnaval houve um dia com 380 casais]. Nos outros quartos, a iluminação é suficiente para que se avalie as pessoas sem muitos detalhes. No dark room, há uma vaga noção de formas.

Nos outros quartos, um casal começa preliminares ou sexo antes dos outros, e a partir disso a abordagem é silenciosa, combinada via olhares e concluída pela mão de alguém aterrissada nas partes de alguém do outro casal. Geralmente as mulheres vão na frente, e não é raro se beijarem.

No dark room, é proibido recusar.

Curiosamente, nas salas onde é permitido recusar a permissividade parece ir mais longe. Não é raro que nelas se formem bolos de seis pessoas. Em três passagens pelo dark room, não foram vistos mais que dois vultos lá dentro.

Frango a passarinho

– Vendemos privacidade, sigilo e discrição há 12 anos – diz Mário, citando uma das frases feitas da casa. O primeiro swing contou apenas com o dono, sua mulher e mais dois casais.

O público tem de “18 a 75 anos”, na definição orgulhosa do gerente – na noite da matéria, predominavam clientes de 30 a 50. A quantidade máxima de homens solteiros permitida é 15, e eles são aprovados anteriormente pela Liberty. Não há limite para a quantidade de mulheres sozinhas, mas a reportagem não viu mais do que 20.

Os solteiros andam pelos corredores com o olhar intranquilo de quem só pode frequentar algumas das salas e espaços como o da piscina e da pista central

As solteiras logo se ensabonetam com algum casal. Os solteiros andam pelos corredores com o olhar intranquilo de quem só pode frequentar algumas das salas e espaços como o da piscina e da pista central. Mais que isso, precisam esperar convites dos casais, sob pena de advertência ou rua.

Não se pode acusar a Liberty de extorquir os clientes. Se a bebida tem preço de lupanar (R$ 8,50 a long neck de Bohemia), os R$ 100 de entrada pagos pelo casal, com R$ 40 de consumação, dão direito ao free pass. Acesso irrestrito aos brinquedos em todos os ambientes, sem taxas extras.

No meio da madrugada, um bombado de cerca de 1,70m com aparência de índio faz strip ao som de algo na linha de Listen to your heart. Uma cena surreal. As mulheres dão gritinhos, ele dança no colo de algumas e ameaça tirar a sunga branca com um torto obelisco dentro. Em seguida, uma loira-avatar deliciosa, vestida de empregada-com-saia-no-meio-da-bunda, se apresenta sob um funk de voz feminina estridente.

No canto da pista, há uma estrutura de bufê.

– Tem gente que não sai sem antes tomar um café – explica Mário, enaltecendo o frango a passarinho e bacon com mandioca do cardápio.

Chóp, chóp, chóp 

Em um amplo quarto apenas para casais, com aquela cadeira especial para sexo, sofá com espaço para mais de 15 pessoas e uma cama, acontece o auge da noite. São 5h. Aos sons repetitivos dos “chóp, chóp, chóp” das batidas de coxas nas penetrações se somam vários outros. Cerca de 30 pessoas se engalfinham em não mais que cinco amontoados.

Duas aceleradas fornicadas na cama principal emanam círculos de empolgação que contaminam o ambiente. No sofá, três mãos disputam espaço em uma morena. Há mulheres dividindo pênis, beijos femininos triplos, massagens nas partes de quem está em pleno ato e assim por diante. Uma bagunça sem fim. Grunhidos masculinos se alternam, em tempos variados, com os agudos femininos na escuridão, remetendo a tempos primevos. Bueno, bueno.

Na pista, fila no bufê. Alguns casais estão obviamente satisfeitos. Outros aparentam algumas dúvidas quanto ao que fizeram.

Entre remorsos e libidos, salvam-se todos.

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5 Responses to LIBERTY

  1. Naipe says:

    Caro anônimo

    A casa pode informar melhor. À reportagem pareceu um ambiente predominantemente hétero.

  2. anonimo says:

    gostaria de saber se há público GLS nesse ambiente e como são recebidos…

  3. simone Marssiano sc says:

    recebi muitos convite de meu esposo com resistência porque sou evangélica,depois de muita inssistência fui com ele e adorei a troca de casais agora vou seguidamente com ele ,e quando meu esposo viaja vou sózinha.é uma delicia e a descrição e sigilo é total.

  4. Curiosa e sigilosa. says:

    Recebi o convite de um amigo para ir na Liberty. Nunca fui em casa de swing e estou super anciosa para conhecer. Fiquei tranquila ao ver que as pessoas sabem manter o sigilo, pois eh fundamental. E se eu tiver que me arrepender, seja porque eu não gostei e não pq a casa me decepcionou! Semana que v em estarei lá!

  5. Frequentadoraliberty says:

    Espero que este texto não atraia uma multidão de curiosos e acabe com todo o sigilo e privacidade tão essenciais para swing. Acredito que a divulgação de lugares como esse não seja apenas desnecessária, mas sim prejudicial, uma vez que atrai pessoas apenas por curiosidade e que não possuem a maturidade e respeito que os que encontram a casa por conta própria possuem. Seria realmente frustrante passar a encontrar pessoas que estão lá por “zuação” e não por compartilharem da mesma filosofia de vida dos outros. Mais do que em qualquer outro lugar, o respeito é fundamental.

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