Na rua capamambembes

Publicado em fevereiro 9th, 2011 | por Revista Naipe

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MAMBEMBES HERMANOS

[Por Jerônimo Rubim]

Fora os eternos bolivianos (peruanos?) flautistas da Praça XV e aquele tio que assoviava clássicos sertanejos com uma folha de árvore, Florianópolis não tem tradição de músicos de rua.

E se não há costume, muitos podem pensar que não há público. Disparate, dizem os mambembes músicos uruguaios e argentinos que cada vez mais desembarcam no verão nos calçadões da capital.

Às 14h de uma quarta-feira na Conselheiro Mafra, levas de pessoas paravam para assistir aos argentinos do El Metodo envergarem tangos de Piazzola.“É muito bonito”, disse, sem desgrudar os olhos da banda, um pedestre que nunca ouvira o complexo ritmo. Thiago Garros, baixista de uma banda em Porto Alegre, encantou-se.

– Realmente muito bom, os caras sabem o que estão fazendo. O contrabaixo (elétrico) deles é um puta instrumento.

Em outra situação, os seis músicos de alpargatas ou pés no chão, cabelos mal cortados e roupas soltas passariam por hippies quaisquer. Mas com violões, violino e bandoneón nas mãos, eles magnetizam câmeras, curiosos e compradores de CDs. Silvina Rey é uma das duas mulheres do grupo responsáveis por oferecer o trabalho da banda a quem passa. Nada de forçar a barra como vendedora de loja de surfe, apenas um sorriso e a música faz o resto. Nessa toada, em média 40 CDs a R$ 20 cada são vendidos por dia. A exposição também garante contatos. Eles fizeram dois shows no La Pedrera, na Lagoa da Conceição, e já receberam convites para outras apresentações.

Leandro Rodrigues, professor, comprou um porque acha importante ajudar os artistas.

– Eles são bons. Acho importante incentivar pessoas competentes que batalham na rua.

Tocar nas ruas é trabalho. Mas ganhar a vida viajando no és malo, verdad? “Vivimos para viajar”, suspira o baixista. As vendas dos CDs – produzidos e bancados pelo próprio grupo – levantam grana para viver e compram tempo para estudos musicais no resto do ano. O expediente nas calles, com cinco horas a menos do que a média da Naipe, é das 11h às 16h – com corrida no final de tarde em direção à Armação, onde alugaram uma casa.

 Encantados com as praias brasileiras, o grupo saiu de Buenos Aires para tocar em Florianópolis, Curitiba e onde mais lhes der na telha – ou o dinheiro permitir. Verão passado, desavisados, aportaram no Rio de janeiro em pleno carnaval. Na briga com as marchinhas, o tango apanhou feio e a banda teve que ficar duas semanas a mais do que o planejado apenas para comprar as passagens de volta.

 Na ilha, enquanto a El Metodo era abordada pela polícia e guardava seus instrumentos, uma banda de chorinho encantava aposentados no Senadinho, calçadão da Felipe Schmidt. E se parecia que as aventuras gringas tinham inspirado artistas brasucas, o portunhol do clarinetista causou surpresa: “Nasci para tocar el chorinho”, garantiu Martin Perez.

 Os três uruguaios da “El Choro” são aficionados pelo ritmo brasileiro e uma das únicas bandas a tocá-lo em seu país. “Também estudo jazz, que tem complexidade parecida. Mas o choro é mais rítmico, empolgante, rico”, derretia-se Perez, olhos azuis arregalados. No mesmo esquema mambembe-pós-moderno, CDs com clássicos do gênero estão à disposição do público espectador. Algo em torno de 15 deles por dia são comprados por quem assiste às apaixonadas apresentações.

 Na Praça XV, outro grupo – gringos, porque certos cortes de cabelo são indisfarçáveis – fazia um show para outra leva de pedestres. À noite, o Pollera Pantalón, empolgante banda argentina com três meninas nos saxofones, se apresentaria na Lagoa. Uma banda de blues formada por manezinhos também tem se apresentados nas esquinas do centro – o que pode ser o começo de uma nova era para Florianópolis.

 Com essa profusão musical, parecia sacanagem que a 200 metros dos uruguaios um brasileiro estivesse se arriscando num shimbalauê qualquer em desafinado violão. Havia R$ 2 e trocados na sua caixinha. Nenhum espectador à volta.

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One Response to MAMBEMBES HERMANOS

  1. Anderson says:

    coisas que acontecem e passam (muito) mal percebidas em fpolis. moro e trabalho no centro e vi todos esses artistas entre janeiro/fevereiro. vale até como referência já que tinha gostado bastante de el metodo e pollera pantalón e, na pressa, nem ao menos sabia o nome das bandas. muito boa a matéira.

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