Na rua capamobilidade2

Publicado em abril 28th, 2011 | por Thiago Momm

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IMOBILIDADE PROVINCIANA

O carro apanhou de todos os lados no Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana, realizado terça-feira e ontem em Florianópolis.

Alguns dos gringos mais entendidos de mobilidade no planeta estavam aqui compartilhando os seus conhecimentos. Talvez julgando o assunto meio riponga ou irrelevante, nenhum prefeito, vereador ou deputado estava entre os aproximadamente 150 inscritos.

Manifestaram-se no Teatro Pedro Ivo, em abertura para perguntas, o assessor da deputada estadual Ângela Albino (PC do B) e um argentino do poder público de um pequeno município. Ficou por isso.

Mas que problema tem? Estava em discussão apenas a maneira como as pessoas vão se locomover cotidianamente dentro das cidades pelos próximos 30, 40 anos. Afora essa filazinha entre a Lagoa da Conceição e a Palhoça às 18h, além de várias ruas entupidas a qualquer hora e do fato de sermos a capital que mais cresce no país, do que estamos falando?

Tudo em dobro

O colombiano Guillermo Peñalosa é irmão do ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa. Eles capitanearam a tão alardeada melhoria de mobilidade na capital colombiana. Na terça pela manhã, Guillermo fez um diagnóstico clarividente: “Cada cidade encontra uma razão para dizer que não vai mudar.”

Na terça à tarde, abriu os trabalhos o alemão PhD em economia dos transportes Niklas Sieber. Ele andou de ônibus pelo norte, sul e leste da ilha, a partir do que constatou que aqui “não é tão caótico quanto na Índia”, mas que “faltam informações básicas aos usuários”. Sieber atentou para o fato de que, em 20 anos, Florianópolis terá o dobro da população atual, o que significará “o dobro de congestionamento, de carros, de acidentes”.

Na verdade, o total de carros no Brasil cresceu mais de 40% nos últimos cinco anos, sendo necessários menos que duas décadas, por essa tendência, pra que tenhamos o dobro de carros.

Mesmo ignorando o recente aumento das tarifas dos ônibus, o homem também nos deixou a lição: “Estudos mostram que mesmo pequenas mudanças na tarifa reduzem a mobilidade dos pobres.”

Sua palestra focou em prós e contras de variados modos de transporte, especialmente o LRT (Light Rail Transports) e o BRT (Bus Rapid Transit). O LRT é um metrô de superfície mais lento e com menor capacidade de transportar pessoas que metrôs comuns, mas de implementação menos cara. O BRT, menos custoso ainda, é o sistema de ônibus com corredores exclusivos surgido em Curitiba e já copiado em mais de 80 cidades pelo planeta – excluindo-se Florianópolis, porque aquela faixa branca tentando separar uma quarta pista em cima da ponte não conta.

Em duas horas, uma faixa exclusiva percorrida por ônibus sanfonados escoaria até um terço do movimento de dia inteiro nas duas pontes.

Um dos termos do momento em mobilidade urbana é “transporte multimodal”, a integração entre diversos meios de transporte. Outra palavra importante, citada por Sieber e outros no evento, é “forecast”, que pode ser traduzida como “prognóstico, projeto, plano, cálculo”. Ou seja, antever as engronhas que nos esperam. Otimistas, os gringos.

Javanês

A seguir vieram as palestras mais leves e inspiradoras de todo o fórum. O holandês Ton Daggers falou de bicicletas, e o inglês Rodney Tolley, de caminhadas.

Daggers explorou, claro, o exemplo do seu maldito país de 16 milhões de habitantes, 18 milhões de bicicletas e 7 milhões de carros. Lá, 80% dos alunos do ensino médio vão para a aula pedalando. Estradas para bikes, as cyclo routes, unem cidades. No final de maio, os holandeses terão à disposição bicicletas elétricas públicas, e só as elétricas particulares já representam quase 10% do total. Elas andam a uma média de 22 km/h sem qualquer esforço do usuário.

Aliás, em Florianópolis já é possível comprá-las na loja Planet Bike Electric, em Coqueiros – (48) 3249 0404.

“Somente fazendo uma escolha entre dois mundos o problema pode ser resolvido”, disse holandês Ton Daggers, sobre carros e bicicletas

O holandês insistiu em ideias esquisitas para nós brasileiros. “Somente fazendo uma escolha entre dois mundos o problema pode ser resolvido”, disse, sobre carros e bicicletas. Entre slides com excesso de placas de trânsito, engarrafamentos e afins, também estlingou: “É uma questão de ver o carro como medida das coisas ou o ser humano como medida das coisas.”

Se isso já soava javanês para um brasileiro menos cosmopolita, em seguida Rodney Tolley, diretor do Walk21, parecia estar de sacanagem. De cara, declarou que andar “não é só ir de ‘a’ para ‘b’, mas de explorar o que há entre ‘a’ e ‘b'”. As caminhadas como séria opção de mobilidade urbana, disse, foram ignoradas no século passado, mas neste já mereceram 11 grandes conferências e programas de cidades como Londres, Barcelona, Copenhague e Nova York.

O momento é propício para se falar em caminhadas por causa de “questões climáticas, o aumento dos combustíveis, a crise econômica, a obesidade”. Não se trata de criar uma população andarilha, mas de cumprir distâncias razoáveis a pé, o que coloca mais pessoas na rua, criando ambientes mais seguros, saudáveis, onde inclusive motoristas passam a se comportar de maneira diferente.

Havia uma bicicleta elétrica em cima do palco, levada pelo holandês Daggers. Para “representar os pedestres”, Tolley tirou os seus sapatos e os jogou ao lado.

Semi-fracassados

Na segunda tarde do evento, uma palestra sobre a ótima experiência de Stuttgart com a Copa do Mundo de 2006 foi excelente, mas não deixou de ficar deslocada em um fórum sobre mobilidade urbana e em uma cidade que não sediará a copa. O assunto mobilidade fez parte da fala, mas em doses muito pequenas.

Em seguida, a questão era a mobilidade nas cidades catarinenses. A professora da Udesc Giselle Xavier foi um pouco menos técnica e mais ideológica que os gringos. Para informações como a de que Joinville já acumula 90 km de ciclovias sobraram resmungos anacrônicos como o da “lavagem cerebral das propagandas de carro” – além de justas reclamações sobre o desinteresse dos governos na mobilidade urbana.

Giselle está envolvidas em iniciativas como Bici SC. Aproveite e visite também o site de Cicloturismo.

Enfim, não se lembrou que nos carros escolhemos a temperatura, a música. Ficamos mais à vontade e ainda podemos, na maioria dos casos, chegar mais rápido, além de não termos problemas com baldeações. É preciso partir desse ponto de vista, e não retroceder ao “contra tudo isso”, que só segrega mais os grupos.
Como explicou o alemão Niklas Sieber na terça-feira, para mudar nosso costume de usar sempre o carro há “puxadas e empurrões”, ou seja, punir (como ao taxar circulação de automóveis no centro) e mostrar benefícios (como ao oferecer um transporte público organizado etc.).

É preciso também, tarefa extra no Brasil, tirar essa ideia de que o transporte público é coisa de estudantes e semi-fracassados – o que a professora da Udesc mencionou, repleta de razão. Inúmeros europeus não têm esse preconceito besta e andam de terno sobre suas bicicletas.

Na quarta à noite, depois da palestra, a Naipe pisou em uma faixa de pedestre e uma mulher, com seu carro parado em cima da faixa, acelerou em protesto, ameaçando atropelar.

E assim vamos.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



5 Responses to IMOBILIDADE PROVINCIANA

  1. Deisi Alves says:

    Moro aqui há mais de 30 anos e com raras situações de exeção, sempre foram os donos das empresas de transportes coletivo que decidiram o número de linhas, trajetos, horários e preços das passagens.
    Só melhorando a qualidade deste serviço se podería começar a pensar em campanhas para a redução do uso do automóvel na cidade. Enquanto formos reféns da falta vontade política para solucionar esta questão e da ganância dos empresários seguimos aceleradamente a caminho do “colapso viário”.

  2. Deisi Gomes says:

    Não precisamos ir tão longe, em uma rápida visita a Porto Alegre, já poderíamos constatar que a mais óbvias das soluções adotadas por lá no inicio da primeira gestão do PT na prefeitura da cidade há 22 anos atrás, resolveriam os problemas do transporte coletivo em Florianópolis:
    -Criação de corredores exclusivos para ônibus ,revisão das concessões às empresas de transporte coletivo, e a retomada do poder público(leia-se prefeitura de Florianópolis) das tomadas de decisões referente ao transporte urbano.
    Enquanto isso seguimos aceleradamente em direção ao colapso viário!

  3. Bruno says:

    A pé não é realmente o caso, o especialista fala em distâncias menores, como poucos quilômetros dentro do próprio centro. Para não ficar suado, quem pedala leva roupas na mochila e precisa, claro, contar com bons banheiros no trabalho. Outra solução são as bicicletas elétricas, que dispensam pedalar. Na Holanda vão ser oferecidas para alugar. Aqui só comprando, mesmo.

  4. José says:

    E como chegar ao trabalho a pé ou de bicicleta num dia de mais de 35 graus, em condição apresentável, após percorrer 10 a 15Km, sem estar fedendo ou completamente molhado de suor?

  5. gilvas says:

    vim de bicicleta para o trampo hoje. num percurso de quase quinze minutos, diversas obstruções e poucas bicicletas, menos de dez, num trecho que compreende escolas e empresas e muitos prédios, o itacorubi. em suma, um povo que não se interessa por mobilidade saudável, políticos tais e quais.

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