Na rua 1908_Naipe7_diário_de_um_funcionário_V1

Publicado em outubro 10th, 2011 | por Revista Naipe

MOUSE DESGOVERNADO

04/07/11

Cheguei por volta das 7h15, é meu primeiro dia depois das férias. Um colega estava sentado no lugar habitual; as divisórias da sala tinham sido ajustadas e ela ficou menor; há datas no mural indicando aniversários; meu monitor foi trocado, mas o computador continuava lento, o mouse desgovernado, o teclado empoeirado.

A mesa que antes ninguém ocupava continua vazia, mas agora tem um computador – que não funciona – em cima dela, como que para enfeitar. Tentei ficar por dentro das novidades e percebi que nada mudou. No pequeno quadro de avisos havia uma data qualquer, equivocada. Descobri isso conferindo na internet. Ah, fiz uma nota bacana e depois descobri que o ‘pessoal do gabinete’ não tem um bom relacionamento com o órgão do qual eu falava: trabalho desperdiçado. Hoje não vi nem falei com a minha chefe.

06/07/11

Desde ontem, três assuntos estampam um quadro e pautas inaugurado durante as minhas férias. Escolhi um deles e fiz alguns contatos. Liguei para mais de seis números até conseguir marcar uma reunião, só para a próxima semana. Atendemos uma solicitação hoje que deve empacar, simplesmente porque não há resposta, como em muitos casos. Perguntei para um colega o que poderia ser feito. “Escreve no papelzinho e empurra pro gabinetinho”, ele me disse.

07/07/11

Me dei ao luxo de ficar mais dez minutos debaixo das cobertas. Cheguei atrasada, mas é costume por aqui não cumprir horários. Pelo contrário, são exceções. Fiquei por duas horas lendo jornal e vendo TV, não porque não tinha nada pra fazer, mas porque a moleza reina. O ritmo deveria ser parecido com o de uma redação de jornal, mas não chega nem perto disso. Não acho justo que apenas uma pessoa de seis faça o trabalho pelo grupo todo. Prefiro não interferir com a minha opinião, comentários maldosos sobre meus colegas e até sobre a minha chefe. E fico imaginando o que falam de mim depois que eu vou embora.

18/07/11

Mesmo tendo chegado de viagem de madrugada, com uma crise de rinite que me deixa muitas vezes sem respirar, cumpri minha obrigação com o trabalho. Levantei mais tarde, chovia, peguei um ônibus lotado com as janelas fechadas, o trânsito congestionado, mas cheguei a tempo de cumprir um compromisso. Só que levei um bolo do setor de transportes porque, mesmo tendo enviado solicitação com antecedência, não tinha carro pra me levar!

20/07/11

Não posso trabalhar. Primeiro porque mais uma vez não tem carro pra me deslocar até o local onde eu faria uma entrevista, segundo porque o telefone ficou mudo

Parece mentira. Após ter ficado fora um dia sem ninguém ter notado minha ausência, chego e não posso trabalhar. Primeiro porque mais uma vez não tem carro pra me deslocar até o local onde eu faria uma entrevista, segundo porque o telefone ficou mudo. A matéria, que comecei há mais de uma semana, vai continuar esperando por um desfecho.

21/07/11

Ocorre aqui uma disputa a fim de saber quem manda mais. Recém-chegados cheios de razão versus servidores antigos que não querem dar o braço a torcer, muito menos tomar a iniciativa para reverter a situação. Não se pode falar mais claramente do assunto, porque tudo se passa de um jeito obscuro. Há um tempo eu fazia questão de esbravejar, hoje não emito opiniões.

22/07/11 

Quando é de interesse pessoal, as coisas andam rápido, e como! Ontem preparei um documento para fazer um curso de capacitação custeado pela secretaria em Brasília, que precisaria ser assinado pela minha chefe. Ela não só assinou como pediu pra incluir o nome dela pra fazer o curso comigo. Se faltasse interesse, o papel rolaria na mesa dela pelo menos uma semana, tenho certeza – como aconteceu com a solicitação de alguns colegas para fazer hora extra e receber gratificações. É meio-dia, todos assistem ao jornal antes de ir pra casa.

Final de julho

“Caminhando e cantando e seguindo a canção / somos todos iguais, braços dados ou não”. A música de Vandré certamente não foi escrita com o mesmo propósito para o qual uso agora. Mas se aproxima muito da tradução que eu gostaria de dar ao serviço que presto, ou tento prestar. No serviço público apenas seguimos a canção, que já está musicada, letrada e arranjada desde quando começamos.

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Por Anônima

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