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Publicado em julho 19th, 2013 | por Stefano Maccarini

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NÃO-RACIONALIDADE

Criação. É assim que Julian Alexander Brzozowski define o que faz. “Guio o cotidiano e a vida baseado na criação, uma base de criação, essa é a principal pauta de todo dia.”

Aos 21 anos, Julian é compositor, guitarrista, flautista, vocalista, xaphoonista, entre outras coisas, da banda florianopolitana Adam e Juliette. Como compositor, também idealizou o projeto da Orquestra Eletroacústica da UFSC e escreveu quatro peças orquestrais para o grupo. Além disso, é formado em Cinema e mestrando em Literatura pela UFSC e há três anos trabalha também com o projeto de ilustração “Autorretratos: Senhor e Cria”.

Formada em abril de 2010, a banda Adam e Juliette enquadra-se somente em uma categoria: música livre. Isso porque nenhuma sugestão estética, vinda de qualquer um dos integrantes, encontra obstáculos. A banda, que hoje tem quatro integrantes, começou como trio. O primeiro EP, “The Neverlasting Tale of Charles Brief and The Megalomaniac”, teve produção caseira e foi lançado no final de 2010. O segundo álbum, “Tutatis / Belenos”, foi produzido ao longo de 2012 no estúdio Pimenta do Reino e deve ser lançado em agosto deste ano.

  • Veja aqui vídeo feito com Julian especialmente para a Naipe, e leia abaixo entrevista


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Você, Julian, é representado por quais criações e projetos específicos?

Toda criação artística é algum tipo de linguagem, e a música é uma das várias tentativas de exprimir uma complexidade absurda que passa na sua cabeça. Eu acho que a música é a conversa que sai mais fácil. A Adam e Juliette seria essa conversa com esses quatro caras. E eu diria que é um projeto principal no sentido de que são as pessoas com quem esse diálogo acontece mais fácil, com um conforto muito grande.

No Adam e Juliette existem quatro músicos e mesmo assim não ocorre um possível bloqueio entre vocês?

Não, muito pelo contrário, a gente vai fagocitando… dá pra começar dizendo que a Adam e Juliette  é um meio de compartilhar anseios musicais parecidos, uma vontade de uma complexidade musical, uma insatisfação enorme com as coisas que a gente tinha à disposição. E conforme a gente vai encontrando gente com preocupações parecidas, elas vão sendo sugadas. Teve um tempo que o Danilo estava ausente e a gente tocou em três. Agora o Danilo retornou oficialmente pro quarteto, mas hoje a gente se apresenta em seis. Tem outro rapaz que faz só backing vocal em loop e que tem absolutamente tudo a ver com a gente, e outro que é quase um performer no palco, que está presente em todas as conversas que a gente tem e é mais um lado desse universo.

NAIPE: Como a aleatoriedade está inserida no contexto da banda?

J: Eu acho que a aleatoriedade é um pouco desse se permitir, dessa parte de que muitas coisas não fazem sentido. Então numa dessas você pode orquestrar as coisas de uma forma. Não que eu ache que nossa musica seja só isso, seja só aleatoriedades e caos. Muito pelo contrário, tudo que a gente ensaia tem bastante ordem, mas é uma ordem que mimetiza esse caos. Caos não, essa não-racionalidade.

Como a sua multidisciplinaridade influencia no processo criativo e na geração de ideias?

Acho que tudo é uma coisa única. Tudo sou eu, no sentido de que tudo é uma pessoa lidando com o mundo. A primeira coisa que desenvolvi desde pequeno foi o desenho. Acho que a imagem rege bastante o intuito artístico. Não vou ficar falando por todos da banda, mas sei que a gente se satisfaz com alguma coisa musical no momento em que ela evoca uma imagem muito forte. As vezes a imagem não faz muito sentido. A última faixa do CD tem uma parte que desde o momento que fiz o acorde me faz pensar na imagem de um menininho negro jogando basquete em uma quadra destruída. Aquilo não contribui pra música, mas evoca uma coisa sólida. Em uma última instância, podemos dizer que o imagético seria o primeiro. E eu sempre me interessei por monstros, não sei por quê. Agora comecei com as modelagens, faz pouco tempo, mas foi quase que um vômito.

De onde vem esse vômito artístico?

Não sou muito partidário de uma visão hiper-romântica, não acho a inspiração vem dos céus. Você tá sempre processando, tem toda essa carga estético-política, então o momento de criação seria o ponto em que você confia em si mesmo. Acho que, pra resumir, esse vômito de criação vem assim: você vê tanta imagem, tanta coisa, que o único jeito é, no meio das trevas, tentar botar ordem. É uma medida meio de desespero, de você querer organizar alguma coisa.

A criação artística é um processo gostoso ou difícil?

Eu não partilho da ideia do artista amargurado. Pra mim, não tem nada de ruim. Eu acho que é muito bom. De longe, é a melhor razão de viver.

Não tem ansiedade, inquietação?

Acho que tem nos outros momentos. Quando você está absorvendo tudo aquilo, tem ansiedade. Agora na criação, não. Quando você está criando, com a caneta na mão ali, eu acho que é um prazer inigualável, uma coisa que não tem porque ficar achando falhas, problemáticas, quando na verdade não tem.

Qual a razão pra você pegar a caneta e criar uma música, um monstro, um quadro?

É o ponto alto do dia. É um momento que não é de mais ninguém, absolutamente mais ninguém. Nenhuma outra pessoa poderia, por exemplo, estar assistindo e prever o que vai acontecer. Desenhar tem muito de dançar. Coloca uma música pra tocar e vai desenhando, tem um gingado ali. E tocar nem se fala, tocar é uma dança. Mas você está fazendo música ao mesmo tempo que dança. É muito gostoso, tudo que vem depois são aplicações. Até fazer shows, por exemplo. Eu gosto realmente de fazer as músicas, mas o show é algo que temos que lidar depois pra achar alguma coisa. O grande prazer está em chegar e fazer e não pensar muito em outra coisa. Pra mim, tudo tem bastante relação com a dinâmica e esse negócio de ordenar as coisas. Você está no domínio da dinâmica das coisas.

Executar o que você criou, com a banda e tudo mais, é um segundo momento no qual o artista como criador está meio anulado? Para você, momentos de interação entre público e artista não significam nada?

Significa, claro. O que digo é totalmente em sentido mercadológico. De você procurar aplicações que sejam aceitáveis no mercado. Esse que acho que é o segundo momento. A arte não é um monólogo, é sempre uma troca. Por isso também a crítica é fundamental. Eu quis dizer nesse sentido de você estar na posição de leitor da sua própria obra, esse é o segundo momento. Você tem o eu criador e daí tem o segundo momento, em que você lê sua obra. O confronto é muito importante.

Como vocês processam as críticas?

Acho que crítica não é só falar mal, ler e comentar. Eu gosto muito de ter que lidar com pessoas que se sentiram tocadas de algum jeito. Do jeito que for. Se ela foi tocada, alguma coisa deu certo. Pior de tudo é a apatia, a falta da crítica, é você não ter nada pra comentar. Isso é o que machuca. Agora, “odiei muito” significa que você conseguiu tocar uma coisa muito íntima dela. Isso também é muito bom. As críticas que eu gosto de receber são aquelas que partem do “estou confuso, não entendi, queria conversar”.

Existe um dever seu como artista de confundir?

Eu acho que confundir resume bem. Esse negócio de tirar do chão é um jeito de você tirar da apatia também. Você é obrigado a pensar alguma coisa.

Como você percebe a cena musical catarinense nesse contexto?

Eu acho que, de uma forma geral, a coisa que mais se nota é medo, estruturas muito certas. Disciplina acho que é a palavra que resume tudo. É previsível, óbvia, e falando especificamente de Florianópolis, o que eu vejo é rock. Vejo rock que há muito tempo já perdeu aquela carga de contestação, pra focar numa coisa extremamente disciplinada, regrada, e com fetiches muito certos. Fetiche da imagem do rockstar… pra essas coisas, as pessoas estão muito dispostas a trabalhar e procurar os termos onde você pode agir dentro disso. Quando você começa a quebrar isso e ir um pouquinho pra fora, parece que não funciona.

Mas esses ambientes que você cria na sua cabeça, podem, na de outra pessoa, ser totalmente novos, não?

Com certeza. Eu vou no show da banda tal e digo “já ouvi isso tudo antes, acho previsível, chato”. Uma pessoa do meu lado diz “nunca ouvi isso antes, achei extremamente novo e estou emocionado”. Quem sou eu pra contestar o que ele tá sentindo? Agora, existem pessoas tão insatisfeitas quanto eu, isso eu sei. Mas, de uma forma geral, as pessoas querem experiência. É indiscutível. As pessoas vão numa montanha-russa porque querem sentir coisas que não sentem normalmente. Falando em termos mercadológicos, apostar no novo também é uma forma mercadológica interessante. De toda essa confusão, talvez seja o jeito que tenha mais chance de dar certo. O jeito de você ganhar algum reconhecimento. No sentido de que você tá oferecendo um produto que os outros não oferecem. Que a concorrência não tem. Eu acho que é isso.

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Sobre o Autor

Fotógrafo wanabe, estudante de engenharia, baterista sem ritmo, acha que morar fora do Brasil é bom mas é uma merda, e morar no brasil é uma merda mas é bom.



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