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Publicado em junho 16th, 2010 | por Thiago Momm

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O ANJO DA NOITE

Tem quem suba de vida quando põe a gravata. André subiu depois que tirou a sua.

Em Florianópolis, há mais de uma década é bom saber quem é André. Há mais de uma década é fácil saber quem é André. Ficou ainda mais fácil agora que ele tirou a gravata.

Ao longo de quase toda sua vida de night, André foi o segurança que separou o joio do trigo – colocando o trigo na fila dos VIPs e deixando o joio a resmungar sua falta de privilégios. Assim foi nas mais de 2 mil noites em que cuidou da portaria do El Divino, antes Café Cancun. E assim é hoje diante das famosas cerejas iluminadas da Pacha, portaria a cargo, muitas vezes, da empresa de recepção que André abriu em 2009. Lá está ele de camiseta, tênis bacana e calça jeans, o único com a moral de se vestir assim entre toda a equipe de seguranças.

Também é informal assim, claro, que André fala com a Naipe. São 16h e estamos na frente do próprio El Divino – fechado e sob faxina, de cadeiras viradas. Na tarde abafada, de céu chumbo na ilha, um aguaceiro despenca. André chega com o sócio Márcio. Debaixo do guarda-sol de uma casa de lanches naturais, pede um suco de açaí com morango. André tem hoje um corpanzil de 128kg, contra 99 mantidos por muitos anos. Bastante, para alguém de 1,76 m. Dá respeito às portarias que ele capitaneia. Mas também o deixou trancado na catraca madrugada dessas. Ia conter um cliente desordeiro que queria brigar. Indo atrás do folgado, entalou. Ficou irritado, fez força. Coisa de desenho animado. Pouco depois conseguiu sair. “O cimento ao lado da catraca ficou rachado”, conta Márcio.

Mas perder a paciência é exceção. André já foi chamado de anjo da guarda da noite. Embora o porte de Obelix sugira o contrário, seu trabalho é basicamente intelectual. Mais à base de carisma que carranca, de bom papo que sopapos. Uma vez identificadas as “laranjas podres”, os clientes predispostos a pancadarias, André conversa macio para evitar problemas. Não dando resultado, a tarefa de conter brigas na pista cabe mais aos engravatados. A área de André é principalmente a portaria. Tanto quanto segurança, ele é host. Está ali pra receber. Pra sorrir, dar boas-vindas, boa festa, boa noite. Pra pedir pro amigo cliente dar uma forcinha, não fazer rolo, a gente tá aqui ganhando pouco pra ficar a noite inteira em pé.

“O mala é o que tem que tratar melhor”, ensina André. Além dos briguentos, também existem malas reclamando da fila. No El Divino, eles silenciavam passando à fila menor, ou entrando de vez. Mas não só eles. Também pegavam atalho os sócios. Os amigos dos sócios. Os conhecidos desses amigos, eventualmente. E as mulheres, quase sempre, sócias ou não, amigas de alguém ou nem: André as contabilizava com um aparelho e comparava o número com a contagem geral, feita em outro aparelho por outro funcionário. A partir disso seguia uma missão – manter a casa florida. Certa vez, misto de mérito dele e doce sopro do acaso, o El Divino teve uma madrugada com mais de 500 mulheres e menos de 100 homens.

Marolas

“Segurança tem que ser paciente, malandro, observador, aberto ao diálogo. E saber engolir sapos”, lista Nelson Monteiro, 36 anos, natural de Cabo Verde, 4 línguas e 12 anos como segurança de baladas no currículo. “É muito tenso trabalhar na noite. Muita responsabilidade e exposição – e economicamente não é tão compensador”, acrescenta.

Um segurança da night ganha de R$ 50 a R$ 80 por noite. Descansando uma vez por semana, ao final do mês chega a algo entre R$ 1300 e R$ 2080. Muitos trabalham nisso como segundo emprego, uma maneira de engordar a renda, e não como serviço único. Para entrar na profissão, é obrigatório um curso de vigilante: em 16 dias aprende-se sobre imobilização, defesa pessoal, armas de fogo, primeiros socorros, incêndio.

O exposto André, 40 anos, aos 35 não queria mais saber da madrugada. Largou o El Divino, quando a fila privilegiada já superava a dos comuns.

“Com certeza ele parou por causa da pressão. Falamos várias vezes sobre isso”, conta Jurandir Soares, gerente geral de operações do El Divino, da Pacha e da Posh. “Todo mundo quer ser VIP ou é amigo do amigo do cara, sabe? A rotina cansa a mente. Eu jamais conseguiria trabalhar em uma função como a do André”, reflete.

André, mané da ilha, mora em Governador Celso Ramos, a 40 km do centro da capital. Foi lá que se refugiou, entre as praias com faixas de areia curta e marolas sempre audíveis. “Não sou da night, trabalho na night”, avalia, sobre a pausa de cinco anos da vida noturna. Ele estava cansado. Sua extensa lista de conhecidos o tornava requisitado para festas particulares, e lá se ia a folga semanal. Nos 20 anos como segurança, foram pelo menos 4 mil madrugadas de trabalho.

Na pausa, André também foi segurança – mas de um colégio infantil. Virou o tio André. “Ele era bem legal”, diz Yago de Carvalho Steiner, 9 anos, um quarto do tamanho do tio. “Sempre falava com a gente quando a gente chegava e quando a gente ia embora”.

Em 2009, o hodômetro das madrugadas voltou a girar. Abriu a Reis & Thiesen Serviços Especializados com um sócio. Foi a volta para a night, mas com equipe própria. Ao recrutar, prefere seguranças com mais traquejo de relacionamento que habilidades de porrada. “A recepção é a alma de uma casa noturna”, filosofa.

“O melhor segurança é o que nunca precisa imobilizar alguém”, diz o cabo-verdiano Nelson. “É claro que ninguém vai pro trabalho apanhar. Não havendo saída, tem que cair dentro. Mas existem seguranças que não gostam de noites tranquilas”.

Azeitona

Nos áureos tempos do Café Cancun/El Divino, Deus não observava André. Depois, André passou a frequentar a Igreja do Evangelho Quadrangular. “Agora Deus está olhando”, refletiu. E não só Ele. André começou a namorar uma frequentadora da igreja e casou.

Antes solteiro, André aproveitava. Reincidindo no pecado da carne. Caseiro, ele não bebe, não fuma e quase não sai – além de raramente folgar, também não gosta de música em geral, não se importando com o som da noite. Outro dia, achou agradável escutar um pouco de jazz.

Mas os pecados da carne eram inevitáveis. Saindo do trabalho às 6h André já viu de tudo, inclusive três meninas se pegando dentro de um carro na Avenida Beira-Mar. O El Divino é conhecido pelo naipe das mulheres que o frequentam. Dez segundos contemplando os murais com as habitués da casa quase fazem lacrimejar os marmanjos mais brutos. E essas delícias choviam onde, senão no quintal do tio André?

Corpo rotundo e cabeça pelada, André sabe não ser nenhum galã (não se incomodou o dia em que o apelidaram, espirituosamente, de Azeitona). Tem muita menina, afirma, que faz de tudo para obter regalias na night. Malandro, ele também tirou o seu proveito. Empolgado, não acreditou quão farta andava a coisa toda. “Até me olhei no espelho pra ver se aquele negão se dando tão bem era eu mesmo”, sorri.


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



5 Responses to O ANJO DA NOITE

  1. luana says:

    Ele é fantástico como profissional e um BAITA ser humano, adoro vc e que deus esteja sempre a sua frente, para que tomes todas as decisões conforme a sua vontade e que DEUS te abençoe porque vc é merecedor.

  2. jonny says:

    Grande materia…Gostei de ler e me senti com 10 anos a menos… batendo papo com andrezinho na catraca do café e vendo o amigo selecionar a mulherada que entrava . grande abraço amigo… força sempre…

  3. miranda says:

    Tive a oportunidade de trabalhar com ele, como profissional altamente qualificado e como ser humano um verdadeiro gentlemann….! sem comentários…

  4. Flavio Kauling says:

    André é um excelente profissional e uma pessoa especial. Fui por 5 anos seu colega de academia, bem na época em que, ainda solteiro, frequentava a noite.
    Seu exemplo de carisma e profissionalismo mostra como, com talento, treinamento adequado e perseverança, é possível vencer em qualquer profissão, e fazer a diferença. Entre tantos que se tornaram “brucutus”, André é lembrado pela paciência e doçura no trato. Parabéns pelo perfil, André, e não esmoreça. Continue levando seu negócio em frente, busque transmitir seu método em cursos e treinamento de seus funcionários e se atualize sempre. Florianópolis carece de profissionais com sua qualidade.

  5. João Silva says:

    A criatividade de Gay Talese mandou lembranças. Copiar ideias é fácil.

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