Na rua couchdentro

Publicado em agosto 4th, 2011 | por Jerônimo Rubim

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O BICHO-GRILISMO CONTRA-ATACA

Argentinos, poloneses, austríacos, gaúchos, cariocas e manezinhos falam sobre Floripa, América do Sul, o mundo, azeitados por doses da vodca Popokelvis. Mas o astro da noite é um sofá laranja-cansado meio rasgado.

Muito já se escreveu sobre o Couchsurfing, site de hospitalidade que ajuda viajantes a arranjar guarida ao redor do planeta. Mas pouco se lê a respeito do real e ambicioso plano desses surfistas pós-modernos: “Participe da criação de um mundo melhor, um sofá por vez”, estampa a home do couchsurfing.com.

Em um dos muitos encontros dos Couchsurfers de Florianópolis, Raony Osório, 24 anos e muitas horas dormidas em sofás alheios, alerta os que só pensam em economia: “A pessoa que só quer viajar de graça é o pior tipo, evito receber”. Todos concordam. Então o objetivo do Couch não é proporcionar viagens mais baratas? “É muito mais que isso: é um intercâmbio, uma troca”. Todos concordam efusivamente.

As pessoas reunidas viajam sempre que podem, sempre têm lugar para ficar e amigos espalhados pelo mundo. “Couchsurfing é ver com olhos locais”, alguém fala

Mais de 17 mil pessoas se inscrevem por semana no site, já com quase três milhões de surfistas. Em sete anos de existência, os seus encontros formaram uma comunidade mundial que elegeu o sofá como símbolo de um novo mundo. As pessoas reunidas no Campeche viajam sempre que podem, sempre têm lugar para ficar e amigos espalhados pelo mundo. “Couchsurfing é ver com olhos locais”, alguém fala.

Claro, há relatos de tentativas de abusos e recepções não muito legais. Mas são poucos, e tudo isso passa a constar no perfil dos usuários, construído a partir de referências acessíveis a todos.

No fim das contas, cada um recebe quem quiser, quando quiser, nas condições que quiser. As histórias comprovam o alcance inesperado da ideia: Raony já hospedou uma delegada aposentada da Polícia Federal no seu sofá, certamente alguém com salário de cinco dígitos; em uma viagem a Salvador, ele se surpreendeu ao ser recebido por um motorista no aeroporto e levado para uma mansão nos subúrbios; no site, há dezenas de depoimentos de pessoas estupefatas com “a riqueza, generosidade e interação genuína” proporcionadas.

“Se vicia? Eu não diria que é viciante… se bem que tenho sete pessoas em casa agora”, sorri Renata Kroeff, que já abrigou nove convidados de uma só vez na pequena casa do Campeche – e hoje recebe 18 no encontro.

Ela hospeda o simpaticíssimo casal argentino Alexander Novoa e Giannina Bazzi, que já passeou por vários países da América do Sul através do site. Os dois produzem e vendem artesanato para pagar as viagens, no melhor estilo hippie-sem-destino. “Couch surfing és dar”, simplifica Giannina. Renata não estava em casa quando eles chegaram. “A janela da cozinha está aberta, entrem por lá”, escancarou a anfitriã numa ligação. Eles nunca haviam trocado mais do que algumas mensagens pelo site. O casal preferiu esperar pacientemente por quatro horas. Os anos 60 contra-atacam virtualmente.

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Sobre o Autor

Ex-editor da Naipe, morou cinco anos pelo mundo. É jornalista por DNA e, em breve, por formação.



One Response to O BICHO-GRILISMO CONTRA-ATACA

  1. Erich Nunes says:

    Otima Materia!!!
    Como o Rao falou, eu tambem analiso muito o perfil da pessoa que me pede “couch”, interesses de balada, culturais, modo de vida, a interesse na cidade escolhida, enfim, a personalidade tambem entra muito nesse quesito. Aceito as pessoas que querem mesmo trocar experiencias, tanto pra me ensinar algo como eu tambem retribuir ensinando tambem, participo e recomendo.

    Abraço Rao, Aguardo um request de couch heheh.
    Erich Nunes

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