Na rua The Hostel

Publicado em abril 2nd, 2014 | por Luisa Nucada

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O CORTIÇO

A esquálida e descabelada funcionária do pensionato me conduz até o dormitório.

Pareço um cabideiro ambulante: um mochilão de 50 litros nas costas, uma mochila na frente, uma mala média de rodinhas, uma mala de mão, uma sacola e um casaco debaixo do braço. A estada na capital São Paulo será de três semanas apenas, mas como estou em trânsito, levo toda minha mudança. É quase meio-dia. Nos três beliches dispostos no quarto jazem moças dormindo seminuas. Com seu dedo cadavérico, a funcionária me aponta o único leito livre. Não tem travesseiro nem roupa de cama, informa. Observo-a, conjeturando se ela seria usuária de crack.

Com os ombros caídos, esquadrinho o aposento. No chão, um emaranhado de fios e extensões: carregadores de celular, fontes de notebook, uma chapinha com a boca de jacaré aberta, um secador de cabelo atirado num canto. Sento na cama e me deparo com uma unha postiça sobre o colchão. Completamente exausta, da viagem de 12 horas de ônibus e do abrasador calor paulistano, largo as malas e me deito, encolhida, em posição fetal. Sinto os olhos marejarem e bate aquela arrebatadora precisão de colo materno. A famosa “hora em que o nego chora e a mãe tá longe”.

Minhas companheiras de quarto começam a despertar. Em quinze minutos ouço relatos de assaltos no centro de São Paulo, depoimentos de dramas familiares e pindaíbas financeiras; brigas internas, fofocas e intrigas da convivência. Uma delas conta que “Fulana sempre perde suas calcinhas e acusa a gente de ter roubado”. Preconceituosa, desconfio que, pela estampa, linguajar e temperamento, minhas distintas roomies sejam profissionais do sexo. Não que putas me repilam; apenas não condizem com o “ambiente familiar” anunciado no site do pensionato.

Por sorte, meus colegas de estudo chegam e me resgatam do quarto das moças de família. Formamos um time de onze, todos de fora, a fazer um curso de 20 dias na selva de pedra. Somos instalados numa antiga garagem recém-reformada, transformada em quarto. Tudo novinho, beliches e colchões, o que causa ciúme nos outros moradores. Mas o lugar é um galpão carente de janelas, mal arejado. Os ventiladores de parede se esforçam pra dar conta do recado, mas produzem mais ruído do que vento.

Alguém define que ali “só tem puta e veado”, mas a verdade é que a fauna humana é das mais ricas e diversificadas. Renderia um documentário à la Edifício Master pra Coutinho nenhum botar defeito

O pensionato, cravado num tradicional bairro italiano, é formado por dois casarões meio em reforma, meio caindo aos pedaços. A parte interna é um labirinto de corredores estreitos e balouçantes escadas metálicas em caracol, que levam a outro piso, e a outro, e a outro. Em cima de tudo tem o terraço, costurado pelos varais onde se estendem as roupas dos 120 moradores. Na cozinha, moças fritando hambúrgueres e cartazes grudados na parede, avisando pra guardar comida na geladeira somente na devida “tapouer”. Meia dúzia de máquinas de lavar sambam sobre o chão molhado da lavanderia improvisada, rapazes jogam videogame numa sala, há rodinhas de violão no pátio e noveleiros assistindo o Félix pela TV. Um brutamontes que é a cara do Vin Diesel faz a segurança noturna. É ele quem dá o toque de silêncio das 22 horas e fiscaliza se não há moças entrando no quarto de rapazes, e vice-versa. Bebida alcoólica também não pode, que o Vin Diesel tá de olho.

Numa rápida excursão à cozinha pra esquentar a água do cup noodles cruzo com um estudante francês, um ucraniano curtindo férias em São Paulo e um nigeriano que veio em busca de trabalho. Alguém define que ali “só tem puta e veado”, mas a verdade é que a fauna humana é das mais ricas e diversificadas. Renderia um documentário à la Edifício Master pra Coutinho nenhum botar defeito. O aluguel barato – cerca de 400 dilmas para dividir o quarto com mais cinco pessoas – atrai desde adolescentes que brigaram com os pais até profissionais liberais começando a erguer a vida.

Ali, eu e meus dez coleguinhas vivemos nosso Big Brother particular, no maior clima de colônia de férias. Trocamos de roupa em cafofos improvisados, brincamos de mímica tarde da noite, estudamos, organizamos seminários, dividimos miojos, disputamos os únicos dois espelhos, usados por todos para maquiar, fazer a barba, botar lente de contato… Na segunda semana, um colega conseguiu a proeza de quebrar a pia do banheiro. Quase todas as noites, alguém resolvia assistir seriado até tarde e atrapalhava o sono da geral. Sempre tinha alguma louça suja pela qual ninguém se responsabilizava. Não nos conhecíamos antes de chegar ao pensionato. O regime de intimidade forçada por vezes irritava, mas, acima de tudo, aquecia o coração. Foram vinte dias de perrengue e desconforto, mas também vinte dias de amizade.

E a esquálida e descabelada funcionária do lugar, sempre vestida com legging estampada e blusa colorida de alcinha, no final das contas mostrou ser massa pra caralho – solícita, carinhosa e ótima companheira de mesa de bar. Não, não fumava crack.

[Ilustração: Wasfi Akab]

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Sobre o Autor

Goiana, cruza de japonesa com baiano, estudante de jornalismo. Alimenta-se de histórias e escoa aqui e em www.anucadadisse.blogspot.com sua tagarelice mental.



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