Na rua Naipe7_lixo (14)

Publicado em janeiro 30th, 2012 | por Rosielle Machado

O LIXO FALA. E NUNCA MENTE

[Fotos: Gabriel Vanini]

Como se faz num caso desses, o funcionário da Comcap coçou a cabeça. Ali estava uma dupla de traficantes exigindo urgentes informações sobre a última remessa de lixo que havia passado pelo CTReS (Centro de Transferência de Resíduos Sólidos), no Itacorubi.

Sem querer, os geniozinhos haviam jogado quilos de maconha fora, e na esperança de localizá-los imploravam por informações. Uma mãozinha aí, guerrêro, negócio tá difícil. Mas não teve jeito. A droga, àquela hora, já devia estar no aterro sanitário de Biguaçu.

A sede do CTReS é um dos lugares que mais têm histórias sobre Florianópolis. Lá, o material reciclável passa por triagem e o lixo comum é transferido para caminhões maiores, que fazem o transporte até o aterro. É por aqueles galpões que, todos os dias, passam cachorros-quentes mordidos, bergamotas podres, fotos rasgadas, alfaces moribundos, saquinhos de Ki-Suco e caixas de TV 50 polegadas. Tudo misturado, pingando caldo de chorume enquanto os caminhões descarregam na carreta toda a inhaca que a ilha descartou.

O lixo fala. Conta causos, passa informações, esclarece dúvidas. Nunca mente. Por isso se diz que a melhor forma de conhecer uma pessoa é analisando o que ela joga fora.

Nos Estados Unidos, nos anos 1970, surgiu até um termo para isso: garbology. Inspirada nisso, a Naipe foi parar em uma plataforma de metal cinco metros acima do lixo, ouvindo histórias dos funcionários da Comcap e se perguntando: caso cavucasse nos resíduos ilhéus, o que um arqueólogo diria?

Só de dar uma olhada no material, diria que a ilha descarta muito mais garrafas pet do que papéis – os manezinhos parecem mais interessados em beber Coca-Cola do que em ler jornais. Observaria que Floripa não é tão saudável quanto prega a mitologia: não há um caminhão de lixo sem caixas de pizza despencando. Também apontaria que a cidade ainda recicla muito pouco. Boa parte do que vai fora com os resíduos orgânicos poderia ser reaproveitada, mas acaba indo direto para o aterro por não estar separada.~

Sacolinha branca

No galpão do CTReS há caminhões desovando lixo de cinco em cinco minutos. Dois chegam ao mesmo tempo. O primeiro, que transborda duas caixas de cortes suínos nobres Aurora, uma caixa de televisão 42 polegadas e uma cadeira de praia, veio de Canasvieiras; o segundo, abastecido de sacolinhas do supermercado Xandi e nenhuma caixa de papelão, acabou de passar pelo morro da Mariquinha. O lixo também aponta diferenças.

Os melhores lixos para reciclagem são os dos bairros Santa Mônica e Jurerê, que têm mais embalagens de plástico e já vêm bem separados: “Também, lá eles têm espaço pra ter quatro ou cinco lixeiras.”

“A gente nota se a pessoa é rica só pela embalagem e o tipo do produto”, diz o presidente da associação de recicladores da coleta seletiva do CTReS, Nelson Jantara. Para ele, os melhores lixos para reciclagem são os dos bairros Santa Mônica e Jurerê, que têm mais embalagens de plástico e já vêm bem separados: “Também, lá eles têm espaço pra ter quatro ou cinco lixeiras.”

Nelson não imagina, mas ele e as outras pessoas que trabalham com o lixo reciclado ou orgânico são o mais próximo que Florianópolis tem de garbologistas. Eles que sabem a marca de margarina preferida dos manés (a julgar pelo número de embalagens, é a Qualy). Percebem, no amontoar do lixo orgânico, o nível de desperdício dos moradores de cada bairro. Sentem, pelo cheiro, a quantidade de suco de laranja que se bebeu naquele dia em cada parte da cidade. Medem até o nível de distração dos cidadãos: de velhinha que perdeu produtos da Avon aos traficantes desatentos, são visitados por todo o tipo de gente.

O diálogo já virou até rotina:

– Mas eu deixei meus R$ 4 mil numa caixa de sapatos e foi fora em uma sacolinha branca! Se você me deixar procurar ali no caminhão eu tenho certeza que acho!

– Ah, minha senhora, se você soubesse a quantidade de sacolinha branca que passa por aqui todo dia.

Tags: , ,


Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



Subir ↑