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Publicado em setembro 21st, 2011 | por Jerônimo Rubim

O QUE DIZEM OS KOXIXOS

[Por Jerônimo Rubim, com fotos de Bruno Ropelato]

A ilha tinha trânsito em geral fluido e menos de 200 mil habitantes quando a jornalista Maristela Amorim parava na barraquinha de lanches do Koxixos para comer um queijo quente, depois de um domingo de praia.

Eram os anos 80. Surfistas e cocotas, corredores de kart, motociclistas e turmas sem bandeiras curtiam rock no rádio dos carros. A maioria era filho de funcionários públicos, não havia uma clara distinção de classes sociais. A vista era perfeita para bitocas noturnas.Na metade dos anos 90, a classe média de 16 a 30 anos da Grande Florianópolis cantava pneu por lá. Jean Carlos da Silva, que prefere ser chamado de “Jean da Box” (por causa da sua loja de motos), ia todos os finais de semana pela bagunça mas principalmente pelas meninas. Ao som alto, muito alto de Ace of Base, Só Pra Contrariar ou um batidão qualquer, ele e os amigos desfilavam seus Pioneers de 400 watts e Kadets ano 93 rebaixados e lustrados com cera Grand Prix. Era o point playboy da cidade para esquentas, rachas, bebedeiras e coisas como cartões de crédito pulando nos subwoofers, uma versão mané de Velozes e Furiosos. Era também o lugar preferido para o malho pós-night.

Gustavo Dainez, que nunca empinou de moto só porque não tinha o dom, lembra de muitas noites com tantos carros em que ninguém conseguia entrar ou sair do estacionamento. Entre 2002 e 2008 foi assíduo devoto da bagunça, uma noite barata para ele e seus amigos do continente. A moda era competir tentando “abafar” o som dos outros carros. Ele chegou a gastar R$ 3 mil em equipamento, mas nunca chegou perto dos R$ 20 mil ou mais que alguns sacrificaram nos seus Corsas. Bebia-se bastante, manobrava-se muito e apenas uns ou outros fumavam maconha, pelo que ele notou. Piriguetes dançavam até o chão ao som de funk.

A Praça República da Grécia*, aquele bolsão de estacionamento da Beira-Mar Norte que abriga o já lendário bar do Koxixos, sempre foi uma referência, um centro de agito, diversão e perdição na cidade. Também sempre flanaram por ali torcedores de futebol, bebedores de Gatorade, gays na Parada da Diversidade, famílias no Réveillon, amigos no happy hour. Jornais estimam que 10 mil pessoas comemoraram a subida do Avaí à série A em 2008 buzinando e enchendo a cara por lá.

Mas hoje o lugar não diz nada a Maristela Amorim. Jean da Box não iria lá nem se tivesse 18 anos de novo. Gustavo Dainez tem certeza de que só há malacos vestindo calça Cyclone, boné de aba reta e querendo problemas. Casqueira, morredouro, queimaceira, perigoso e lugar de favelado são os adjetivos escarrados nas conversas com diversas pessoas sobre o Koxixos. Como um lugar público visitado por milhares de pessoas, encravado numa das áreas mais nobres da cidade e com uma vista privilegiada adquire tamanha feiúra moral.

Mau hálito

“Não tem lugar específico na cidade pra galera que curte colocar som alto e bagunçar, seria mais saudável [ter]. Rola bastante preconceito com quem gosta de som [na ilha]”, reclama Gustavo

O volume do som é um problema desde os anos 90. A emergência da polícia já recebeu 80 reclamações em uma noite por causa da soma de watts esgoelados no estacionamento. Alguns dizem que dá para ouvir os graves no Estreito, do outro lado da baía. Essa empolgação, muitas vezes extrapolando as 22h, criou uma imagem baderneira. “Não tem lugar específico na cidade pra galera que curte colocar som alto e bagunçar, seria mais saudável [ter]. Rola bastante preconceito com quem gosta de som [na ilha]”, reclama Gustavo.

Hoje a polícia controla fortemente os decibéis da região, fazendo rondas, autuações e  apreensões constantemente. O Tenente Coronel Gomes Araújo – comandante do 4º BPM da capital e responsável pelo policiamento militar da área central de Florianópolis – concorda com Gustavo: “Realmente falta um espaço próprio para esse tipo de diversão. E às vezes, mesmo quando são respeitados os horários, há um pouco de intolerância.”

Mas o maior algoz da imagem do Koxixos foi a onda de roubos, assaltos e sequestros relâmpagos na região a partir dos anos 2000. Criou-se uma fama terrível, e a maioria das pessoas que frequentava o lugar passou a evitá-lo – principalmente à noite. Há pouco tempo, depois de muita reclamação de moradores locais, as rondas foram intensificadas e hoje há poucos registros de ocorrências na área, segundo a Polícia Militar. Mas esses poucos casos são contundentes: na comemoração da vitória do Avaí sobre o Figueirense no final de agosto, um homem foi morto a tiros e outro gravemente ferido. Há planos de instalação de câmeras de segurança na avenida.Assim, o mau hálito do lugar continua a aumentar. “A Beira-Mar Norte é um desses lugares sobre o qual a percepção pública é amplificada e desproporcional. Uma mesma ocorrência no Rio Tavares e no Koxixos vão ser percebidas de modos diferentes”, explica o Coronel Gomes. “O medo em áreas assim é resiliente.”

Com esse alarme de perigo soando alto, o espaço se abre cada vez mais a outros públicos e à criminalidade. Cria-se uma espiral de medo e o lugar se torna, inevitavelmente, uma boca maldita. É um processo cruel. A Naipe ficou por duas horas no Koxixos numa sexta-feira à noite, circulou entre o funk e os manos com correntes no pescoço – e em nenhum momento se sentiu ameaçada. Tampouco tentada a voltar.A segurança pública não acompanha a urbanização velocidade 5 de Florianópolis. Com o crescimento exponencial da população, a cidade ficou muito mais insegura – e é sempre mais racional pagar R$ 20 na entrada de um barzinho fechado. As pessoas são empurradas para espaços fechados, e os públicos são cada vez menos cogitados.

Imbróglio

Policiamento ostensivo não é a saída para tudo. O próprio Coronel Gomes lembra isso, e diz que é preciso criar propostas culturais que mudem a imagem do lugar e gerem dinâmica social. Um projeto desenvolvido pelo Departamento de Arquitetura da UFSC em parceria com o Fórum Criatividade e Imagem da Cidade tem esse viés. Sonha revitalizar toda a orla a partir do meio da Beira-Mar Norte até o CIC com um grande boulevard.A península ao lado do Koxixos, a Ponta do Coral, passa por um grande imbróglio legal – a permissão ou não da construção de um hotel na área, o que grande parte da população é contra. Não havendo a construção o espaço poderia ser, em projeto chefiado pelo arquiteto e urbanista César Floriano, ideal para apresentações ao ar livre, feiras, eventos, teatro, concha acústica, praça de alimentação, centro de informações turísticas e restaurantes em uma grande parceria do setor público com o privado.

O Koxixos ficaria como apoio e sem a parte do estacionamento em frente ao bar, o que ampliaria o espaço de mesas e de descanso. Um grande deque junto às pedras criaria uma relação mais direta com a borda d’água. “A segurança se dá pelo uso, e se a Ponta do Coral virasse uma praça pública toda essa área seria ativada intensamente”, avalia Floriano.Por enquanto, o Koxixos perde força como referência em Florianópolis. Maristela Amorim traduz um sentimento corrente do que o espaço representa hoje: “Pra mim, é só um vão pra quem quer furar a fila do semáforo.

* A Praça República da Grécia, o bolsão de estacionamento na Beira-Mar Norte que abriga o Koxixos Beer, é popularmente conhecida pelo nome do bar. Na matéria, a Naipe se dá a liberdade de chamar de Koxixos toda a área pública do estacionamento – sem qualquer relação com o estabelecimento comercial.

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Sobre o Autor

Ex-editor da Naipe, morou cinco anos pelo mundo. É jornalista por DNA e, em breve, por formação.



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