Na rua nadafazerdentro

Publicado em junho 29th, 2011 | por Revista Naipe

15

O QUE FAZEM OS QUE NADA FAZEM?

O que fazem os que nada fazem? Foi a questão que intrigou a Naipe em uma terça-feira prolongadamente ensolarada em Florianópolis, o inverno soprando mais de leve, o dia perfeito te fazendo sentir um homúnculo por ter que trabalhar.

Por que, santo Domenico di Masi, você está no escritório enquanto alguém passeia com o cachorro às 15h pela beira da Lagoa da Conceição? Como é que há tantas pessoas livres à tarde? Claro, há muitos estudantes, aposentados, turistas, mendigos, donas de casa, gente que só trabalha pela manhã e…

A questão está nesse “e…”. Quem é aquele sujeito classe média que tem a empáfia contracultural de levar os filhos para o parquinho, fazer compras, lagartear em frente ao prédio em que você se mata das 9h às 18h?

Vejamos Rafael de Campos, por exemplo. Terno e sapato social na Joaquina às duas da tarde. Paulistano que mora na ilha há oito meses, ele trabalha com tecnologia da informação em seu home office no Córrego Grande – palavras mágicas, “home office”, “tecnologia da iformação”.

Na hora do almoço, o boludo costuma escapulir para a praia, às vezes até surfa. É o típico imigrante de São Paulo living-the-Floripa-dream: “Dá tranquilo de vir à praia, duas horas de almoço é muito tempo, é só se organizar”.

O alemão Dirk também está vivendo o sonho, sentadão em um banco de praça enquanto observa a filha brincar no parquinho. “Eu poderia ter mais dinheiro e trabalhar mais por isso, mas por quê? A vida é feita de escolhas”, filosofa, dizendo o que arrepia muito executivo. Típico jeitão de alternativo que há muito adotou o Brasil, Dirk já morou em Londres e Munique, cansou da vida metropolitana e hoje vive dos aluguéis de casas que construiu ou comprou. Sorri deliciado por poder passar a tarde flanando com a camiseta levantada para pegar sol na barriga. “Vida boa”, resume.

Intrigado, invejoso

Em um café da Lagoa, Bruno Schaefer faz nada porque está de férias. Tirou 12 dias de folga do seu trabalho na Petrobrás, em Macaé, mas enquanto sorve um expresso ele também se pergunta: por que há tantas outras pessoas tomando café ali, às 15h de uma terça-feira? Quando a Naipe o abordou, ele disse ser justamente essa a questão que ocupava seus neurônios temporariamente livres de trabalho.

“Como é que esses caras sobrevivem?”. Ainda curioso, intrigado, invejoso, ele termina o café, atravessa a rua, compra um jornal na banca e senta à beira da Lagoa para ler. Humpf.

Na pontezinha que leva às Rendeiras, a poucos metros dali, a Naipe caminha ao lado de um cachorro, observando os raios de sol que batem na água. De repente, vem subindo a ponte um sujeito de uns 30 anos com óculos de sol, camiseta, calça jeans e – insulto – uma latinha de Bohemia. São três da tarde. É a chance de a Naipe descobrir o segredo. É esse o ser humano que tem todas as respostas. O que o permite estar de folga bebendo cerveja, esfregando na cara do universo que ele está, sim, fazendo nada?

– Conhecimento – diz.

Os dois jornalistas da Naipe piscam juntos. Percebendo o impacto da sua declaração, o rapaz repete: “Conhecimento”, e sorri sacanamente.

– Queres ser livre, leia! Comandante Ernesto Che Guevara! – fala alto, levantando um braço e já se afastando, afinal ele tem mais o que não fazer.

Enquanto a Naipe ri, o cachorro dá uma boa olhada na cena ao seu redor e deita na cabeceira da pontezinha. Levanta a cabeça, olha o movimento, boceja, fecha os olhos por alguns minutos para sentir o sol. Talvez não saiba que não é domingo. Ninguém contou para ele que é terça-feira. À tarde.

É. Os engravatados na praia, os estrangeiros no parquinho, os caras que bebem cerveja na Lagoa em horário comercial, os cachorros: esses aí é que sabem das coisas.

Tags: , ,


Sobre o Autor



15 Responses to O QUE FAZEM OS QUE NADA FAZEM?

  1. Caroline Garlet de Oliveira says:

    Reportagens assim são para, não apenas ler fechar a revista (ou o pc) e seguir em frente, são para analisar características peculiares que possam acrescentar também em nosso cotidiano.
    Achei ótimo o conteúdo, e com certeza já absorvi os conhecimentos.

  2. Ana Paula Santos says:

    Adorei a matéria, também senti a sensação de estar dando uma volta na Lagoa, às 14h.

    Cada um tem o ócio que merece. Se ele está lá de dia, provavelmente tem um trabalho em outro horário ou, trabalha menos. Acho que as pessoas não devem invejar o ‘não fazer nada’, mas o ‘fazer menos’, porque senão você seria um inútil. Mas, é bom estar sem fazer nada durante o dia. Mas esta também é a minha opinião, e eu respeito a de quem acha o contrário.

    Falta de respeito com a revista ou com os outros com certeza não te levará ao ócio que deseja. CONHECIMENTO fecha muito bem a matéria, sabe quando às vezes é melhor não falar nada do que falar besteira.

  3. Anderson says:

    Esse é o tipo de reflexão que não lemos nos ditos jornais de grande circulação. Muito bom. É um texto que não tem fim. É somente um pedaço do que acontece nesse imenso universo. Assim como há os que nada fazem na praia, no campo, na cidade eles existem e são aos montes. Observar o movimento pela janela. Sentir o fluxo da vida, do amanhecer ao crepúsculo nos torna receptivos. Esse pessoal que tem “tempo livre”, quem sabe saiba o significado de trabalhar para viver ao invés de viver para trabalhar. Enquanto isso o mundo gira entre um sol e outro.

    Saudações a equipe revista.

  4. cinthia says:

    otimo texto. vou escrever com TODAS AS LETRAS pois hoje acordei muito zen. o texto não tem conclusão. foi feito para curtir, refletir, somar as suas proprias experiencias, e aí, sim, dar sequência.
    ahhh, e carlos, ” fazer nada” o que é? fazer algo é o que? trabalhar como um escravo em um trabalho no qual vc conta os segundos para dar a hora de ir embora?
    saudações

  5. Thais Cristina Madei says:

    Há um certo tempo dedico pequenos minutos do meu dia para ler a revista. Adoro, uma leitura gostosa e assuntos fantásticos.

  6. Andreza says:

    Descobri a revista há pouco tempo, uma pena porque percebi que tenho perdido muita matéria boa, como esta sobre o ócio por exemplo. Leitura agradável e com tom de conversa, parecia que eu estava caminhando lado a lado com os repórteres. Muito bom!!

  7. Patricia says:

    Gente, eu adorei essa reportagem, so não amei pq realmente ficou um pouco inconclusiva… queria saber mais!! Por diversas vezes me fiz essa pergunta que não quer calar. E pode até ser inveja, inveja boa, pelo menos daquele momento.
    E hj o dia tá perfeito pra fugir do trabalho e ficar sem fazer nada!

  8. Guilherme Pedroso says:

    Concordo Scotto, os caras tem feito uma publicação muito agradável de se ler e falando do que está em nossa volta.

    Acho impressionante como sempre tem o cricri pra reclamar. Reconhecer e elogiar o bom trabalho é raridade na nossa cultura enquanto esculachar e caluniar é o padrão. É uma pena.

  9. Ademir Peixoto says:

    É porisso que eu levanto bem cedo, pra ficar mais tempo sem nada pra fazer, mas que dá uma saudade de Floripa, isso dá…
    Quisera aqui em Porto Alegre, ter tantas opções de nada para fazer como estar em Floripa ajudando o peixe a fazer nada…

  10. Fernando says:

    Esquereceram que ninguém trabalha no mesmo horario…enquanto vocês dormem e se preocupam com a vida deles, eles estão trabalhando…o coisa mediocre de gente de cabeça pequena e invejosa

  11. Rodrigo says:

    Que lamentavel essa reportagem. Ninguém tem nada a ver com a vida de ninguém…aff…gente invejosa…deixa as pessoas sem fazerem nada !!! O que vocês tem com isso ? Vivam suas vidas

  12. weber says:

    AHH NAO É BEM ASSIM… OS Q “MEDITAM” NUMA TERÇA A TARDE É PQ TRABALHAM EM ESCALAS… ASSIM COMO EU.. HOJE, TERÇA, ESTOU DE BOA.. NA CAMA, NAVEGANDO NA NET.. DAQUI A POUCO, VOU DAR UM ROLE DE BIKE, FUMAR UNZINHO NA BEIRA DO MAR… E CURTIR MINHA TERÇA FEIRA NUBLADA… MESMO PQ, EU TBM SOU FILHO DE DEUS E MEREÇO FLANAR NUM DIA DE SEMANA,,,

  13. Gustavo Oprecht says:

    Ideia muito bom, execução muito ruim. Entrevistam 4 pessoas e não concluem nada de útil. Deve ser uma revista pra quem não tem nada pra fazer mesmo…

  14. Carlos says:

    Resumindo: pra nada fazer o cara tem que ser bem-nascido ou ralar demais desde pequeno pra ter grana e posses de sobra antes dos 40 – cadê a novidade?!
    Me diga quem vive no ócio sem ter “berço de ouro”, sem estar de férias e sem ter mais de 40 anos..?

  15. Luiz Scotto says:

    Depois de muitos e muitos anos apareceu uma publicação de repórteres em Santa Catarina. Já tivemos de tudo: revistas e jornais de opinião, de fotografia e publicidade, de mulher pelada e de mulher vestida, de chutador e palpiteiro, da alta e da baixa sociedade e até publicações de jornalistas que não se vendem: se alugam. Sim, senhores, eu li a Naipe e gostei, gostei muito. Não aparece uma única autoridade, nem vereador e nem deputado, nem prefeito e nem senadora – que beleza não ter que ler sobre estes cacos. Só dá nois no retrato. Histórias de gentes e de ruas. Os repórteres estão aí de novo, gastando a sola do sapato. Parabéns gurizada. Scotto.

Subir ↑