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O ZADO ENSINA JURERÊ

O mundo está mais próspero e festeiro – mas também muito mais chato.

“Não existe amor em SP”, canta o rapper Criolo. “Não existe humor em paradores de praia”, poderia acrescentar,  frequentasse Jurerê Internacional.

Exagero? Claro, mas não tanto quanto parece.

Por que deixamos que o blasé se tornasse regra? Por que trocamos a espontaneidade pela afetação, o deixar rolar pelo networking, o surpreendente pelo previsto?

Por que nos deixamos apequenar diante da indústria do entretenimento – se somos nós que pagamos as suas contas?

À medida que se profissionalizam, complexificam e crescem, as festas à beira-mar de Florianópolis também consagram a chatice. Isso porque deveriam manter um pouco a aparência de algo “antiprofissional”, no sentido de não lembrarem tanto aos festeiros os mecanismos de organização. Mas é na direção do rigor que tudo caminha, à parte alguns turistas que tentam uma pegação de micareta no meio do formalismo de Jurerê.

Os camarotes, com cada vez mais categorias, se tornaram um enervante xadrez sócio-econômico. E tendem a continuar crescendo, já que, ainda mais aqui nos tristes trópicos, acertaram o alvo: uma proposta visível de distinção social para uma população insegura a respeito, com patológica necessidade de ver os outros lá embaixo para se sentirem mais altos.

Os combos de bebidas com mais de 600% de lucro para a casa deixam os bebedores ao mesmo tempo tensos e aliviados. Pensa aquele brasileiro com problemas de auto-confiança que a questão é com ele, precisa passar num determinado concurso e ganhar mais para beber à vontade na balada. Calma, môpombo: R$ 250 por uma vodca e seis energéticos que custam R$ 50 fora dali, doendo ou não na próxima fatura do cartão de crédito, continua sendo caro, se avaliada a qualidade da bebida que se pode comprar em uma importadora com isso.

Enfim. Tudo isso não significa que não há alguma satisfação nos paradores. Como dito antes, a avaliação pode ser um pouco exagerada. Em shows de atrações como Seu Jorge, amanhã no P12, há mais faíscas, mais empolgação.

Atabaque

No fim o mise-em-scène generalizado cansou e o preço da fruição da estrutura fez com que o sujeito se sentisse mais um trouxa do que um paxá

Não obstante, e principalmente no caso de música eletrônica, impressiona a quantidade de pessoas que frequentam resmungando os paradores em geral. Sim, um aparente paradoxo, frequentar resmungando. Muitos voltam porque gostam, ponto. Mas para outros tantos, é fato: aspectos como a aparição social, a presença de delícias e uma estrutura confortável são o que os fazem voltar – mesmo que já tenham se sentido traídos diante de uma miragem, porque no fim o mise-em-scène generalizado cansou, vista de perto a delícia não era tão deliciosa assim (ou era e não quis nada com ninguém) e o preço da fruição da estrutura fez com que o sujeito se sentisse muito mais um trouxa do que um paxá.

O que impressiona mais ainda é o quanto, nesses tempos bananas, quanta gente simplesmente esquece a existência de lugares como o Bar do Zado, há 27 anos no costão direito da Praia da Ferrugem.

Pasteis a R$ 2, cervejas 600 ml a R$ 5,50, mesas de plástico amarelas, um quiosque ordinário com chuveiro e banheiros, pé na areia. “Sim, eu conheço esses lugares”, o leitor há de pensar. Mas conhece mesmo? Nas praias de Florianópolis, por exemplo, os bares com a fachada do do Zado são geralmente frequentados por tiozinhos simplórios de pele curtida. Enquanto que no Zado uma entusiasmada jeunesse gaúcha, argentina e do sul catarinense é o público.

Às 19h, no que se vai a tarde de verão, o público cerca a dupla violão-voz/atabaque que toca na borda do quiosque e faz coro àquele Rappa ou Tim infalível à beira-mar. Catarse. O homem no atabaque sua cada vez mais, as pessoas em volta pulam, reverenciam, ampliam o coro, se deixam possuir pelo exu da espontaneidade, fazendo das férias ou folga o que é devido. Logo as mulheres, inclusive as guapíssimas, colocam as sandálias nos pulsos e dançam com os cabelos suados e blusas que começam a grudar. Não há salto alto, reboco, camiseta pólo, champanhe, automatismo, pagação, autolimitações.

Na frente do Zado, pequenas rodas de futebol, gringos arriscando capoeira, surfe, leseira. A luz natural escasseia mas – nesses tempos de espaços privados, vocês lembram que isso é possível? – muita gente segue na praia. Pequenos círculos não distantes do bar tocam seu próprio violão. Sem sol, a temperatura da areia abranda. Hora ideal para estar com o seu cooler e sacar dele aquela long neck de cerveja menos aguada (R$ 2,10 cada, no supermercado), rebatendo um pouco as geladas genéricas de até então. A conversa se estende, nenhum segurança privado vem perguntar o que você está fazendo ali.

Jurerê é a falência da imaginação.

 

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Sobre o Autor


6 respostas para O ZADO ENSINA JURERÊ

  1. Ricardo caco disse:

    Existe uma diferença gigantesca de quem procura a Ferrugem e quem procura Jurerê…começa pela visão de valores e o que é importante na vida…Paulistas, Cariocas e outros invadem Floripa atrás de mulheres e gandaias…deixem eles todos em Jurerê…lá eles encontram as maria camarote que vão proporcionar o que eles querem!
    Viva o surf de alma…viva Ferrugem, Silveira, Rosa!!

  2. telmo amaral disse:

    belo texto… bem assim… um espaço livre e alternativo… nos finais de tarde ouviamos também o som brasil-pop internacional do claudio merlin… que agora vai ser papai… grande bar do zado…

  3. Claudio Merlin disse:

    A mais pura verdade! Viva o Bar do Zado, a Ferrugem e Garopaba!

  4. Shasça disse:

    Pois é, parece que ser moderno é ser de plástico.
    ‘Bora pro Bar do Zado, já que demoliram o do Seo Chico.
    [ ]‘s
    http://www.shasca.blogspot.com

  5. Gabriel Lannes disse:

    Parabéns pelo texto, lindamente escrito e oportuno !

  6. Marcelo disse:

    Perfeito o texto. Na ilha do entojo, Jurerê Internacional se tornou o centro da cidade. Esse verão também experimentei as “surpresas” de Garopaba e me deixei levar, espontaneamente pelas “ondas” da Ferrugem… me perguntava esses dias: “serão as pessoas ou o lugar”!?! Em fim, é realmente muito difícil explicar (para alguns) porque a espontaneidade e o surpreendente superam em muito o luxo do networking!!! É mais fácil fazê-los sentir (se toparem sair de seus casulos). Parabéns pelo texto.

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