Na rua robertocarlos3

Publicado em agosto 26th, 2010 | por Thiago Momm

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ATROPELADO PELO SERTANEJO

[Foto e vídeo de Gabriel Rinaldi]

“O sertanejo universitário acabou com a carreira dele”, sorri um frequentador do Mercado Público de Florianópolis. É sexta-feira à noite e a Naipe está em uma das mesas do Box 36.

A carreira no caso é a de Roberto Carlos, antigo cantor de sábados do mercado. O apelido é mais que gasto entre cantores de meia-idade saudosistas e excêntricos Brasil afora: remete ao emocionado cabeludo do nosso especial natalino de cada ano. Como metade do país, Roberto Carlos, o do mercado ilhéu, tem um apego de vida inteira ao cancioneiro romântico de Roberto Carlos, o original.

O Roberto de chinelos que canta para a Naipe tem tudo para não ser matéria. Publicar ecos de Roberto Carlos é quase tão gasto quanto adotar o apelido. A revista Trip, por exemplo, já deu capa com seis sósias do rei (clicada, aliás, pelo mesmo fotógrafo da imagem acima). Outro aspecto também desestimula: não querer incentivar o amor brasileiro exagerado e indulgente pelos seus pobres. A velha reportagem “ser fudido é cool”, reflexo do que Lobão chama de “alguma coisa patológica pela pobreza” aqui no país.

São flashes assim que me vêm à cabeça enquanto Roberto Carlos segura uma sacola com um exemplar da Contigo (Fábio Assunção na capa). Mas não é possível ignorá-lo. Abaixo de muitas camadas de urbanização há a identificação com outra pessoa a partir das contrariedades da vida.

Todos carregamos cacos de nós mesmos ao longo dos anos, mas eu e outros da classe média fazemos isso com discrição. Portanto os que carregam seus cacos na frente de todo mundo  como o Roberto Carlos sem os quatro dentes entre os caninos  nos incomodam bastante, e de vez em quando ainda podem, vejam só, nos tocar.

Velha cepa

“Quando eu canto parece até que eu estou feliz”, explica Roberto, respondendo à minha pergunta sobre o que o motiva a soltar o gogó. Quando quero saber o que ele pensa enquanto entoa velhos hits a resposta não é menos perspicaz: “Quando eu canto eu só penso no cantar, mesmo.”

Viúvo há 15 anos, há 14 ele solta a voz, mas diz que uma coisa não está ligada à outra. De qualquer maneira, seu setlist é de músicas de amor  senão as do rei, as de sertanejo de velha cepa, como a que cantou no vídeo abaixo para a Naipe. Por isso brinca o frequentador do Box 36 que o sertanejo universitário acabou com a carreira de Roberto.

Há alguns anos ainda era possível ouvi-lo cantanto diante de rodas no mercado aos sábados. Depois ninguém mais quis ouvi-lo. E assim estava, recolhido ao que a vida o permitiu ser, na sexta-feira em que cantou para a reportagem. Ficaria um pouco mais no mercado e pegaria um infinito ônibus até a Palhoça, onde mora. Já eram quase 22h e o Box 36 fervilhava. “Por que a Contigo?”, pergunto. “Para ver os artista“, me diz, olhando para cima.

Roberto se apega à cantoria como boia cotidiana e vê na Naipe um transatlântico passando ao longe.

 Vai sair na TV?, ele se anima, sobre minhas anotações e a presença de um fotógrafo de São Paulo.

Não.

Na revista?

 Olha, é melhor a gente ser sincero e não criar expectativas. Não temos espaço na revista. Vai sair na internet.

 Ah, não tenho internet  ele lamenta, a voz sumindo. Mas fica com o endereço do revistanaipe.com.

Alguém avise o Roberto que ele está aqui. Sendo possível, favor levá-lo numa lan house.

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Veja abaixo sua interpretação de Fio de cabelo:

 

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



6 Responses to ATROPELADO PELO SERTANEJO

  1. Rodrigo says:

    Perdi 2 minutos da minha vida lendo isso aqui…hahaha

  2. juarez di oliveira says:

    Descordo totalmente desta reportagem e td mais, sou cantor e vivo dos meus shows, canto musicas romanticas, gaudérias, sertanejas e etc. mas não entrei em onda de sertanejo universitário, conto e meu repertório para o meu publico e graças a Deus sou sempre muito procurafo e aplaudido. Tem espaço para todos é só saber procurar e ser proficional. o romantismo ainda vive…

  3. Ronaldo Daniel Basto says:

    Matéria muito boa, ruim foi o tal fotógrafo, que estourou o flash na porta, quase deixou o entrevistado cego. Seu fotógrafo, por favor, use o flash rebatido, por essa não te cobrarei nada, a próxima já sabes…

  4. Ana Carla Batista says:

    HAUHAU, Olha o preconceito com o ”muito valoRRRRR” ehm jenny, HUM!

    hahahhahahaha

  5. Candy says:

    Sempre nos trazendo personagens incríveis que deparamos no dia a dia aqui na Ilha mas não conhemos!!

  6. jenny says:

    ”[…] o vestido velho da mulher amada UONnnn tem muito valooooooooooR”

    hahahahahaha

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