Na rua sonsdailha

Publicado em julho 26th, 2011 | por Revista Naipe

0

OS SONS DA ILHA

[Com foto de Bruno Ropelato e vídeo de Peter Gossweiler]

A Naipe passeou quatro horas de uma quarta-feira pela Grande Florianópolis fazendo um exercício de escuta. O tour começou às 8h no Kobrasol, no continente, e terminou às 12h no Beiramar Shopping, no centro, um ônibus e uma lenta caminhada depois.

Asas de pombo, slosh da pisada de Havaianas, um bom-dia sem ruídos ao fundo. Florianópolis ainda tem alguns bairros e muitas ruas silenciosas, onde os sons nascem e morrem como antigamente.

Mas a manhã do Kobrasol logo fica polifônica. Um pneu de carro passa por um declive, os vidros de um Pálio tremem com dance music, um avião se sobrepõe a tudo. Chega um ônibus, o freio chia, a porta pneumática faz fssss, lá dentro há tosse, catraca, moedas na madeira, apito da próxima parada e acima de tudo o motor; uma buzina de moto e a aceleração de um caminhão entram pelas janelas.

A manhã logo fica polifônica. Um pneu de carro passa por um declive, os vidros de um Pálio tremem com dance music, um avião se sobrepõe a tudo. Chega um ônibus, o freio chia, a porta pneumática faz fssss, lá dentro há tosse, catraca, moedas na madeira

O passeio segue no principal terminal de ônibus da ilha. Com tempo frio e acinzentado há menos conversas, menos volume, mais introspecção. Um sotaque do interior, um grasnar de gaivota, passe, compro e vendo, alguns saltos, pedestres ao celular, uma marquise do camelô sendo levantada.

O centro começa a engrenar: na rua Trajano, alarmes vendidos por um ambulante, as cadeiras do Senadinho ajustadas pela garçonete no calçadão, só dez vezes sem juros de cinquenta e nove e noventa mensais no som de uma loja, um DVD do Rappa na TV de outra. Dentro da casa de sucos, marteladas para quebrar açaí, xícaras pousadas nos pires, liquidificador, o caixa cobrando os clientes.

Na praça XV, às 9h10, um cortador de grama, ao longe batuques. Dentro da catedral, cantoria. Um microônibus. Uma mala pelos ladrilhos da rua Felipe Schmidt, a flauta tocada por um cego sentado na porta da lotérica, …um suporte para cada advogado…, outras frases perdidas, o assobio de um gari. No cruzamento das avenidas Rio Branco com a Osmar Cunha o clichê da urbanização, o som do trânsito que não para, amalgamado, grudado, sem pausas. De dentro da farmácia com as portas automáticas fechadas, quase silêncio.

Ao longo da caminhada, betoneira, bate-estaca; na frente do Beiramar Shopping, um poodle latindo. Dentro do shopping, engrenagens da escada rolante, chafarizes; às 11h, na praça de alimentação, poucas vozes, mas ao meio-dia falatório, latinhas de chá, suco e refrigerante abrindo. Cadeiras no piso, bandejas nas mesas. Bipes de senhas. Muitos bipes de senha.

Tags: , ,


Sobre o Autor



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑