Na rua rpgcapa

Publicado em janeiro 25th, 2012 | por Rosielle Machado

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POR TODA A MINHA VIDA

Sexta-feira, 19h, centro de Florianópolis esvaziando.

Raul Barbosa bate o ponto na livraria em que trabalha e pega o caminho contrário ao fluxo. Sobe a rua ao invés de descer, anda até o supermercado, muda de calçada, entra no prédio, desce dois lances de escada. Garrafa de cerveja numa mão, pacote de Ruffles na outra, passa pela vitrine cheia de HQs e para na porta:

– E aí, loucos do inferno!

As três mesas da loja estão ocupadas por homens entre 20 e 39 anos que, como Raul, poderiam ter largado o expediente e ido para casa. Mas não: eles são advogados, fisioterapeutas, funcionários públicos, engenheiros e estagiários que preferem ficar no centro para jogar War Games, Board Games, D&D, Magic e todas essas ramificações que nós, leigos, levianamente chamamos de RPG.

A Toca da Revistaria, onde Raul e os amigos se reúnem às sextas, é um dos dois redutos dos jogadores ilhéus. O outro é a Dragon´s House. As lojas são parecidas: graphic novels, tabuleiros, manuais e miniaturas misturam-se a adolescentes magrelos e adultos nerds. Nas hobby stores, como são chamadas, ninguém olha torto para um homem barbado que diz gostar de temática medieval. Olham é com respeito, principalmente se você fizer algo como “matar o Dwarf com o Sneak Atack”, coisas assim.

Frases enigmáticas desse tipo são comuns nas noites de torneio na Toca. Como a sala tem apenas três mesas, os participantes sobem para a praça de alimentação do prédio e duelam até as 23h. Um desavisado pode achar a cena meio esquisita: 12 homens, apenas dois ou três adolescentes, num silêncio sepulcral só quebrado por comentários como “Rola a iniciativa!”.

Lá embaixo, na loja, a atmosfera é mais descontraída. Há frequentadores que nemfazem questão de subir para a competição. Preferem jogar em um clima mais amigável, do jeito que aprenderam há 10, 15, 20 anos.

Astronauta, cavaleiro

“Pra mim, o prazer de jogar é o mesmo da leitura”, compara Raul, 28 anos. “É um exercício de imaginação. Na infância o cara sempre quis ser um super-herói, e no jogo você pode ser um astronauta, um cavaleiro”, acrescenta o auxiliar administrativo Anderson Marques, de 29.

Não é um prazer barato: os mais aficionados por jogos gastam, por mês, cerca de R$ 250 em livros, quadrinhos, miniaturas e cards.

Não é um prazer barato. Os mais aficionados por jogos gastam, por mês, cerca de R$ 250 em livros, quadrinhos, miniaturas e cards. Mas, dizem, é o preço que se paga para manter o aperfeiçoamento constante.

“Comecei em 1989 e não consegui parar”, depõe o analista de sistemas Jean Charles, 39 anos. Ele explica que seu caso é raro, já que a paixão pelos jogos precisa passar por algumas provações como faculdade, namoradas, casamento. Jean, atualmente na fase do noivado, conta que o nirvana é resistir a tudo para, um dia, jogar com os filhos e levar o hobby adiante.

Se instituída a tradição, pode serque no futuro as mesas da Felipe Schmidt tenham tabuleiros e cartas de Magic em vez de peças de xadrez ou dominó. Vai saber.

*Esta matéria é da Naipe 6. Clique aqui para ler a revista em sua versão online

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Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



2 Responses to POR TODA A MINHA VIDA

  1. Bin D. Jr says:

    Tenho 21 anos, não sou muito experiente, comecei a pouco tempo (uns 5 anos), e por vontade própria busquei na internet algo assim junto com meus primos e irmão, jogamos por enquanto versões mais simples como 3D&t e Might Blade, mas estamos estudando para entrar no famoso mundo do D&D. Infelismente em Criciúma (onde moro) não existem lugares para encontros de RPGistas, a maioria fica na casa de um dos participantes e ali viram a noite, mas faria muito sucesso por aqui se tivesse, por enquanto, fico por aqui babando, Hehe.
    Abraço!

  2. Léo T. Motta says:

    Assim, de tabuleiro, nunca joguei não. Joguei Magic quando muito jovem e passei um tempo jogando D&D, GURPS e até alguns Storytellers.

    Engraçado, na época eu achava que ia mesmo jogar por muito tempo ainda. Hoje vejo que não, que apesar de ver os pontos positivos já não jogo há muitos anos.

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