PRIMEIRO ATO

[Fotos: Stefano Maccarini]

Na Avenida Mauro Ramos, dentro de uma academia com portas de vidro, um grupo suava enquanto fazia uma série de exercícios abdominais.

Lá fora, a manifestação que ontem (18/06) levou 10 mil pessoas às ruas de Florianópolis se aproximava, aos gritos de “vem pra rua” – primeiro em volume baixo, depois com altura suficiente para desconcentrar a meia dúzia que, nos colchonetes da academia, subia e descia tonificando a musculatura da barriga. Nenhum dos seis largou o exercício para se juntar à multidão, mas foi isso que fizeram muitas das pessoas que estavam se manifestando ontem na Ilha: trocaram o próprio umbigo pela rua.

Além de insatisfações variadas, o que a Naipe mais viu foi gente. Gente ocupando ruas de Floripa que normalmente pertencem aos carros e descobrindo o prazer de ocupar os espaços públicos à noite, como acontece em tantas cidades do mundo. Gente cantando bonito, caminhando em silêncio, segurando cartazes, bebendo vinho. Gente de roller, de bicicleta, de coleirinha do cachorro na mão. Gente sacudindo o próprio carro na Avenida Beira-Mar por empolgação com a manifestação, e não revolta com o trânsito paralisado. Gente tirando foto “pra postar no face”.  Gente pedindo pras pessoas “protestarem primeiro, tirarem foto depois”.

Nas quatro horas de protesto que a Naipe acompanhou, viu também apartidarismo, coros de hino nacional, vaias para a Igreja Universal, pai levando filho no cavalinho, policial militar sorrindo ao observar a manifestação. Estudantes de All Star, administradoras de sapatilha e advogados de gravata. Pessoas que pularam a catraca no Ticen na hora de voltar pra casa e outras que não andam de ônibus há pelo menos dez anos.

A beleza do movimento está em não sabermos pra onde ele vai, diz criador do evento no Facebook

Vimos também a ansiedade que já era sinalizada pela antecipação da data – o primeiro ato estava marcado para quinta-feira, mas algumas pessoas cansaram de esperar. O grupo saiu do Ticen às 18h15, após apenas 15 minutos de concentração. Andaram tão rápido que meia hora depois já estavam no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), na Avenida Mauro Ramos. “Parece que estão disputando a meia maratona”, diziam alguns. A Naipe mediu a rapidez: 5 Km/h, velocidade de esteira.

O responsável por antecipar o ato foi Fernando Bastos Neto, mestrando em Literatura na UFSC. “Eu não aguentava mais esperar. Titubeei, fiquei com medo, mas achava que valia a pena correr o risco e criei o evento no Facebook”. Na opinião dele, o ato de ontem foi positivo. “Gosto da pluralidade, gostei de ver gente reivindicando várias coisas. Vi até colegas meus que fazem Direito e que nunca imaginei ver reivindicando a tarifa zero de ônibus. Deu pra perceber que algo mudou.”

Sobre a insatisfação de alguns colegas quanto à falta de foco do movimento (gritou-se contra a tarifa, contra a roubalheira, contra a Copa, contra a presidente Dilma), Fernando pondera: “Acho bom porque essas pessoas pelo menos estão nas ruas, mesmo que não saibam exatamente por que. A beleza do movimento está em não sabermos pra onde ele vai”. Apesar disso, ele fica com um pé atrás quanto a algumas bandeiras que têm sido levantadas. “Ser ‘contra a corrupção’ não leva a nada e pode acabar se tornando uma armadilha para esvaziar o movimento.”

Face, tal

A secretária Tatiane Pinheiro foi uma das muitas pessoas que fizeram questão de posar sorrindo no meio da manifestação. “É isso aí, face e tal”, disse animada, conferindo como tinha ficado sua foto no celular. “E por qual motivo você veio?”, quis saber a Naipe. “Ah, mandaram a gente vir e viemos”.

Nos prédios da Avenida Beira-Mar norte, as sacadas estavam quase tão cheias quanto em noite de réveillon. Havia quem acenasse com panos de prato, havia bandeiras do Brasil nas janelas, havia quem acendesse e apagasse as luzes para demonstrar apoio.

As pistas próximas ao mar ficaram livres para os manifestantes passarem. No outro sentido, o trânsito também foi parado.  O funcionário público Geraldo Vieira era um dos que estavam fora do carro, fotografando. “Acho que esse protesto é muito importante no contexto atual do Brasil, em que as instituições estão falidas. É preciso uma resposta à altura”, disse ele, que afirmou não se importar caso fosse necessário passar duas horas na fila.

O motivo dos passos ainda mais rápidos na Avenida talvez tenha sido a vontade de chegar logo ao final dela. Era lá que a manifestação poderia decidir seu rumo: voltar ao Ticen ou ir para a ponte. No evento do Facebook, muitos defendiam que tentar fechar as únicas ligações entre a ilha e o continente provocaria confrontos com a polícia. De fato, havia muitos policiais lá, mas por outra razão: esvaziar a ponte para os manifestantes passarem. “Lindo, lindo, lindo!”, sorria uma garota com os olhos molhados enquanto subia a Colombo Salles.

Depois da euforia inicial, a maioria dos manifestantes ficou sem saber muito bem o que fazer. Uma parte seguiu caminhando no sentido da Via Expressa, sentou ou gritou “Quem não pula quer tarifa”. Outra decidiu ir para casa.

Logo após um grupo iniciar uma performance teatral, a Naipe ouviu o seguinte diálogo:

– Será que vamos mudar o Brasil?

– A gente tá mudando. A gente subiu na ponte.

– Mas não adianta andar 5 km e parar. Tem que continuar.

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  • Veja mais fotos da manifestação aqui

 

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