QUEM SABE NA PRÓXIMA, JACK?

[Por Guilherme Carrion, especial para a Naipe]

O único conselho de meu velho amigo conhecedor da atmosfera sórdida das caronas e dos perrengues foi:

– Saiba perder.

Talvez a meia dúzia de latinhas e minha ingênua confiança de calouro na aventureira tentativa de atravessar o país no dedão me fizeram desperceber a profundidade deste sábio conselho, de alta quilometragem nesta prática de viagem, porém com alto consumo de cachaça naquela noite.

Eu acreditava que para ter êxito nesta aventura bastaria uma faceta pouco comum da minha personalidade, que poderia vir a desenvolver diante da necessidade de cair na estrada gastando o menos possível: meu eu-malaco. Comigo, para executar essa viagem digna de escritos de Kerouac até Goiânia em três dias, meu colega de trabalho Rafael Amaral viaja armado com celular e acesso à internet, sem me deixar desatualizado de toda piadinha engraçada circulando na internet. Nosso trabalho era cobrir a invasão catarinense ao principal festival de música independente de Goiânia, quiçá do Brasil.

O ponto de partida é Campinas, em um posto de gasolina sem nome, parcialmente em obras, sem lojinha de quitutes, mas com uma gelada água de torneira e diversos caminhões estacionados ao lado de uma típica borracharia macabra do gueto. O lugar perfeito para ser esquartejado cinematograficamente em uma noite sombria. Para sair dali, a melhor forma era pedindo ajuda aos caminhoneiros antes de anoitecer.

– Tô indo pra garagem, senão eu dava carona, sim. – responde o primeiro, em nossa abordagem de descabaço.

– Estou parado, meu filho. Não tô subindo pra lá, não. – diz outro caminhoneiro com ar de desconfiança ao ser abordado por dois magrelos como nós.

– Amigo, tenho dois dias aqui esperando a ordem do patrão, vou pra onde ele mandar – disse um homem enrugado simpático, porém inútil para nós.

Esgotados os caminhoneiros, restava a rodovia mais movimentada que vi na vida. Mal há acostamentos para exibir a placa anunciando que ali era Uberaba, que os motoristas mal devem conseguir ler. Ou talvez custem a acreditar que dois caras estão pedindo carona naquele lugar. Melhor se fôssemos a pé.

Depois de horas em caminhada sem destino, chegar a Hortolândia era o sinal da derrota anunciada por meu amigo cachaceiro. Sessenta contos e alguns centavos depois, estávamos em Uberaba com banho e pouso garantido na casa de um amigo, criativamente chamado de Mineiro.

Depois de horas em caminhada sem destino, chegar a Hortolândia era o sinal da derrota anunciada por meu amigo cachaceiro. Sessenta contos e alguns centavos depois, estávamos em Uberaba

Em Minas, tínhamos boas perspectivas para a viagem. Nosso amigo havia agilizado uma festinha rockabilly em um pub da cidade, o que soava animador por ser uma boa possibilidade de encher a cara e conhecer as mulheres do triângulo. Mineiro inclusive fez propaganda da gente para suas amigas, mas provavelmente nenhuma se interessou, afinal, a festa não tinha mais do que 15 pessoas. No outro dia, ganhamos de presente uma ressaca brava, tradição entre os neo-bandeirantes pós-modernos dos acostamentos brasileiros. Neosaldina com Coca-Cola goela abaixo e fomos descolar uma carona com brutamontes da estrada cheios de histórias para contar em um posto de gasolina cheio de caminhões e restaurante alto naipe.

Enfim, o máximo que conseguimos foi dar uma voltinha com um caminhoneiro paranaense até uma padaria para beber meia dúzia de cervejas Cristal. Boa hora pra dar tchau.

A terra dourada do noise

Oitenta e dois contos e alguns centavos depois, estávamos na rodoviária de Goiânia, prontos para o Goiânia Noise Festival, um dos festivais de música independente mais importantes do Brasil e que parece não ter honrado o título nesta 18º edição. Alguns shows foram tocados para praticamente ninguém, o que causa certa estranheza em uma cidade do tamanho de Goiânia. Difícil acusar a febre futebolística ou o maior congresso de empreededorismo digital do mundo como ladrões de público dos alternativos goianos. Vou mais na tese do taxista, representando uma classe sempre bem informada:

– Nínguém está sabendo deste show aqui não – de fato, malemal se falou do festival nos jornais. De rock, as manchetes destacavam o show do Capital Inicial na capital do Brasil.

Perto do Centro Cultural Oscar Niemeyer, local dos shows, pessoas não faltavam em um Shopping Center, a verdadeira febre da cidade. Cheguei a supor que o projeto do complexo de compras era mais enxuto, uma falsa impressão causada pela superlotação do local, provavelmente agravada com a queda de periódicos pés d’água.

Mas se roqueiro não tem medo de chuva, também não tem de pouco público. Principalmente se você veio de Santa Catarina, a quase 1500 km dali. Para botar os serranos pra balançar a cabeça, a SIC Music, selo musical responsável por essa invasão catarina, levou até o cerrado brasileiro as bandas Mapuche, Atomic Mambo All-Stars, Motel Overdose e Skrotes. A nós, cabiam os papéis de filmar seus shows e vender seus álbuns na pouco usual banquinha da SIC.

Para botar os serranos pra balançar a cabeça, a SIC Music, selo musical responsável por essa invasão catarina, levou até o cerrado brasileiro as bandas Mapuche, Atomic Mambo All-Stars, Motel Overdose e Skrotes

A recepção das bandas catarinenses foi muito boa, quando efetivamente houve; como no caso do Mapuche, que tocou na primeira noite do festival para um público minguado no teatro de capacidade para mais de mil pessoas. Apesar da atmosfera litúrgica, o mundo encantado de Isaac, Cisso e Carlão soou como um chamado das trevas. Chegou a empolgar o espectador mais satânico do festival, um mórbido poeta de alcunha From Hell, dono de uma loucura performática ao declamar um de seus três poemas, sugestivamente chamado de 666.

– Seis, Seis, Seis, no meio da sua testa. Está na hora de começar a festa.

A folia do Atomic Mambo All-Stars contou com ainda menos público que o introspectivo trio barbudo. Nada que abalasse Edu K e as estrelas jocosas do hip-hop fanfarrão, psicodélico e altamente experimental em show com encenação de exorcismo e sexo cenográfico no palco. A crítica aprovou. A espectadora também:

– É uma confusão esse som, mas até que gostei.

É noise! Os aplausos mais efusivos para os manés ficaram para o último dia de festival, que contou com bandas novatas no line-up, ao contrário dos primeiros dois dias, que contaram com nomes mais rodados como Boom Boom Kid, Karina Buhr, Lirinha e Autoramas.

O rock pé-no-chão e de bar do Motel Overdose levou tão a sério a invasão catarinense que colocou toda a caravana catarina em cima do palco para cantar uma homenagem ao cabeleireiro da banda, o supracitado Leandro Fama. Ele corta o cabelo, corta o cabelo pra caralho! Apresentaram no show seu primeiro álbum-magazine, lançado pela SIC Music neste outubro. Uma lindeza de encarte cheio de pornografia, referências transcendentais psicodélicas e escatologia ilustrada.

Aos Skrotes, sobrou um inesperado protagonismo na matinê do rock, devidamente saboreado pelo público que, em boa parte, ainda trajava espinhas na cara. Alguns bons e necessários paradigmas foram quebrados na cabeça de adolescentes que ali estavam esperando ansiosamente e uniformizados o encerramento do festival com um inédito tributo ao dinossauro KISS. O que parecia impossível, misturar Iron Maiden com música cubana e fusion instrumental de quilate, acabara de se materializar em suas frentes e gritar em seus ouvidos.

Depois de cinco dias de estrada, só queria voltar para casa. Mas como na moda de viola, deixei Goiânia com vontade de voltar. Para meu eu-malaco faltou perseverança; só muito tempo, desapego e disposição para viver apenas de cigarros em um chão gelado à espera de uma carona para qualquer lugar podem efetivamente proporcionar a aventura de Sal Paradise que gostaria de contar.

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