RODRIGO, UM TRILHEIRO

[Fotos: Rodrigo Dalmolin]

Amigo de quem abre matos a facão, Rodrigo Dalmolin tem informações que o Google desconhece e lembra de quanto mato é feita Florianópolis.

Leia abaixo a versão completa de entrevista com ele – originalmente publicada no Guia Naipe de Verão 2013.

Naipe – Qual a trilha fácil e recompensadora mais ignorada da ilha?

Rodrigo Dalmolin – Trilha do Jacatirão. O início fica junto à sede (abandonada) da Unidade de Conservação Ambiental Desterro. A trilha é curta (cerca de 2 km), de fácil orientação, sinalizada e adaptada com degraus de madeira ou pedra em vários trechos. Dura cerca de uma hora e tem um mirante na encosta do Morro Ribeirão das Pedras de onde é possível avistar a baía norte (do Maciço da Costeira até as duas ilhas de Ratones). Quem gosta de fortes emoções pode se aventurar numa trilha secundária, cuja placa, que parece saída de um filme de terror, diz Trilha do Mayke. Na volta, um banho de mar em Cacupé (ali pertinho) para tirar a poeira e o suor é bem-vindo. Jararacas podem dar o ar da graça. Convém ficar atento.

Naipe – A prefeitura deveria manter sinalizações nas trilhas principais?

Rodrigo – Uma das promessas do prefeito eleito é justamente “investir na demarcação das trilhas de turismo de aventura, com a aumento de segurança e acessibilidade”. As principais trilhas possuem um forte apelo turístico, daí o interesse na sinalização. Entretanto, não existe qualquer projeto num sentido mais amplo de conservação deste patrimônio. E a conservação é mais importante que a sinalização. Neste sentido, o que vemos são ações pontuais. Um exemplo: a Trilha da Praia de Naufragados a Solidão. Um dia cheguei a ir pelo costão, tão ruim estavam certos trechos entre a Ponta do Frade e o Saco da Baleia. Este ano, graças à mobilização do pessoal da região realizou-se, enfim, uma boa limpeza da trilha.

Naipe – Novas trilhas continuam sendo abertas? Quais as maiores motivações para abri-las?

Ainda há muitas cascatas, pedras, cavernas etc. aguardando por trilhas, mas o que preocupa é o desaparecimento de outras

Rodrigo – Novas trilhas são abertas pelos mais diversos motivos: captação de água nas encostas dos morros, caça ou extração de palmito ilegais, até caminhos de boi abertos pelos próprios. Segundo Ademar, lá do Morro do Assopra, ele próprio abriu duas das trilhas secundárias do Caminho do Travessão que levam à Pedra do Visual e à grande Figueira, dois dos principais atrativos do caminho. Ainda há muitas cascatas, pedras, cavernas etc. aguardando por trilhas, mas o que preocupa é o desaparecimento de outras. Recentemente, o grupo “Loucos por Trilhas” desejava refazer a primeira trilha feita pelo grupo, mas teve que mudar de planos por conta do estado crítico de um trecho. Até trilhas presentes nos dois principais livros sobre o tema aqui na Ilha se perderam: Trilha da Fortaleza da Barra ao Costão da Galheta, Caminho do Saquinho à Caieira da Barra do Sul (em suas duas opções!), Caminho do Sertão do Ribeirão à Tapera do Ribeirão. Entretanto, o principal motivo para o desaparecimento das trilhas continua sendo a falta de uso. Muitas trilhas hoje perdidas eram caminhos de ligação que perderam o seu sentido no mundo atual.

Naipe – Quais os pontos mais distantes da Ilha que podem ser percorridos pelo mato?

Rodrigo – Um grande número de trilhas se cruza de tal modo que é possível costurá-las, percorrendo grandes distâncias. No livro Trilhas e Caminhos da Ilha de Santa Catarina, a trilha mais extensa (8,2 km) é da Coruja Buraqueira, que liga as Dunas da Lagoa da Conceição à Lagoa Pequena. Contudo, o Caminho da Costa da Lagoa (que no livro aparece com 6,6 km) pode ser estendido até o Rio Vermelho, passando próximo da Praia do Saquinho e cumeeira do Morro do Tijuco, alcançando, ao fim, cerca de 13 km. A Trilha do Monte Verde até a Lagoa (via Travessão) conta com aproximadamente 9,5 quilômetros. Além da extensão, outros fatores contribuem para tornar uma trilha leve ou puxada (tipo de terreno, subidas ou descidas gradativas, temperatura, vegetação, até companhia).

Naipe – Há muitas pessoas fazendo trilhas fora do circuito básico, como você?

Dificilmente uma dessas trilhas [de grupos] ocorre fora do circuito básico, e não é por falta de atrativos naturais das trilhas fora desse circuito

Rodrigo – Não, até por isso poucas trilhas são abertas e muitas perdidas atualmente. E não é por falta de “trilheiros”. Os três principais grupos de Florianópolis no Facebook contam com mais de mil membros cada. Qualquer trilha promovida por um desses grupos junta facilmente 20 pessoas. A questão é que dificilmente uma dessas trilhas ocorre fora do circuito básico. Não é também por falta de atrativos naturais das trilhas fora desse circuito. O visual a partir do Morro do Matadeiro (aquele mesmo da praia) é de encher os olhos, mas a maioria dos trilheiros sequer sabe que a trilha existe. O mesmo vale para a trilha entre o Saco Grande e a Costa da Lagoa, com sua cascata, e para a trilha da Ponta da Galheta, com suas inscrições rupestres. Todas essas trilhas estão bem próximas ou mesmo cruzam as principais do circuito tradicional.

Naipe – Quais os melhores momentos de um dia dedicado a percorrer Florianópolis pelo mato?

Rodrigo – No geral, os melhores momentos são aqueles que rendem histórias pra contar. São os momentos que fazem da trilha uma experiência de vida vivida. Para alguns, tais momentos passam pelo convívio da companhia, para outros pelo simples contato com a natureza. Há quem veja na superação dos obstáculos um dos melhores momentos. Outros ressaltam os atrativos naturais. Já na Ilha especificamente, os melhores momentos são aqueles em que dizemos, ainda que em silêncio, o que diz a canção: “Jamais a natureza / reuniu tanta beleza”. Trilhas com cavernas, dunas, morros, pedras, riachos, pontas, costões, praias, lagoas, lagunas etc. Uma vez estava numa das pontas da Trilha Brava/Ingleses (que não é a da Feiticeira, aquela pelo costão) quando deparei-me com uma calcinha vermelha pendurada nos arbustos. Como a trilha contorna a face oeste do Morro das Feiticeiras, não pude deixar de sorrir pensando: há magia por aqui. Nada mais natural já que estamos na Ilha Magia. Magia não falta na Ilha, inclusive nas trilhas.

Naipe – Pode recomendar duas trilhas bastante específicas para os leitores do guia?

Rodrigo – A primeira trilha é para aqueles que não conhecem ainda a ilha. É a Trilha do Monte Verde/Lagoa via Travessão, saindo pela manhã do Monte Verde. O sol no leste garante uma ótima visão do oeste a partir da Pedra do Urubu, que deve ser “escalada”. Diz-se que à noite já foi avistado até boitatá por lá. A trilha cruza o Rio Valdik, onde cachoeiras convidam a um bom banho. Se o calor pedir, não resista. A caminhada morro acima é extensa. Logo, não se deve ter pressa. A trilha percorre a cumeeira de morros em meio à Mata Atlântica em avançado estágio de regeneração. Por vezes é possível avistar macacos cruzando as árvores. Três voltas em torno da grande figueira rendem um desejo. Por fim, a Pedra do Visual garante a melhor vista em terra firme da Lagoa da Conceição, que por si só já é maravilhosa. Neste ponto convém o sol já estar no oeste. Por isso, novamente, não tenha pressa. Uma parada para almoço e descanso é bem-vinda. Seguindo a trilha pode-se optar por ir à rampa desativada de onde é possível ter uma nova vista da Lagoa formosa. De volta à estrada de chão a caminhada segue até o Mirante da Lagoa. O ideal é descer de carro ou ônibus o morro das sete curvas para enfim tomar um banho.

A segunda trilha é para aqueles que já conhecem a Ilha. Não sei se a trilha tem nome, mas foi aberta e é assim mantida pelos pescadores do Pântano do Sul(i). A trilha segue junto ao costão esquerdo da praia até uma falésia. No trajeto é preciso descer o costão para atravessar uma praia de pedras onde a trilha recomeça. Logo, não é recomendável para pessoas com vertigem. Além do visual maravilhoso, a trilha passa, literalmente, sobre três cavernas marinhas ao menos, podendo chegar a seis. Dependendo da altura da maré e das condições do mar, principalmente, é possível explorar algumas delas. Uma das maiores e mais bonitas possui cerca de 33 metros de extensão com 10 metros de altura a entrada. Nela um casal de urubu costuma colocar os seus ovos. Como as cavernas ficam próximas é possível visita-las em sequência (embora seja cansativo a descida e subida nos costões). Por fim, na volta, para quem ainda tiver pique (o que é difícil), na Ponta do Marisco existe outra caverna marinha. Nela as pedras sussurram ao sabor das ondas.


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