Na rua sassaricandocapa

Publicado em novembro 22nd, 2010 | por Rosielle Machado

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SA-SSA-SSSARICANDO

Nem tudo é tão divertido e higiênico quanto poderia ser: às vezes o ônibus quebra, um caminhoneiro assanhado surge no banheiro mais próximo e nenhum chuveiro aparece em 72 horas de estrada.

Viajar às custas da universidade tem seus perrengues e alegrias, mas no fim das contas vale pela chance de sassaricar Brasil (e América do Sul) afora pagando, no caminho, apenas o lanchinho da rodoviária.

A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) da UFSC, que avalia os pedidos de ônibus, quase não dá conta do entra e sai de alunos atrás de financiamento para as viagens. Por mês, estima gastar algo entre R$ 100 mil e R$ 300 mil. Em setembro, foram 104 pedidos de passagens individuais ou de ônibus fretados para lugares como Manaus, Córdoba, Natal, Campos do Jordão, Gramado e Recife.

Mas nem sempre o percurso é lindo. Você pode sair de Santa Catarina num dia e só ter contato com água-sabonete no Tocantins, dois dias e 2336 km depois, em um chuveiro muito semelhante a uma baia de cavalos. Em quatro anos de viagens pela Geografia da Udesc para eventos em Belém, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Montevidéu, Cauê Marques passou por esse tipo de coisa. “É uma experiência bem antropológica”, reflete. “Faria de novo.”

Há quem continue fazendo. Everson Martins se formou há um ano em Arquitetura na UFSC e hoje faz mestrado, mas segue aproveitando as oportunidades. De tanto frequentar o Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura (o Enea), recebeu a alcunha de Eneverson. Com a experiência de 31 encontros em nove anos, fez até TCC sobre o assunto. “Foi o terceiro trabalho de conclusão de curso sobre isso”, diz, orgulhoso do quase ineditismo da sua ideia no Brasil (quiçá no universo). Tirou 8,5.

A transformação de Everson em Eneverson aconteceu durante a primeira viagem com o curso. Rumo a João Pessoa em um ônibus pago pela UFSC, se emocionou ao perceber que o mundo era maior do que supunha – e o transporte subsidiado, mais comum do que imaginava. Depois disso, aproveitou todas as possibilidades de viajar para encontros regionais, nacionais e latino-americanos.

Mesmo diplomado, ainda usufrui dos arregos. Em outubro, participou do Elea (Encontro Latino de Estudantes de Arquitetura), em Brasília. Com transporte pago pela UFSC, Everson e outras 39 pessoas saíram de mochilas nas costas, álcool nas sacolas e planos de gastar menos de R$ 150 em uma semana.

Hum, congresso?

Às vezes, pena-se para conseguir o financiamento. Além da burocracia, de vez em quando é preciso recorrer à ousadia para fazer a viagem acontecer. Para irem ao Encontro de Geógrafos da América Latina 2009 em Montevidéu, estudantes e professores da Udesc agiram em conjunto. Por lei, a universidade estadual não pode pagar viagens para fora do país. Logo, o ônibus foi gratuito até o Chuí e custou R$ 50 por pessoa até Montevidéu.

“Acho que sou um profissional melhor depois das viagens. Óbvio, turistei pra caralho, conheci lugares paradisíacos, mas também participei dos eventos, troquei informação e assisti palestras”, anima-se Cauê Marques.

“É um dinheiro bem empregado [pela universidade], porque pra muita gente é a única forma de viajar”, argumenta Everson. “Pra mim foi fundamental, ainda mais porque Arquitetura é muito visual, você tem que conhecer as coisas e não só ver fotos em revistas”.

Não é à toa que a Arquitetura tem fama de ser o curso que mais viaja na UFSC. Na sexta fase, qualquer aluno já teve a chance de visitar, só em saídas de estudo, cidades como Curitiba, Porto Alegre, São Paulo e Buenos Aires.

A capital argentina é um dos destinos mais requisitados. Os cursos de Design e Psicologia da UFSC têm caravanas anuais para congressos por lá. Hum, congresso? “Ah, eu participei um dia…”, confessa a estudante de Psicologia Allyne Barros, que encarou 36 horas de ônibus no ano passado. Foram R$ 500 com hospedagem, alimentação, turismo, táxi, compras. Se tivesse financiado também o próprio transporte, teria gasto cerca de r$ 400 a mais com ônibus ou R$ 550 com avião.

“Só não vou este ano de novo porque tenho muitos trabalhos do curso, não posso perder uma semana de aula”, suspira Allyne, que na garupa da UFSC já foi também para o Rio de Janeiro e São Paulo – onde, aí sim, participou dos eventos e mostrou-se uma acadêmica exemplar.

Mas em Buenos Aires, ah!, em Buenos Aires. “Fui no último dia só pra pegar o certificado e o convite pra festa de encerramento”, conta um aluno do Design, sem acanhamento. E quem o condena?

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*Esta matéria foi publicada originalmente publicada na Naipe 4. A revista, que circula em Florianópolis, Balneário Camboriú e Itajaí, também pode ser lida online. Clique aqui.

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Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



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