Na rua amydentro

Publicado em janeiro 10th, 2011 | por Revista Naipe

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SEM COMPLACÊNCIA

Sem complacência. Nada de elogios forçados para apaziguar nossa instável auto-estima, eu amo o Brasil, alô Floripaaa e assim por diante. É um dos aplausos merecidos por Amy Winehouse.

Sim, ela veio, e não, ela não estava completamente travada, como no Rock in Rio Lisboa, em 2008, afastando os dois maiores temores do público. Foram 70 minutos de show. Instrospectiva, Amy deu algumas saídas do palco, esqueceu alguns versos e deixou sua banda assumir a apresentação em três momentos – além de confundir, por um segundo, uma garrafa de água mineral com o microfone. Como diz a consagrada última frase do filme Quanto mais quente melhor, clássico de 1959, ninguém é perfeito.

“A voz dela toma tudo, todos os cantos”, falou informalmente para a Naipe o colunista da Contracapa do Diário Catarinense Marcos Espíndola, abrindo os braços e resumindo muito bem uma das sensações de se ouvir Amy ao vivo. “Ai que nervoso!”, disse uma loira de rabo de cavalo à espera do show. “Eu não acredito!”, disse uma jornalista, os olhos lacrimejantes, quando a inglesa entrou. Foi realmente foda. Amy Winehouse realmente estava aqui. O show marca sua tentativa de retomar a carreira. Quase cem jornalistas, incluindo até correspondente do El País, foram credenciados.

Pouco depois de emocionar a horda com Back to Black, Amy mandou cerca de 20 minutos de músicas lentas que deixaram o público entre confuso e constrangido. Mais eis que Rehab deu novo fôlego ao show, e assim a coisa toda foi, oscilante mas sem dúvida valendo a pena, até o final.

“Que escroto!”, sorriu empolgado no meio do show um recifense amigo da Naipe. Em Recife, o adjetivo é muito usado para se dizer o contrário do que aqui no sul. Significa que algo é muito bom.

Gravata borboleta

A atmosfera de espera pela inglesa era boa. No que viu o cantor norte-americano Mayer Hawthorne de óculos de grau quadrados e gravata borboleta, a perfeita caricatura do goiaba, a Naipe se perdeu em devaneios. Se recebe grandes nomes da eletrônica, Florianópolis não vê corriqueiramente Amy, Kings of Leon e seus equivalentes em outros gêneros musicais. Dessa perspectiva, um sujeito excêntrico como Hawthorne cantando soul parecia a melhor das aparições. Bela iniciativa, trazer gente como ele e Amy. Quem sabe não nos tornamos uma ilha musicalmente mais plural?

Hawthorne não liquidificou o Stage Music Park inteiro, mas sacudiu muitos braços e foi bastante aprovado – ele cantou as músicas do seu único mas elogiado álbum, A Strange Arrangement, de 2009. De minissaia jeans, a gaúcha de 28 anos Stella Loro, uma versão mais bonitona de Letícia Spiller, estava amarrada no show. As músicas a lembraram sons que escutava quando morou na Califórnia. Sua cisma só foi justamente para o figurino do cantor: “Ele podia estar mais despojado, tirar essa gravata borboleta ridícula, o blazer, a camisa pra fora da calça”.

– Você é consultora de moda?

– Não. Administradora.

Logo em seguida, Mayer tirou o blazer. Diferentemente de Amy, ele superestimou o inglês do público puxando conversa ou monologando na língua nativa em diversos momentos.

Supimpa

Tanto a noite era de soul, que a pista da Pacha, mesmo com colagens eletrônicas porretas como “At night” com “Song 2” e outras, não roubava quase ninguém do espaço aberto.

Janelle Monáe entrou. Chegou eletrificada, com voz e passos remetendo a algo do Jackson 5. Depois intercalou ao seu suingue ensandecido músicas lentas, inclusive uma meio Celine Dion, que uma loira curtia de olhos fechados e braços ondulantes. No geral, um show supimpa.

E veio Amy, e se foi. Um diálogo de três manezinhos no mictório ao final da apresentação resumia a madrugada.

– Não é que a maluca veio? – disse o primeiro.

– Pois é. Mas só uma hora e dez de show é deselegante – resmungou o segundo.

– Ah, é? E a Macy Gray, que quando veio cantou duas músicas? – lembrou o terceiro.

 

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2 Responses to SEM COMPLACÊNCIA

  1. rodrigo says:

    Como disse um negin do meu lado, gostei da “janela”, excelente presença de palco, músicos de gabarito, fortes influências de james brown, michael jackson, parliament, porra, é o q a gente precisava depois daquele show sem tempero do nerd. A Amy fechou morna, mas valeu.
    Revista tá massa. Tchau.

  2. Meyer says:

    Não sei se concordo sobre o parente (Mayer) “superestimar” o inglês, ao menos ele tentou uma conversa com o publico! A historinha do aeroporto arrancou varias risadas, eu recebi muitos questionamentos de “quem é ele” (penso que eu era uma das poucas pessoas cantando as musicas dele) “qual o nome mesmo”. Durante e depois da “The Ills” mesmo foram no minimo 10 pessoas que vieram saber quem era o “nerd” que cantava e contagiava!

    A Janelle entrou muda e saiu calada, show pesado, coisa demais no palco, dançou sacudiu e acabou até ferrando o topete.

    E a Amy veio.. já é muito!

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