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Publicado em outubro 31st, 2012 | por Léo T. Motta

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UM UFSCTOCK MUTANTE, MAS COM IDENTIDADE

[Fotos: Stefano Maccarini]

Sempre e tão lenta cresce a aconchegante grama dos mil e um gramados da universidade, sempre e tão rápido as coisas acontecem, ano após ano.

Os pés no chão, descalços. Por não mais que dez minutos ou o dia inteiro. O som toca; por vezes ao fundo, n’outras o palco é logo ali. E a cerveja é barata, a música boa e as pessoas, em geral, ótimas companhias. Ambientes assim, como nas famosas festas da UFSC, abertos ao público ao preço de sua mera presença, podem ser realidade até cotidiana para muitos. Muitos amigos meus, que nesse contexto estudam e moram, inclusive.

O Ufsctock nasceu oficialmente em 2009, comemorando os 40 anos de Woodstock, e muita coisa mudou desde então. Essa característica mutante trouxe ao festival uma cara própria, identidade visual de valor, artes mil, cobertura colaborativa, mídia livre, exposições de arte, exibições audiovisuais, público fiel e, seguindo o slogan da edição passada, muita mistura. A ocupação do espaço público com cultura é a cola de tudo isso e promove uma festa não apenas festiva, mas plural e de dar orgulho. Festa essa que, ainda com cortes de apoio financeiro da reitoria, se manteve firme e emplacou neste ano mais uma sensacional aparição.

A edição de 2012 ocorreu agora, entre os dias 25 e 28 de outubro. Algumas atividades foram oferecidas durante a semana, na quinta e na sexta, quando o turista aqui ainda não estava na ilha. É o caso das peças Nijinski e Circo Voador, além de mostra de curtas e oficina com o grupo Mais Um Grupo De Dança. Os dez shows foram divididos entre sábado e domingo, quando milhares de pessoas habitaram a Praça da Cidadania. A estrutura montada cobria uma boa porção de cabeludos, mães, hippies, hipsters e pessoas bonitas em geral que ali se faziam presentes. Só no primeiro dia passaram pelo Ufsctock 4500 pessoas, de acordo com Gabriel Portela, um dos organizadores e idealizadores do festival; no domingo, mesmo com eleição e ressaca, estiveram por lá cerca de 3500, totalizando o incrível público de 8000 espectadores.

Fui, Vi e Venci (ou “Fui, Vi e Voltei”)

“Pra galera que já fez a cabeça, pra galera que ainda tá fazendo, trago um chamado! Movimento coisa linda, Ufsctock 2012, abrindo os trabalhos de sábado em poucos minutos!” – anunciou o caricato e pornograficamente genial Vina, frontman da banda Da Caverna e agitador oficial de muitos dos eventos que ocorrem na UFSC. A hora e o clima eram mesmo propícios pro ajuntamento social que se estendia pelas redondezas, mas logo, e meio que timidamente, o público começava a ocupar a frente do palco.

Greek Van Peixe abriu a programação musical do sabadão com um som esquisito: guitarras limpas, sintetizadores não tanto. Era algo de indie rock lenhador com música 8-bit, de videogame antigo; divertida e interessante. Deram sequência à escalação Os Skrotes, banda revelada no próprio Ufsctock em 2010. Ouro da casa, não deixaram por menos ao executar temas novos, outros não muito, e até passear pelas famosas versões subversivas que fazem de clássicos como Sublime e Black Sabbath. Logo após – e ágeis na troca de palco, favorecendo a pontualidade do evento – tomaram conta do palco os Lenzi Brothers. Três irmãos, como o nome sugere, que destilam rock puro, direto e em português. Na ocasião foram acompanhados, ainda, pelos mestres Rubão Azevedo no saxofone e Galeno de Castro na percussão, grande adubo para as guitarradas da banda.

A programação do primeiro dia de shows fechou com a dobradinha Seu Bené e Karol Conká. Tudo que conhecia da primeira era a embalagem do CD, em formato de caixa de cereal. Até onde lembro, o som funcionou muito bem para o público presente; algo como o encontro de Red Hot Chilli Peppers, Raimundos e Paralamas do Sucesso em um boteco chique da Rua Augusta. Já a MC – procede o título, produção? – Karol Koncá acabou sendo a decepção da noite. Headliner de festas do Creator’s Project, aposta do VMB 2011 e autora conjunta de um dos maiores sucessos do rapper Projota, era de se esperar qualquer coisa de insano desse show. Mas não. Apesar de contagiar boa parte do público, a pobreza das composições e do arranjo, que contava apenas com sua própria voz e o MacBook do produtor, despencaram a vibe de muita gente. Fez bater saudade de headliners fora-da-caixa, ainda que no rap, como foi o caso de BNegão e Criolo nos anos anteriores.

Domingo

Três da tarde era a hora para ambos os dias, mas um primeiro atraso jogou os horários 60 minutos à frente. O supracitado TRE interviu, também, pra garantir que a festa só começasse às 17h, por questões eleitorais, até porque na UFSC há zonas de voto. Perto do fim da tarde a festa começa, com Sonora Parceria ocupando o palco. Um coletivo de músicos profissionais, a maioria já figurinha carimbada no excelente Festival de Música de Itajaí, fez seu show um tanto quanto bizarro. As vocalizações e parte dos temas chegavam a assustar um pouco, mas o produto final foi inquestionável e muito rico artisticamente. Deram lugar no palco à Enfuga, banda catarinense que chegou a tocar no SWU e integra O Clube, ajuntamento de bandas da ilha que trabalha na construção da cena em que figura. Um show de estética forte, mas música nem tanto. Os garotos têm talento, dá pra ver, mas fazem o tipo de música que não me entra na cabeça em 2012.

Uma das gratas surpresas deste Ufsctock subiu ao palco já com o céu escuro, vinda direto de São Bento do Sul. Hutzpah, apesar do nome esquisito, é uma banda afiada e irreverente, que até motosserra trouxe ao palco. O crossover geral que tocam também bateu muito bem com as vibrações do público, que dançou adoidado ao longo do show. Logo mais viria outra surpresa, ainda mais grata, que é o trio de rock O Terno. Pode-se dizer que o som da banda em estúdio é exatamente o que se esperaria de uma banda roqueira e paulista com esse nome, mas não se pode dizer o mesmo da apresentação impecável que fazem ao vivo. Com domínio da dinâmica de palco, os três músicos não trajaram ternos em nenhum momento mas surpreenderam com excelentes e fritos solos de guitarra, além de breaks extendidos típicos do final dos anos 60.

Vale um parágrafo inteiro para a apresentação do Macaco Bong, que encerrou a última noite do festival. Assisti cerca de 80% dos shows que a banda fez em terras catarinenses, cultivando amizade com os membros e acompanhando, consequentemente, mais de perto a trajetória do trio. Além da mudança de ares constante que já os levou a morar em Cuiabá, São Paulo, Belo Horizonte e até Porto Alegre, fica difícil não notar quão afiados, como músicos, são Bruno Kayapy, Gabriel Murilo e Ynaiã Benthroldo. Munidos da responsa de encerrar um festival do quilate do Ufsctock, não restou preconceito em pé quando a porradaria instrumental saiu gritando pelos falantes. Ouvi do Gabriel que a estrada, os ensaios e os shows dão muito gás ao Macaco Bong, e nessa turnê de lançamento do álbum This Is Rolê foi chegada a hora de queimar um pouco dessa energia. Um pouco não, muito. E sempre. Mais um baita show pra fechar com chave de ouro esse fim de semana lindo na ilha.

Mais

De estrutura, aponto apenas uma baixa, considerando que usufruí de quase tudo que o festival oferecia. Faltavam lixeiras, especialmente perto do palco. Mas se até a Volvo Ocean Race, no auge de sua proposta sustentável, ouviu essa reclamação, de duas uma: ou o problema é recorrente ou somos sedentários demais. Por via das dúvidas e pra contribuir com a limpeza (e lindeza!) do evento, carreguei comigo cada uma das doze mil latas de Bavária Premium que bebi até encontrar uma lixeira. Como falta de lixo não acaba com a festa de ninguém, e agradeço fortemente por isso, nos vemos ano que vem! E que seja ainda melhor!

Leia mais aqui sobre a história do Ufsctock.

Veja abaixo outras fotos da última edição.


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Sobre o Autor

Cidadão da terra, não-jornalista e proto-publicitário, mais feliz longe de música depressiva e blues engraçadinho. Assistente de conteúdo d'O Sol Diário, assessor de comunicação da Casa de Orates e music supervisor nas horas vagas.



2 Responses to UM UFSCTOCK MUTANTE, MAS COM IDENTIDADE

  1. thiago says:

    melhor cobertura do Ufsctock!!!!! parabéns!!!! texto léo e fotos stefano animais!!!!

  2. Gabriel says:

    Irado ! Parabéns pela cobertura e pelas fotos !!!!

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