UFSCTOCK

[Por Iana Lua]

“Pode chegar mais perto. Vamô ficar suadinho aqui” – encorajava o vocalista da banda Da Caverna no maior festival de música independente de Santa Catarina. Ainda tímido, o público lagartixava nos gramados da UFSC, curtindo a recém-chegada primavera e aquela preguicinha de sábado à tarde de quem sabe que a noite vai ser longa.

O som começou às 14h e seguiu até meia-noite; no domingo, terminou ainda mais cedo, evitando ressacas na segunda. Em dois dias, 13 bandas passaram pelo palco montado na Praça da Cidadania na UFSC. A terceira edição do Ufsctock veio para liquidificar o cenário cultural da cidade.

Se no começo do sábado o público estava de boa, só curtindo o som, a potência das caixas denunciava que o festival pretendia ir além. Da Caverna logo agitou os sonolentos com suas letras explicitamente sexuais. Alguns ousaram se aproximar do palco, cantar junto, ensaiar uma dancinha. Um pai carregava a filha nos ombros.

Com a chegada da noite, a chuva deu o empurrãozinho necessário – todos correram para perto do palco, lotaram os 600m² cobertos e dali não saíram mais. Pularam ao som do hard rock do Motel Overdose, cantaram com o trio Variantes, encostaram na grade pra ver de perto o Rincon Sapiência.

Muita gente que estava em casa, claro, viu a água e preferiu não ir ao festival, que nessa hora estava com público mediano.

Dois metros

E aí veio Cassim & Barbária. Quem não conhece a banda pode escutar seu disco novo clicando aqui. No Ufstock, nada de versões perfeitamente idênticas às originais. The Orchard IDark Side Yoga e outras (também do primeiro disco do Cassim) foram tocadas um pouco diferentes, com outras pegadas e algumas economias de refrão.

Tudo isso deixou o show menos pronto pra consumo e motivou a Naipe a cantar junto, com a câmera pra cima. A coisa empolgou tanto em um certo momento que um magrelo de chapéu quase ficou tetraplégico. Ele subiu no palco e pulou no mar de braços alheios – mas os braços não eram muitos, o mar não era um mar e o magrelo caiu dos dois metros de altura em que nadava direto para o chão, quase de cabeça.

Muito louco, o rapaz levantou, ajeitou o chapéu, ignorou a dor e voltou a pular.

Depois veio Criolo. Muita gente gostou. Não existe amor em SP tem sua lindeza ímpar, Subirusdoistiozin, sua sonoridade impactante. Em termos de reinvenção musical, o rapper tem mérito talvez até sobrando. Mas em termos de letras, aquilo de sempre. A simplificação das críticas (“acostumado com sucrilhos no prato”, “e covarde são quem tem tudo de bom”) lembra muito um José Dirceu falando dazelite. Aquela velha ilusão de que existe uma metade do Brasil moralmente muito superior à outra, de que o simples querer crescer economicamente na vida é muito feio, que todos nossos problemas se resumem a um tumor localizado que precisamos arrancar.

“Preconceito de merda. Preconceito de meeeerrrda”, ficou gritando Criolo à certa altura do show.

Críticas genéricas, simplificações que sob marijuana e cachaça muita gente se emociona de cantar junto. Ou isso, tão da alma do rap, ou as letras de pegação ou românticas de outros gêneros. Está difícil.

A música acabou cedo, nada de empurra-empurra no bar e nada de confusão. “Dessa vez o pessoal veio para se divertir e ouvir o som”, se admira Ademir, segurança de longa data da UFSC.

Impregnar

Carros de cachorro-quente, vendedores ambulantes, banheiros químicos e álcool – todos os elementos indispensáveis em uma festa da UFSC estavam presentes. Mas dessa vez o bar perdia atenção para o palco, deixando bem claro que não se tratava de uma festa qualquer.

E a organização se esforçou para que assim fosse. “O Ufsctock não é uma festa, e por isso queríamos impregnar a UFSC com o clima de festival”, explica à Naipe Gabriel Portela, um dos organizadores do evento e membro do Cardume Cultural.

Ao longo de uma semana, de segunda a domingo (26/9 a 2/10), atrações de todos os tipos se espalharam pela universidade. Com o tema “Muita Mistura”, o Ufsctock pretendeu extrapolar a música e ser uma plataforma para a cultura independente no estado. Na mistura estavam peças de teatro, exposições, exibição de audiovisuais e discussões sobre arte e política.

O público respondeu à altura. Todas as apresentações de teatro tiveram lotação máxima. A Naipe assistiu Beatriz na quinta-feira à noite em meio às lágrimas da plateia emocionada. Nas plenárias, os presentes não se vexaram em fazer perguntas pertinentes e participar dos debates.

Só a pontualidade deixou um pouco a desejar nos eventos paralelos. Salas que não eram desocupadas, equipamentos emprestados que demoravam a chegar, os poréns de estrutura de quem ainda é 90% financiado pela universidade.

Mas por todos os lugares, com o dom da onipresença lá estava o pessoal da organização se esforçando para oferecer um evento gratuito e de qualidade. Entre os camisetas pretas estavam membros do DCE e do Cardume Cultural. O coletivo Fora do Eixo ajudou a trazer profissionalismo pro evento – é deles o site Toque no Brasil, utilizado para escolher as bandas entre as quase 500 que se cadastraram para participar do Ufsctock.
Massa

No domingo, o grupo Abayomi arregalou os olhos dos presentes com movimentos de dança afro e poderosa percussão. O estudante de História Joaquim de Melo ficou maravilhado em poder assistir a uma banda de sua terra natal – a paraibana Cabruêra. O clima de mistura extrapolou os palcos e foi parar na plateia, onde um grupo de hip hop ensaiava passos de dança ao som da banda de reagge Rutera.

“Se as pessoas saírem daqui com a sensação de ‘que massa que isso existe no Brasil’, eu já estou satisfeito”, diz Portela.

Missão cumprida.

 

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One Response to UFSCTOCK

  1. @RockCatarinense says:

    ótimo evento, que se repita mais e mais, podia rolar além do UFSCtock, o UdescTock heHehe

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