Na rua hitlermania4

Publicado em abril 8th, 2011 | por Revista Naipe

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USCA!

Basta uma rápida passada pelas livrarias para comprovar: além de uma biografia-tida-como-definitiva de 1024 páginas da Companhia das Letras, há mais livros sobre Hitler nas prateleiras do que de costume.

Só nas lojas do centro de Florianópolis a Naipe encontrou onze títulos em destaque, inclusive Mein Kampf, exposto ao lado de outros volumes históricos e embalado por um cauteloso plástico transparente.

Os exemplares de Minha Luta comercializados na ilha fazem parte de uma tiragem impressa até 2001, quando a editora responsável pela edição no Brasil, a Centauro, foi impedida de reimprimir cópias. A proibição veio dos detentores do direito da obra, o governo da Baviera, na Alemanha.

Já a comercialização dos exemplares é permitida. Se Mein Kampf está muito mais à venda em sebos virtuais do que em livrarias, isso se deve em parte à cautela de algumas lojas, em parte à dificuldade de se obter exemplares. A partir de 2015, no entanto, quando são completados 70 anos da morte de Hitler no seu bunker em Berlim, caem os direitos de propriedade intelectual e qualquer um poderá imprimir o livro quando bem entender.

Quem espera pela data é o dono da editora Centauro, Adalmir Cabarros, que acompanhou todo o desenrolar da proibição. Há anos ocorre uma briga entre a sua editora e a Federação Israelita: além do processo que responde pela antiga impressão, houve casos de retirada de livros das estantes de uma livraria paulista e denúncia de possíveis reimpressões. “Eles são poderosos”, afirma Cabarros.

Ele tem frequentemente, diz, que dar satisfações ao governo da Baviera sobre edições de Mein Kampf com aparências mais novas. Foi o caso, outro dia, na Bienal do Livro em São Paulo. Escaldado, Adalmir já havia tirado fotos do Mein Kempf à venda e terá de provar que se trata de uma edição antiga.

Se de um lado a federação israelita acusa a editora de imprimir um livro que dissemina ideologias racistas e perigosas, a editora alega ter interesse puramente profissional e histórico na obra Mein Kampf

Se de um lado a federação acusa a editora de imprimir um livro que dissemina ideologias racistas e perigosas, a editora alega ter interesse puramente profissional e histórico na obra. Em seu site, avisa que “em absoluto, não apoia nem respalda, por nenhum meio ou forma, a ideologia ou os conceitos doutrinários do autor [Adolf Hitler]”.

Em Florianópolis, a gerente da livraria que vende a obra, por um tempo colocada ao lado da biografia da Companhia das Letras, está distante do rebu por trás da coisa. “Não houve nenhuma reação especial das pessoas. Teve quem disse ‘legal’ e interessados em história compraram”, diz apenas.

Em outras livrarias da ilha, há destaque para títulos como Os Falsários de Hitler e Mein Kampf: a história do livro, mas falar em um livro escrito de próprio punho por Hitler causa tensão. Durante a reportagem, a Naipe perguntou a uma vendedora se a loja tinha Mein Kampf. Após um franzir de sobrancelhas, seguido de um discreto arregalar de olhos, a moça responde: “Não, moço. É proibido vender esse livro”.

Não é.

11 livros da hitlermania

1) Hitler, de Ian Kershaw (Companhia das Letras, 1024 pág., R$ 78)
2) O arquivo de Hitler, de Patrick Delaforce (Panda Books, 200 pág., R$ 32,90)
3) Cartas para Hitler, de Henrik Eberle (Planeta do Brasil, 480 pág., R$ 49,90)
4) Os falsários de Hitler, de Lawrence Malkin (Ediouro, 264 pág., R$ 46,90)
5) Lenin, Stalin e Hitler, de Robert Gellately (Record, 798 pág., R$ 82,90)
6) Guerreiros de Hitler, de Guido Knopp (Zahar, 332 pág., R$ 59)
7) Mein Kampf: a história do livro, de Antoine vitkine (Nova Fronteira, 227 pág., R$ 48,90)
8) Para entender Hitler, de Ron Rosenbaum (Record, 644 pág., R$ 62,90)
9) Os ditadores, de Richard Overy (José Olympio, 840 pág., R$ 89)
10) No bunker de Hitler, de Joaquim Fest (Ponto de Leitura, 216 pág., R$ 14,90)
11) Mein Kampf, do próprio bigode lunático (Centauro, 510 pág., R$ 75)

A Companhia das Letras permite ler trecho da biografia escrita por Ian Kershaw. Clique aqui para acessá-lo. E clique aqui para saber mais sobre a publicação de Mein Kampf nas décadas de 1920 e 1930.
*A Naipe pede aos eriçados que não confundam registro jornalístico com opinião. Há um fenômeno e nós o reportamos, mesmo sendo completamente avessos não só a Hitler como a qualquer sobra de manifestação a favor das suas ideias facínoras e delirantes. Convidamos os leitores a discutirem saudavelmente o fato de que há vários livros sobre o ditador em destaque nas livrarias. Lembramos ainda que, à parte o infame Minha Luta (adquirido desde sempre, oficial ou clandestinamente, por pessoas com interesses escusos ou apenas interesse histórico), os outros livros citados acima são fortemente críticos a Hitler e ao nazismo – ou mera descrição histórica neutra da época em questão.

 

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Sobre o Autor



7 Responses to USCA!

  1. Marco Zimmermann says:

    Não vejo problema na leitura destes livros, pois acredito que muitos o lerão para obter maior conhecimento sobre o assunto, sem utilizá-lo como fonte de inspiração ideológica.
    Assim como um ateu lê a Bíblia, o objetivo muitas vezes é entender aquilo que não aceitamos ou até repudiamos.
    Se uma pessoa é facilmente influenciável a ponto de se inspirar com a leitura do livro, ela não deveria nem ver tv, portanto não adianta querer proibir estes tipos de livros…

  2. Gustavo says:

    eu ainda acho que a naipe poderia ter escrito sobre qualquer outra coisa…

    o simples fato disso http://www.youtube.com/watch?v=oXNqJSTv1BQ — existir ainda nos dias de hoje é um absurdo por si próprio… o que estes tipos de pessoas fazem da vida? não trabalham, ficam bebendo cerveja e lendo o mein kampf? Fora que há tantos zilhões de bons livros (independente de gosto pessoal, sempre tem) que poderiam ser divulgados..

  3. Thiago Momm says:

    Estive em Berlim em 2009 e me chamou a atenção a maneira como os alemães encaram a questão toda do nazismo hoje. Ao final da Segunda Guerra, os aliados os colocavam para assistir a documentários que demonstravam os absurdos nazistas, mas a plateia ficava de costas, se recusando a olhar. Hoje, essa postura mudou muito. Os berlinenses respondem aos turistas as perguntas mais constrangedoras (como o lugar onde aconteceram coisas horrendas) de cabeça erguida e falam o que for preciso a respeito. Em suma, aceitação, diálogo, jogo aberto. Inclusive houve uma exposição com 600 itens de Hitler e tentativas de explicá-lo, na capital, em outubro do ano passado. Com essa proposta, foi inédita no país. Uma pesquisa recente mostrou que 17% dos alemães consideram “muito grande” a influência dos judeus. A partir de dados assim, o governo prefere discutir a questão, e não tentar um ingênuo silêncio a respeito. Os fanáticos, eles sabem, surgem principalmente do que é proibido e não dito.

  4. Débora Rossetto says:

    (agora tentando discutir)
    Eu tenho um exemplar do Mein Kampf (que surrupiei da biblioteca do meu pai) intocado há anos na estante. Lembro de vê-lo e da curiosidade que ele me despertou – infelizmente, não o suficiente para que eu o tenha lido e possa discutir suas idéias (e ideais). Claro que eu conheço e abomino inteiramente as consequências de tal ideologia (aliás, que eu SUPONHO que esteja no livro) – e isso me faz, na verdade, ter mais vontade de conhecer o pensamento por trás de tudo. Prefiro acreditar que idéias devam circular.

    Claro que eu temo (e temo porque não consigo compreender) essa ressurreição (ele chegou a morrer?) do nazismo – tuitei a respeito disso e esse pensamento tem me ocupado um bocado nas últimas semanas. E por isso mesmo acho uma ótima oportunidade de discutirmos a respeito. O que há de tão atraente nele? Como pode alguém, hoje – alguém como nós, da nossa idade – admirar o nazismo? COMO?

    Vou ali ler o livro “proibido” e já volto.

  5. Débora Rossetto says:

    Jura que vocês dois acham que livros devem ser proibidos? Estão certos de serem contra o totalitarismo?

    Aqui seria um ótimo lugar/oportunidade para discutirmos tantas questões, e vocês partem pra ofensa direta e pessoal, atacando o texto, quem escreveu e a própria Naipe (que não tem nada a ver com Hitler ou o nazismo).

  6. Gustavo says:

    pois é, Alan, é coisa de gente que não é criativa e não sabe sobre o que escrever…

    fui eu que critiquei no twitter ok? Mesmo meu tataravô tendo fornecido ferro p/ os tanques de guerra da alemanha (é sério) não curto e nunca curti a ideologia do Führer e dos atuais neonazis.

  7. Alan says:

    Em resumo, vocês mostram que é possível vender e comprar livros enaltecendo o nazismo – inclusive na Ilha.
    Que apesar de inaceitável, pessoas ainda comercializam e publicam estes títulos.
    Passou um “top 11” da literatura “hitlermaniaca”.
    Preços, presença e ausência de fiscalização entre as partes que podem lucrar com esse tipo de comércio.

    Esse texto é nazista ou foi inocentemente muito mal escrito?
    Como eu não acredito em inocência letrada, não gostei.

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