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UM BEIJO A BOLSONARO

UM BEIJO A BOLSONARO


De um lado, 150 jovens para beijo coletivo; do outro, oração de terço em frente à porta da catedral



Por Rosielle Machado, com fotos de Giovanni Bello
14/05/2011

No alto da escadaria da Catedral de Florianópolis, quatro catequistas conversavam eriçadas. Elas esperavam o relógio marcar 18h para assistir o evento do qual tinham ouvido falar a semana inteira: o “Beijo a Bolsonaro”. Também ansiosas, as 150 pessoas que se reuniam no local iam formando duplas para o beijo coletivo contra as declarações homofóbicas e racistas do deputado Jair Bolsonaro. Sem saber, uma das catequistas reproduzia a opinião do político para a colega: “Eu não gostaria de ter um filho assim porque” - e parou de falar, interrompida pela contagem regressiva para o beijo.

“Foi rápido demais!”, reclamaram duas estudantes que foram só observar. Os beijos mais demorados não passaram de 30 segundos, mas foi o suficiente para arrancar gritos de “que lindo!” dos participantes. As catequistas só apontavam: “Olha lá aqueles dois de verde!”, disse uma.  “Mas tem casais de homem e mulher também!”, comentou a outra, antes de continuar a explicação sobre porque não gostaria de ter um filho homossexual.

“Ninguém quer ter um filho gay”. Foi por causa de uma declaração parecida com esta, dada por Bolsonaro na televisão, que a performance surgiu. Segundo Amarildo Soares, um dos organizadores, a ideia nasceu despretensiosamente, enquanto ele e a colega Renatha Lino conversavam sobre as opiniões preconceituosas do deputado. A escolha do local, afirma Amarildo, não foi para fazer afronta à igreja, mas sim porque aquele é o ponto central da cidade.

Para os fiéis que passavam pelo meio da aglomeração para ir à missa, o argumento não convenceu. “É no mínimo provocante”, disse uma das jovens que, desde às 17h30, rezava o terço na porta da catedral. “Nosso maior medo é que eles entrem na igreja. E nada mais justo do que a gente defender a catedral, que é um lugar santo”, explicou, entre uma Ave Maria e outra. Quanto a sua opinião sobre o homossexualismo, disse que preferia não se manifestar.

Sem sinos

“O sino não vai tocar”, disse uma das catequistas à Naipe, pouco antes do beijo.  Segundo ela, o sino estava estragado há uma semana. Já entre os manifestantes, a teoria é que a igreja programou o boicote.

Sem o barulho do sino para dar início à performance, a contagem regressiva foi a solução. Após um barulhento “três, dois, um, zerooo”, explodiram em beijos e aplausos. 

Depois do beijo coletivo, deu-se a sucessão de eventos caóticos: um grupo abriu uma bandeira com as cores do arco-íris, dois homens iniciaram uma apresentação de tango, a música “Fireworks”, de Katy Perry, começou a tocar. Um solitário, observando as pessoas se dispersarem em grupos, ainda segurava o cartaz “Me Beija”.

Ao mesmo tempo em que o público remanescente aplaudia as apresentações, desenrolava-se um bate boca entre dois homens. A discussão seguiu pela linha daquilo que se discute há pelo menos dois milênios: respeito versus leis divinas versus isso-não-é-normal versus é-preciso-aceitar versus dez mandamentos versus retrocesso. Teriam ficado a noite toda dando de dedo um na cara do outro se não tivessem sido levados embora.  

Uma hora após as apresentações, a escadaria ainda tinha resquícios de manifestantes. Muitos comentavam a satisfação de terem feito algo por aquilo que acreditam. Lá dentro da igreja, as catequistas ouviam atentas ao evangelho.


Veja vídeo da performance:

http://www.youtube.com/watch?v=TaQRW2KN4Wk

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