No Mundo xicosanaipe4

Publicado em novembro 11th, 2010 | por Revista Naipe

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A RESISTÊNCIA JURUBEBA

[Fotos de Ana Carla Batista]

“Tem quem ache muita invencionice”, avisa a Naipe, sobre as ostras gratinadas que aterrissam na mesa do Restinga Recanto, restaurante no Sambaqui, em Florianópolis.

Aviso inútil. O garfo logo espeta uma das ostras, meleca-se no creme de leite com queijo parmesão e termina a viagem na boca de Xico Sá, que raspando a concha sorri:

– Que invenção da porra!

O escritor Xico Sá é o macho-jurubeba, ou o que resiste de bom senso em meio a emoções baratas, miojos sentimentais, amor nos tempos do Messenger, metrossexualismo. A mais nova bandeira dessa resistência é Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha, publicado em abril deste ano sob as trombetas de ser um “guia precioso para entender os tempos de homens frouxos, perdidos diante da modernidade da fêmea”.

O macho-jurubeba é o que não se permite vaidades além do velho pote de Minâncora. É pelo “destravecamento das fêmeas musculosas da mídia” e contra o “fetiche da classe média por tudo que é de grife”. Lamenta nossa mania de aderir irrefletidamente às correntes, de deixarmos afogar percepções mais sinceras na maré publicitária, você finge que morar num loft e ter molhinhos de frutas na geladeira é o que há, eu finjo que acredito.

Sendo ou não invencionice, aí as ostras gratinadas não se encaixam. Com queijo em exagero e pouco sabor de ostra propriamente, falsos refinamentos elas pelo menos não vendem.

Copos de requeijão

Xico Sá, senhoras e senhores.

“Noves fora o ‘homem de predinho antigo’”, aquela criatura que adora um pé-direito alto, um sofá de época e uma luz indireta, o macho solteiro é um desastre no capítulo decoração. Tem lá o seu sofá velho, a sua TV, a cama barulhenta, três ou quatro panelas – sem cabo – encarvoadas pelo tempo e copos de requeijão, muitos copos de requeijão, alguns deles ainda com um pedaço do rótulo.

E quando a fofa, toda fina e fresca, nova namorada, chega lá no muquifo com a sua garrafa de champanhe?! Procura, procura as taças, para fazer uma graça com o marmanjo, e nada. O jeito é beber Veuve Cliquot em copo de extrato de tomate. Quem mandou apaixonar-se por um macho-jurubeba autêntico, que vem a ser justamente o avesso do metrossexual, aquele mancebo da moda que se lambuza de creminhos da Lancôme e decora o loft, sim, ele mora num loft, de acordo com as tendências da revista Wallpaper. ‘Uó-o-que, rapaz, seje homi’, diria meu amigo Rinaldo (…)”.

Lindas breguices

Muitos caminhos levam a Xico Sá. O irresistível Chabadabadá, livro que contém o trecho acima; o programa Cartão Verde, na TV Cultura; o caderno de esportes da Folha de S.Paulo; outras colunas e colaborações jornais, revistas e internet afora; mesas de botecos do bairro paulistano Vila Madalena; o Twitter @xicosa, que já acumula mais de 30 mil seguidores.

Em todos esses lugares está Xico Sá, que ainda pode ter aparecido na sua vida a partir de pontas no clipe Tenho, de Sidney Magal, e nos longas-metragens Árido Movie e O cheiro do ralo; co-autorias em roteiros; letras para o Mundo Livre S.A.; nove livros publicados além de Chabadabadá e dez outros em que colaborou; mais remotamente, a partir de coluna sentimental de uma rádio do interior cearense, nos anos 1970.

“Sem sequer conhecer uma mulher direito, eu fazia lindas breguices em conforto a moças balzaquianas entregues ao caritó amoroso”, declarou Xico, sobre o trabalho precoce. Nascido em 1962 no próprio Ceará, ele tinha 16 anos à época do emprego.

Agora tem 47 e almoça no Sambaqui.

Como o próprio ensinara a estudantes de Jornalismo em palestra na noite anterior, as melhores matérias surgem com gravadores desligados. Um bloquinho para um mínimo de anotações, no entanto, é preciso, mas nem isso a Naipe leva para o almoço. A atmosfera de trabalho pode estragar um sábado tão ensolarado.

O sol incide sobre o cearense que ignorou os ventos ilhéus e, de manga curta, bermuda e Havaianas, passava frio. Aquecido, ele abre os trabalhos. Às cervejas seguem as ostras, e às ostras, peixe com pirão. À mesa estão Xico Sá e cinco integrantes Naipe, uma orgulhosa tietagem. Relacionamentos atuais não são o assunto que mais comove críticos literários e Xico Sá ainda não ganhou o demorado aplauso de pé que merece.

Boteco e Balzac

“Acho que o grande épico da existência é evitar o encaretamento”, declara Xico Sá na palestra da 9ª Semana de Jornalismo da UFSC. Frases assim tão acuradas, quase com peso de aforismo, se repetem despretensiosamente. Xico Sá enfeitiça com uma segurança impressionante de ser quem é.

Xico fala do seu desapego a livros na estante (não tem problema em doá-los com frequência), o único seriado que assiste (Mad Men) e o costume de viajar sempre que possível ao Recife, onde tem casa, para se aliviar um pouco da pegada paulistana. Ele se diverte ao saber dos nomes-trocadilhos de novos e antigos restaurantes e fazendas de cultivo do Ribeirão da Ilha, Ostradamus, Maria vai com as ostras, Umas e ostras, Ostraordinário.

– Falta o Ostracismo, pra reunir os fracassados, sorri.

Mesmo que fosse possível combinar vivências, leituras, genes e raízes em laboratório não seria fácil recriar um Francisco Reginaldo de Sá Menezes. Suas crônicas tocam nos nervos dos comportamentos, especialmente os nacionais, porque ele resulta de uma rara combinação de cultura Roberto Carlos e Mangue Beat, causos cearenses e romances franceses, cabras nordestinos e paulistanos requintados, amores antigos e sob mídias sociais. Nos seus textos o velho se mistura ao novo, o brega ao cool, a baixa cultura à alta.

Para cada gole de cerveja em copos de boteco, Xico Sá bebe um de Balzac.

Esta matéria é da Naipe 4. Para ler a revista online, clique aqui. 

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