No Mundo turista_barcelona

Publicado em setembro 20th, 2012 | por Thiago Momm

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ADMIRÁVEL TURISMO NOVO

[Foto: Igreja Santa Maria del Mar, em Barcelona. Thiago Momm]

O turista é um zumbi. Com muita sorte, apenas se parece com um.

Não são tempos fáceis. Todos os dias as individualidades se diluem no caldeirão turístico do planeta. As mesmas fotos, as mesmas compras, as mesmas dúvidas, os mesmos diálogos, os mesmos souvenires, as mesmas reações, os mesmos pontos do mapa, as mesmas armadilhas, o mesmo restaurante com promoção duvidosa, e assim ao infinito.

Nada mais fácil que passar 120 horas em Veneza sem um gesto que nos diferencie da última pessoa que ocupou nossa cama do hotel. Não à toa, a linda atendente da sorveteria indica o ponto do vaporetto sem olhar nos olhos, o tédio do mundo resumido no rosto, o braço direito erguido sem vontade para algum lado. Para ela, os turistas felizes do admirável turismo novo devem parecer numerosos, banais e indistintos como casquinhas de sorvete. Talvez ela também se enxergue assim, e à noite, bebendo com os amigos, se alivie ao recuperar suas nuances.

Aliás, o admirável turismo nem é tão novo. A foto tirada pelo iPad e postada em seguida no Feed de notícias é nada mais que a versão tecnológica do cartão-postal. Do surgimento desse, na metade do século 19, resultaram turistas ansiosos para descer logo os Alpes Suíços e da base enviar cartões para os conhecidos. Hoje, a maior diferença é que temos flashes para desrespeitar os pedidos de museus e igrejas.

O admirável mundo turístico nem é tão novo. A foto tirada pelo iPad e postada em seguida no Feed de notícias é nada mais que a versão tecnológica do cartão-postal

Dependendo da fonte, o turismo é apontado como de massa desde o pós-guerra ou dos anos 1990, época em que companhias aéreas de baixo custo se tornam parte importante do cenário. Entre 1990 e 2008, os desembarques internacionais mais que dobraram – de 436 milhões para 922 milhões, segundo a Organização Mundial do Turismo. Inédita mesmo, turisticamente, é a escala com que nos tornamos lemingues.

Encontrar pelo menos um punhado de sujeitos convergindo para o mesmo destino, porém, é algo mais remoto.

“Turismo como ato e processo de se passar tempo longe de casa em busca de recreação, relaxamento e prazer enquanto se faz uso da provisão de serviços”, afirma a enciclopédia Britannica, “começou na Europa no século 17, embora tenha antecedentes na antiguidade clássica”. Na Grécia e em Roma já havia viagens organizadas com atrações, infra-estrutura e ênfase em destinos e experiências essenciais. Lugares históricos eram apreciados, e as Sete Maravilhas do Mundo se tornaram pontos turísticos.

Em todo caso, gregos e romanos ainda estavam longe do turismo de zumbis. Uma quantidade maior de pessoas fazendo viagens mais seguras, padronizadas e previsíveis é algo que remonta ao começo do século 19. Na época, os muitos europeus de classe média que viajavam com propósitos de saúde, lazer e cultura já estavam amparados por guias, mercados de arte e lembranças, sistemas de hospedagem e transporte – itens já disponíveis antes, no entanto muito mais bem combinados a partir de então.

Nas décadas seguintes, os trens acrescentariam velocidade, possibilidades e confiabilidade para os que queriam partir. Por ferrovias ou mares, destinos como os fiordes noruegueses e a Nova Zelândia se tornaram mais acessíveis. A partir de 1888, a Kodak ofereceria câmeras portáteis. Até a Primeira Guerra Mundial, o cruzeiro no Caribe já era uma opção, mesmo que pouco popular. Mas é claro que o contexto ainda era outro. Google, Google Earth, Google Maps, Google Street View e Google Art Project ainda não estavam lá para responder qualquer pergunta sua sobre Madri, ver a cidade com ajuda do satélite, localizar o seu hotel, mostrar em detalhes a rua onde ele fica e oferecer, com mais zoom do que ao vivo, sem ingresso e sem precisar ficar em pé, uma amostra de quadros do Museu do Prado.

Também não estava lá uma rede de serviços que tenta prever cada passo nosso de viagem.

Apesar das muitas navegações dos 500 anos anteriores, encontrar destinos poucos explorados ainda era uma tarefa não tão difícil no começo do século 20. Mesmo para os que tinham a pretensão do ineditismo, havia lugares como os pólos Norte (explorado pela primeira vez em 1909) e Sul (1911), muitas ilhas no Pacífico e certas áreas de muitos países. Hoje, restam algumas tribos não contatadas na Amazônia e na Nova Guiné. A pretensão ao ineditismo significa levar doenças inéditas até eles, agendar uma viagem ao espaço ou se juntar a explorações oceano adentro.

Para os que tinham apenas a pretensão de conhecer um lugar pouco apinhado caricato, há 100 anos sobravam opções. O litoral nordeste brasileiro, para ficar em um exemplo próximo, ainda estava para ser escarafunchado. No começo do século 21, quem comprar o Guia 4 Rodas de Praia pode ler um editorial comemorando o achado de um repórter: uma linda e pouco lembrada faixa de areia nordestina.

Está aí o destino lemingue do próximo verão.

Particularizar

Apesar de tudo isso, viajar está longe de ser trágico. Não conseguir parar diante dos os tesouros do Topkapi Palace, em Istambul, porque a sala está lotada e nós zumbis nos empurrando – isso é um problema da prosperidade.

Logo, as 12 ideias abaixo, de como ser menos um turista zumbi ou lemingue, são rascunhos que talvez não devessem ser levadas muito a sério. Aliás, talvez sejam apenas pretensão disfarçada.

As ideias.

1) A não ser para fins baladeiros ou por motivos excepcionais, jamais viaje em alta temporada.

2) Com menos de 30 ou 35 anos, ganhe imprevisibilidade se hospedando quase sempre em albergues ou nos sofás alheios (exceções para viagens com a família ou a namorada são bem-vindas). Não deixe de sair à noite.

3) Se o planeta já está bem documentado, pare de fotografar desesperadamente toda atração recém-vista, como se fosse o caso de provar que você e ela existem.

4) Desligue o flash. Não é porque ninguém viu que você não está sendo um matuto.

5) Faça turismo interno. Não só pelo Brasil, no caso. Escute-se melhor para adequar as viagens ao seu gosto. Corte a lista de “lugares inevitáveis” pela metade (se cortar a lista inteira, talvez você esteja indo para a cidade errada). As filas se diluem, o mundo agradece. Caso queira trocar a arte sacra da Galeria Uffizi por um museu erótico, bem que faz. Em Florença não tenho indicações, mas o de Paris, em Montmartre, recomendo. Sete andares.

6) Inteligentes, vocês também. Trocar o terceiro museu do dia por lojas de eletrônicos, cinco pints de cerveja e a visão de garçonetes locais não é pecado. Aliás, passar o dia bêbado, convidar a garçonete para sair mais tarde e voltar para casa às 3h pedalando eufórico e sem condições a bicicleta pública parisiense alugada também vale.

7) Preguiçosos, aprendam alguma coisa. Saber mais pode tornar um lugar aparentemente monótono tão empolgante quanto a Universal Studios. Acredite, aqueles sujeitos parados diante de quadros e objetos em salas silenciosas não são todos masoquistas sofisticados.

8) Use guias turísticos e sites locais o mais específicos possíveis. Sem eles, você será apenas um desses espertos que julgam entender do mundo só de olhar para ele mas ignoram que Maria Antonieta foi guilhotinada no fim da rua. O Lonely Planet é o guia que melhor atende qualquer pessoa cujo espírito ainda não caducou, e folhetos locais, caso do Use-it na Europa, falem ainda melhor com quem está na faixa dos 20. Para viagens por muitos países, guias gerais (Ásia, América do Sul, Europa) ajudam de início, mas oferecem poucos detalhes para mais de três ou quatro dias em um mesmo lugar, podendo se tornar inócuos. Guias de um só país ou cidade oferecem dicas inesperadas e contêm trechos separados para explicar muito melhor da história local, entre outros atrativos, dando outra dimensão à viagem. Com espaço na mala, não hesite. Aliás, em Florianópolis, mesmo quem é morador pode tentar o Guia Naipe de Verão – em breve, vem aí o 2013.

9) Não invente dialetos. Se você não sai batendo aleatoriamente nas teclas dos pianos quando há pianistas por perto, por que faz isso com o idioma dos nativos diante deles? Aponte, gesticule. Não sabendo falar espanhol, fale português lentamente. Em último caso, se você e o interlocutor não compartilharem nenhuma língua estrangeira, escolham uma neutra para surrar – como o inglês, claro. Também não deixe de consultar bem mapas, placas, folders e bilhetes antes de perguntar. Uma vantagem inegável do turismo de massa é que tudo é feito para que até um filhote de panda encontre o que procura em uma cidade.

10) Se entrar em algum lugar que traduz nada ou muito pouco dos textos sobre os itens expostos (caso não raro na Alemanha, por exemplo), relaxe e se divirta imaginando o que está escrito. De quebra, você terá uma experiência dos velhos tempos, a viagem como era para a maioria dos turistas até algumas décadas atrás.

11) Prove bebidas e comidas locais. Pare de ser enjoado e ficar perguntando como é preparado. Apenas tente entender vagamente o que é, peça e mande para dentro.

12) Procure outros caminhos, suba uma escada a mais, vá 25 quilômetros mais para lá, estude, converse com nativos, crie seu próprio roteiro. Quando tiver que ser zumbi, porém, relaxe e goze. Mesmo que uma experiência seja repetida por milhares de pessoas por semana, não significa que ela não possa ser incrível para você. Criticar demais os costumes alheios pode ser um indício da fraqueza das nossas convicções. Divirta-se.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to ADMIRÁVEL TURISMO NOVO

  1. Priscila says:

    Gostei do texto, bem interessante o ”zumbismo”, nunca pensei dessa maneira e realmente faz muito sentido! As dicas são ótimas… mas acredito que no item 2 a idade pode ir bem além ;-)

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