No Mundo portonovo_dentro

Publicado em dezembro 5th, 2011 | por Revista Naipe

7

ATÉ ONDE?

Na última quinta-feira de novembro, quem resolvesse dirigir até a Praia Brava (42 km do centro de Florianópolis), deixar o carro próximo do costão direito e fazer a trilha que leva à Cachoeira do Bom Jesus experimentaria horas sem enxergar ninguém.

Quando caminhou por lá, a reportagem da Naipe viu apenas dois lagartos e ouviu outros cinco ou seis se afastando pela mata.

Florianópolis ainda tem uma boa parte intocada. Nos seus 54 e 18 km, em média, de comprimento e largura, muito pedaço de chão nunca foi pisado e outros são só bem de vez em quando. Na trilha da Gurita, na Lagoa do Peri, a Naipe esbarrou com dois trilheiros ao longo de quatro horas. Na Costa da Lagoa, foram menos de 15 pessoas avistadas.

Enfim, um solipsista ainda encontra seus espaços. Mesmo com os aproximadamente 900 mil turistas na alta temporada.

Peregrinação

Ao conhecer a campanha que a Naipe fez do seu guia, sobre ter um verão diferente, um leitor estilingou: “Parabéns ao estimular o turismo em massa aos lugares preservados e com pouca gente. Aproveitem, pois essas fotos lindas daqui a pouco não existirão mais”.

A questão é mais que pertinente. Desde que trabalhei como repórter de turismo na Folha de S.Paulo descobri a dúvida crucial do ramo que é divulgar ou não secret spots.

É preciso, antes de qualquer coisa, evitar a tentação do benefício profissional. É claro que quando um jornalista compartilha seus achados está ganhando pontos com editores e boa parte dos leitores. Mas há em jogo coisas bem mais importantes o próprio umbigo. O único planeta que temos para viver, por exemplo.

Não há leis a respeito, apenas bom senso. Existe o turismo de massa e existe a possibilidade de indicar a muita gente (já escrevi para menos de mil leitores e para mais de um milhão) lugares ainda não muito descortinados. Vale lembrar que isso nem sempre é o mesmo que fazer com que todo mundo vá até lá. Em cinco anos trabalhando com jornalismo de turismo, percebi quão grande é a preguiça das pessoas mesmo com trilhas rápidas. Algumas dicas, ainda bem, só estimulam os realmente interessados no assunto, já um público mais consciente de preservações.

Mas há, sim, influências maiores. Especialmente quando envolve apenas carro. No tempo da Folha uma dona de restaurante me acusou de esvaziá-lo, na Naipe a nossa repórter Rosielle Machado causou peregrinação de meses a uma biblioteca. O problema, a partir daí, é que determinado lugar pode simplesmente não estar preparado para receber tanta gente.

É claro que o turismo de massa nos angustia. Não se trata apenas de comprometer a integridade dos lugares. As experiências vão se padronizando e os destinos perdem seu apelo. Acontece o tempo todo. Morro de S.Paulo, na Bahia, continua sendo um destino espetacular, mas para quem não gosta de tantos cotovelos e comércio, a vizinha Boipeba é muito melhor. Quem disse? O Guia 4 Rodas Brasil. Em duas décadas, Boipeba será Morro.

Sem prejuízo

Estabelecemos certos limites para o Guia Naipe de Verão 2012. A campanha que tanto incomodou o leitor brinca com a divulgação-do-inusitado-que-não-prejudica-nada-nem-ninguém. O mirante natural escondido que dá vista para Campeche, dunas e Joaquina dificilmente ganharia muitos turistas: a subida para lá é absurdamente íngreme e, de qualquer maneira, o caminho já é corriqueiro para moradores locais.

A foto que mostra uma casa noturna ilhoa é mais inócua ainda. Dissemos no texto sobre a imagem que o centro de Florianópolis tem dez, não duas baladas. Só que todas já são entupidas pelo público alternativo, não importando muito um pouco a mais ou a menos de divulgação.

A terceira foto mostra a cachoeira da Gurita, atrativo de uma trilha difícil mas já bem divulgada em sites e livros sobre trilhas.

A quarta imagem realmente mostra algo inusitado: uma pizzaria com gazebos na Caieira da Barra do Sul. O diferente se dá pelo fato de que o lugar abriu em 2011, tem um camping com cachoeira e piscinas naturais e fica em um bairro com comércio bem mais apagado. Por outro lado, muita gente passa por ali ao ir para Naufragados. Então é o tipo de indicação que um jornalista de turismo pode se permitir.

A quinta foto tem uma ideia bem interessante (ninguém na faixa de areia em primeiro plano, a orla da Balneário de 1 milhão de turistas/verão em segundo), mas o lugar está longe de ser desconhecido: é o Morro do Careca, de onde se pula de parapente, enquanto a Praia do Buraco, na imagem, pode ser acessada a partir do costão esquerdo de Balneário. A sacada foi brincar com o contraste vazio/cheio, mas para isso não divulgamos nenhum secret spot.

A Naipe segue uma política de frisar a qualidade do que já é minimamente conhecido e poderia ser mais frequentado com benefício – para o turista que quer algo menos óbvio e para o estabelecimento de qualidade que merece mais clientes (ou o lugar natural que suporta mais visitantes). Não temos a pretensão de abrir caminhos a facão. Conhecemos, por exemplo, uma gruta esquecida e um local secreto de surfe que não constarão no guia. Entre alguns outros pontos.

É claro que nem por isso só faremos divulgações bem-vindas. Tentamos sempre nos abalizar conversando com os leitores. Ontem mesmo ouvimos uma dica incrível acompanhada de um pedido maroto: “Falem do lugar no guia mas não digam onde é”.

Não sobre turismo, mas sobre como os descobridores foram mapeando o planeta e incomodando tribos não-contactadas ao longo dos séculos, recomendo Os desbravadores, do historiador inglês Felipe Fernández-Armesto. Livraço. Não percam.

Tags: , , , ,


Sobre o Autor



7 Responses to ATÉ ONDE?

  1. Rodrigo Dalmolin says:

    Thiago: de modo algum me senti ofendido pelo título. Pelo contrário, até imaginei os cachorros-do-mato aqui na Ilha no lugar de lobos. Também não tive intenção de ofender, apenas demonstrar (enquanto questão de fato e não juízo de valor) que basicamente na Ilha temos dois tipos de pessoas: turistas visitantes e turistas residentes. Para ambos o guia da revista me parece bem-vindo, assim como outros já existentes. Cá entre nós, ninguém sabe tudo da Ilha ou mesmo de Floripa, felizmente. Não se preocupe, meu humor não foi alterado por isso. Saudações.

  2. Thiago says:

    Tô dizendo que tu é o Mogli, rapaz. Não no sentido pejorativo. Cada um nas suas praias e pedras. Eu sou só um trilheiro normal. Só quis dizer que o nosso “completo blá blá blá” não é pra turista ver e sai redondo porque na média bares, restaurantes, baladas e natureza a gente realmente circula muito e se sai bem. Não precisa ficar mal-humorado que não estamos reivindicando a supremacia de conhecimento dos matos desbravados ilhéus.

  3. Rodrigo Dalmolin says:

    Mogli provavelmente sairia da Praia da Lagoinha após um bom banho no mar calmo para a Ponta do Rapa (ponto extremo norte da Ilha, como ele sabe). Subindo o Morro do Rapa pararia na Pedra do Rapa pra degustar (sem siri) o melhor visual que uma pedra pode oferecer na Ilha (como ele também sabe). Do alto da pedra ele miraria com gosto a Ponta da Bota de onde se diz que costuma surgir a Luz de Bota (criatura nativa do folclore ilhéu, como ele também sabe). De lá seguiria, sempre por trilha, cruzando a cumeeira do morro, até a pista de voo livre para nova pausa afim de degustar com os olhos uma vista maravilhosa da Praia Brava. Enfim, ele chegaria até lá (com seu sítio arqueológico, cavernas, costões, agito e praia) para novo banho de mar, água algo mais fria, mar aberto (como ele também sabe).

  4. Rodrigo Dalmolin says:

    Oi Thiago. Para um Mogli ilhéu há milhares de turistas visitantes ou residentes na Ilha. Tentarei ilustrar a diferença com um exemplo que você mesmo deu. Dificilmente, um Mogli ilhéu faria o Caminho do Rei (Brava – Cachoeira do Bom Jesus) no sentido feito pela reportagem. Sair da Praia Brava com sítio arqueológico, cavernas, costões, agito e praia para, após ter uma vista maravilhosa na cumeeira do Morro da Cachoeira, sair no “fundão” do bairro da Cachoeira do Bom Jesus (sem praia, agito e até a cachoeira que dá nome ao lugar)… é um programa de índio. Eis o que provavelmente um Mogli Ilhéu faria. Continua…

  5. Thiago says:

    Pô, Rodrigo, você é o Mogli. Dica da Pedra do Visual anotada. E me diz: onde escolher o siri que você vai comer com vista panorâmica da Lagoa? Onde ler mais de 500 livros em francês de graça? Quem te leva do Ribeirão à Ilha do Papagaio em um puta passeio de catamarã?

    Confesso que não tenho muitas cartas assim. Essas já são das altas, haha.

    Fiquei a fim de fazer um guia especial só com o que é realmente inusitado (com certeza tenho muitos lugares pra conhecer e precisaria consultar muita gente), mas no guia nossa proposta é fugir do convencional em certos trechos sem apelar para excentricidades. Você deve saber que, se consultar os amigos, vai descobrir que 96,5% nunca comeram, sei lá, no Caravana Fusion, nas Rendeiras. Então o Caravana ainda é uma dica tão boa quanto a do siri, a gente pensa.

  6. Rodrigo Dalmolin says:

    Confesso que me vi obrigado a rir duas vezes. Uma pelo apelo do guia: “o mais completo blá blá blá” e segundo pelos lugares “secretos” mencionados. Tanto é que ao ler parte do guia pensei cá com meus botões: Floripa de um jeito “diferente” pra turista ver. Por essas e outras até consigo compreender o que o Thiago diz. Um bom exemplo da dica recebida pela revista são as repetidas matérias sobre a “famosa e secreta” Gruta das Pinturas. Deixo uma dica em particular: incluir a Pedra do Visual no guia, ela fica lá no Morro da Costa da Lagoa (vista panorâmica de grande parte da laguna e norte da Ilha). O Ademar que abriu o caminho a facão ficará feliz em guiar turistas até lá (mediante pagamento, claro). Saudações.

  7. izabel suzane philip says:

    pois é…enquanto vcs ganham pontos com os editores, nossos lugares ficam com lixo, violencia…enquanto as pessoas se conhecem, se respeitam.. tem muitos lugares maravilhosos pra turista ver, deixem os moradores viver em paz, os que querem viajar e conhecer culturas e costumes com chances de ver algo que não está nas opções da cvc.. por favor.

Subir ↑