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Publicado em julho 4th, 2010 | por Revista Naipe

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ATÉ QUE A IGREJA OS SEPARE

[Por Fernanda Dutra]

*Em 1969, gays, lésbicas e travestis revidaram à violência policial no bar nova-iorquino Stonewall Inn. O incidente impulsionou a criação do grupo Frente de Liberação Gay. A formanda da UFSC Fernanda Dutra fez dessa história e suas consequências o seu Trabalho de Conclusão de Curso no Jornalismo da UFSC. Para suas pesquisas ela viveu três meses em San Francisco. A versão abaixo, resumida, foi publicada na revista Naipe. 

O programa de TV Quinta Dimensão nunca tivera tanta audiência como no dia 8 de outubro de 1974.

Os debatedores daquela noite eram ativistas da Aliança Gay e da Aliança Lésbica. No interior de Iowa, estado no centro-norte dos EUA, muita gente nunca tinha visto um gay assumido. Betty Lou Varnum, a apresentadora, pedia aos telespectadores que mandassem perguntas. A linha telefônica do programa congestionou. Desconfortável em um terninho listrado rosa, Betty Lou precisou juntar coragem por quase meia hora para fazer uma pergunta que lhe incomodava.

– Nossos telespectadores querem saber se vocês estão sugerindo que a homossexualidade é normal.

– Completamente normal.

– Todos vocês concordam? Vamos deixar claro: vocês acreditam que não há nada errado em ser homossexual?

– Não há nada errado. A homossexualidade é uma opção saudável de vida.

A apresentadora insistia. Os oito debatedores, entre 20 e 25 anos, adotaram um tom presunçoso. Se as perguntas soavam preconceituosas, retrucavam. “E você acha que é normal ser hétero?”. Betty Lou esboçou um sorriso sem graça. Os ativistas baixavam a defesa diante de questões sobre a vida pessoal. “Você procura um relacionamento de longo prazo?” ou “Você quer casar e ter filhos?” eram perguntas de difícil resposta para quem começara a vida sexual há dois, três anos.

Casamento parecia algo distante, mais relacionado à infelicidade dos pais que ao futuro de cada um. Ter filhos, quase impossível. Um telespectador perguntou aos homossexuais se imaginavam criar uma família. Jim Osler respondeu: “Adoro meu curso de graduação que lida com crianças. Não vejo razões que me impeçam de ter um filho”. Betty Lou buscou a resposta objetiva. “Você fala em adotar?”.
“Sim”, sustentou Jim, mesmo sabendo que, aos 20 e poucos anos e no Iowa, isso seria impraticável.

As leis impediam que Jim constituísse uma família parecida com a de seus pais, e ele mesmo ansiava por outras coisas. Queria criar o próprio espaço, baseado na revolução sexual e na liberdade de escolha. Queria, como seus colegas, derrubar padrões de comportamento definidos por gênero. As imagens de mulher-mãe ou de homem forte que sustenta a casa, exemplos desses padrões, tinham de ser descartadas, pois delas surgia a discriminação contra gays e lésbicas. Acreditando que a Igreja e o Estado reforçavam esse comportamento, militantes criticavam as duas instituições.

Sementes gays

Quatro décadas depois, as lutas do movimento gay são outras. A mobilização da comunidade gay ganhou outro nome: movimento LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Jovens vão às ruas exigindo que o governo reconheça famílias formadas por casais LGBTs. Leis e tecnologia tornam possível adotar, fazer inseminação com doador conhecido ou desconhecido e até contratar uma barriga de aluguel. Segundo o Censo de 2000 dos EUA, mais de 1/3 dos casais lésbicos criam filhos. Calcula-se que há de 1 a 12 milhões de crianças na guarda de casais gays – o número é incerto porque não existem mecanismos de pesquisa específicos para essas famílias. A explosão demográfica das “sementes gays” (queer spawn), como brincam os filhos criados por homossexuais, foi apelidada de baby boom gay.

O surgimento de novas famílias incentivou a luta pela legalização do casamento gay nos EUA. A estratégia mais difundida entre os grupos ativistas consiste em conquistar o direito por referendo, de estado em estado (a Constituição norte-americana permite modificar aspectos da legislação estadual em referendos, se há apelo popular). Em 2008, cinco deles aprovaram o casamento, inclusive Iowa. A reação foi mais forte: 30 estados negaram o direito a gays e lésbicas. O reconhecimento estadual facilita o acesso ao plano de saúde familiar e à adoção conjunta, por exemplo. Sem a aprovação federal, no entanto, casais de gays e lésbicas são alienados de mais de mil direitos administrados pela nação, como a previdência social. Na última eleição, a comunidade gay apoiou Obama na esperança de enterrar o conservadorismo da era Bush. Mas logo em junho o Departamento Federal de Justiça reforçou o Ato de Defesa ao Casamento (ADC), lançado no governo Clinton como instrumento legal para impedir o casamento gay.

Ópera italiana

Em um discurso recente Obama, com elogios a ativistas e promessas de mudança, prestou implícita homenagem ao primeiro gay assumido eleito para um cargo político no país, Harvey Milk (retratado no filme Milk – A voz da Igualdade, de 2008).

Na San Francisco de Milk, onde o natural é ser esquerdista, Tommi Avicolli Mecca – que se considera anarcossocialista – se incomoda com o desaparecimento de uma perspectiva radical no movimento gay. Para trazer de volta à discussão ideias dos primeiros anos da liberação gay, ele editou uma coletânea de artigos sobre o assunto. O nome do livro homenageia gritos de guerra: “Smash the Church, smash the State!”.

Ele fez questão de promover a antologia só em livrarias independentes, como a Books, Inc., no Castro, notório bairro gay de San Francisco. Em uma sexta à noite na Books, o Tommi que apresenta a leitura parece pouco com o da imagem que ilustra a introdução do livro. Na foto ele traz uma flor no cabelo, usa os fios na altura dos ombros e veste um cardigã curto que deixa o umbigo à vista. Sério, mantém os músculos do rosto rígidos. Hoje, tem os cabelos curtos e o abdome coberto. Ele deixou as roupas femininas. Tommi sobe no banco alto com dificuldade – não porque amanhã completa 58 anos, mas porque mede menos de 1,60m. Ele lê trechos da introdução. “Saí do armário com todos os elementos de uma dramática ópera italiana. Bem apropriado, considerando que vim de família operária, imigrante, do sul da Itália”. A plateia ri. O tom muda quando Tommi narra um episódio em que a administração da  faculdade questionou as atividades do seu grupo militante.

– Você atrapalha a causa fazendo coisas radicais assim, disse um funcionário na época.

– Que causa é essa?

– Ser aceito como normal.

“Nós não queríamos ser normais! E, 40 anos depois, eu vejo que ser normal é mais popular do que nunca”, diz Tommi. Ele discorda dos rumos do movimento e rejeita a ideia de que a legalização do casamento trará melhorias: “De muitas formas, o movimento gay do novo milênio é a antítese da liberação gay dos anos 70”. Para ele, o movimento antes apontava o que havia de errado com a sociedade. Agora, quer ser parte dela. “Acho que a luta pelo casamento tem a ver com normalização. As pessoas querem ser aceitas como qualquer um. Nós éramos diferentes. Não queríamos ser normais”.

Bicha, sapatão, veado

Os conflitos no bar nova-iorquino Stonewall Inn em 28 de junho de 1969 impulsionaram a criação da Frente de Liberação Gay (FLG). Um monte de gente gosta de dizer que estava lá no dia. Cerca de 2 mil pessoas estiveram. Mas a ordem dos acontecimentos ainda é confusa. No meio da noite, policiais chegaram, fecharam o bar e levaram os clientes para fora. A chuva de moedinhas em direção aos policiais foi a primeira demonstração de revolta. “Será que isso serve como propina?”, os clientes provocavam. Um grupo de travestis manteve o humor: elas cantavam e dançavam cancã.

Duas semanas antes, algo parecido ocorrera. Continuando assim, talvez o Stonewall Inn fechasse de vez. Dizem que a situação fugiu do controle quando uma mulher latina resistiu à prisão. Talvez tenha sido quando alguém quebrou uma garrafa no chão. De repente, os clientes do Stonewall – a maioria jovens sem-teto, prostitutas, travestis, imigrantes – atacaram enfurecidos. A vizinhança ficou do lado da clientela do bar e foi à rua. Os policiais se embarricaram dentro do estabelecimento. Ouviram explosões de bombas caseiras. Sentiram o baque dos parquímetros, arrancados do chão, forçando a porta.

Houve reforço policial e o conflito durou horas. Nos dias seguintes, centenas de pessoas voltariam, em protesto, ao Stonewall Inn, hoje tombado como marco histórico nacional. Em 1970, a primeira parada gay marcou um ano do conflito e logo se tornou uma tradição em  inúmeras cidades.

A FLG, criada pelos ativistas que organizaram o primeiro protesto após o conflito de Stonewall, seguia a linha radical. Anárquica, a organização facilitou a formação de unidades ativistas em várias cidades do país. Os FLGistas pediam carona, dormiam no sofá e passavam horas discutindo o movimento gay. Tommi era um deles.

As discussões ganharam método, ainda que com poucas regras, e nome próprio: grupos de expansão de consciência. Nas reuniões, as pessoas se sentavam no chão em círculo e conversavam sobre um assunto específico – relação com família, amigos, amantes, sexo, infância, religião etc. Aos poucos desfizeram mitos criados pela Igreja ou por especialistas sobre a homossexualidade. Ao contrário do que Freud sugerira, a maioria não tivera mães dominadoras e pais ausentes. Também destoavam do estereótipo de amargurados e suicidas. Gostar de alguém do mesmo sexo não causava depressão. Esconder a preferência, sim.

A revolução cultural proposta pelos gays idealizava o fim dos padrões de comportamento para cada sexo, como, por exemplo, que o homem precisava ir atrás da mulher, gostar de esportes ou ser insensível. Os FLGistas acreditavam que a Igreja e o Estado reforçavam esses padrões – sem eles, não haveria mecanismos para distinguir as pessoas pela orientação sexual. A ideia parecia atraente aos jovens em um contexto de guerra, ameaça nuclear, crescimento da taxa de divórcios e corrupção no governo Nixon.

A FLG queria recriar rótulos, a começar pelo vocabulário: ativistas usavam, tanto nos nomes dos grupos quanto em manifestos, palavras originalmente negativas – equivalentes, em português, a termos como “bicha”, “sapatão”, “veado”. Queriam, com isso, reverter os seus sentidos.

Outra atitude: sair do armário, um rito de passagem entre gays. O pensamento seguia a linha “Antes que alguém me acuse de ser gay, como se isso fosse ruim, assumo e mostro que me orgulho disso. Assim ninguém terá razão para me discriminar”. Nas manifestações, os FLGistas gritavam “fora dos armários, já para as ruas”.

Sex and the city

Um foda-se na cara das pessoas – assim Tommi define o estilo “genderfuck”, do qual era adepto nos anos 70. O “genderfuck” misturava roupas extremamente masculinas com femininas. Por exemplo, botas militares com blusa rosa, maquiagem e black power com gravata. No caso de Tommi, o resultado – nariz proeminente, magreza extrema, cabelo encaracolado cheio e visual ousado – lembra a atriz Sarah Jessica Parker, de “Sex and the City”: “Sei lá por que comecei [a me vestir assim] ou por que parei. Acho que por razões políticas. Eu andava por aí, pegava ônibus e todo mundo olhava. Eu achava que mudaria o mundo assim, com as nossas ideias, músicas, poemas. E mudou! Só não o suficiente”.

Aos poucos, Tommi se afasta do movimento gay. Ele não esteve na Marcha da Igualdade Nacional em Washington D.C.. Em 11 de outubro de 2009, mais de 200 mil pessoas – principalmente jovens – marcharam pela capital. Estavam lá estrelas pop, como a cantora de visual andrógino Lady Gaga, e líderes da nova geração ativista, apelidada pela mídia de “Stonewall 2.0”.

Ao saber da marcha, Tommi franze o rosto. De cara, discorda do nome “Marcha da Igualdade Nacional”. Sendo da geração Stonewall 1.0, acredita que os gays estão se enquadrando nas regras heterossexuais e de classe média. Querendo casar, ter filhos e morar em uma bela casa com uma cerca pintada nas cores do arco-íris, ironiza.

A energia dos mais jovens é inegável, no entanto. A descrença nos grandes grupos aumenta a cada dia, mas eles criam grupos menores via internet. O improviso lembra um pouco os primeiros anos da liberação gay. Mas, para seguir as ideias propostas em 1969 pela FLG, a nova geração tem não só que vencer uma batalha legislativa – precisa mudar a sociedade. Tommi tem um conselho. Ele mesmo o segue todos os dias, quando lê uma mensagem na mesa do seu escritório: “Questione tudo.”

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