AUSCHWITZ

[Fotos: Jéssica Cardoso Santos]

Envelheci cinco anos caminhando pelos memoriais de Auschwitz.

Algumas situações provocam esse tipo de amadurecimento instantâneo – ter um filho imagino que seja uma delas. Não pensei que Auschwitz seria capaz disso, ao descer da van que levava os turistas ao campo de concentração naquela manhã de fevereiro. Mas enquanto a guia turística falava, ia me batendo um senso de realidade tão palpável quanto a neve que congelava meu nariz. O ser humano de repente se tornou muito mais cruelmente real.

Quando minha parceira de mochilão e eu programamos nosso roteiro pelo leste europeu, preferimos ignorar a onda de frio polar que se aproximava da Europa e cismamos em conhecer o campo de concentração polonês. Pelo interesse na história da Segunda Guerra Mundial, por curiosidade, nem sabíamos direito a razão. Só sei que levamos a cisma adiante, nos hospedamos na Cracóvia e pagamos 100 zlots (cerca de R$ 60) por um pacote que incluía transporte e visita guiada pelo complexo de Auschwitz, a 75 km, na cidade de Oswiecim.

O complexo é formado pelos campos de Auschwitz I e Birkenau, a 20 minutos de distância um do outro. Os dois são os campos mais conhecidos do mundo. Não só por terem sido onde 1,5 milhão de judeus foram mortos, mas também pelas experiências científicas doentias que se desenvolviam lá. Apesar de estarem no imaginário coletivo (o portão com a frase “O trabalho liberta” fica lá, bem como o cenário do filme A lista de Schindler) nada consegue nos preparar para o absurdo daquilo tudo. Além de fotos, fichas cadastrais e relatórios médicos dos prisioneiros, estão expostos objetos pessoais e de higiene que eram entregues antes dos “banhos” na câmara de gás. Há quartos, escritórios, consultórios, câmaras e fornos crematórios intactos.

Em sua maioria vindos da Grécia e Hungria, os prisioneiros chegavam convencidos de que estavam sendo deportados para se restabelecerem no leste da Europa. Muitos inclusive haviam comprado, de alemães, lotes de fazendas inexistentes. Por isso, traziam nas malas seus bens mais valiosos, que mais tarde acabariam em mãos nazistas.

Qualquer pessoa deve se preparar para sair de lá arrasada. Nem todo o chocolate quente da Cracóvia é suficiente para diminuir o travo amargo que fica na boca

Na entrada de Birkenau, existe um vagão de trem para simbolizar o local em que os soldados faziam a triagem entre as pessoas aptas e não aptas a trabalhar. Estas últimas, em geral mulheres, crianças, idosos e deficientes, iam direto para a câmara de gás. Acreditando que iriam apenas tomar banho, ganhavam sabão e toalha. No museu, há uma série de fotos das filas dos “banhos”. Estavam todos sempre tranquilos, algumas crianças até brincavam.

O que mais choca são os detalhes macabros com que tudo era planejado. Nem a ficção seria tão cruel. Quando os prisioneiros marchavam pelos pátios, uma fanfarra tocava para auxiliar a marcação dos passos. Cada judeu tinha direito a usar o banheiro duas vezes ao dia, enquanto os soldados contavam até cinco. Tudo era reaproveitado: os dentes de ouro eram fundidos em barras e, os cabelos, cortados e vendidos para fábricas de vassouras e roupas. A parte do museu que mais impressiona é onde se vê, atrás de um vidro, cabelos de mais de duas mil mulheres e crianças. É possivelmente a sala com os turistas mais silenciosos do mundo.

A verdade é que qualquer pessoa deve se preparar para sair de lá arrasada. Nem todo o chocolate quente da Cracóvia é suficiente para diminuir o travo amargo que fica na boca. A visita aos dois campos de concentração dura em média quatro horas, mas é preciso ao menos um dia inteiro para digerir as informações.

É tudo tão pesado que em determinado momento você se pergunta: é certo fazer desse lugar um ponto turístico? Não é injusto cobrar entrada para que turistas fotografem esse horror todo?

Mas o fato é que não, não é errado. Viajar não é só conhecer paisagens maravilhosas, arquiteturas divinas, baladas épicas e pubs antológicos. É também entrar em contato com nosso passado mais obscuro, caminhar por lugares onde coisas terríveis aconteceram, é engolir o choro pela estupidez do mundo inteiro.

Uma das placas na entrada de Auschwitz I diz: “Aquele que não recorda a história está condenado a vivê-la novamente”. A Europa aprendeu a não esconder os corpos da Segunda Guerra no armário, diferente do que se faz aqui na América do Sul em relação às ditaduras, por exemplo. Lá, o escancarado se faz necessário. Principalmente quando nos damos conta de que tudo o que se vê nos campos de concentração aconteceu nem faz tanto tempo assim: apenas 70 anos.

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Sobre o Autor

Repórter da Naipe, é curiosa demais e sossegada de menos. Já passou a tarde lendo à beira do Sena, fez piquenique no Coliseu e descobriu da pior maneira possível que não existe Super Bonder na Cracóvia.



2 Responses to AUSCHWITZ

  1. Gisela Fonseca says:

    Nossa, Rosielle!!! Obrigada pelo sincero relato!!! Imagino, pelas suas palavras a esfera macabra, sangrenta e dolorosa que se deve sentir ao visitar o campo. Se já chorei muito, mas muito na Lista de Schindler, imagina ao vivo e a cores imaginando tudo aquilo acontecendo ali.

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